A Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, no centro do Rio de Janeiro, foi palco de uma tarde dedicada ao futebol feminino na última quarta-feira (21). Quatro equipes disputaram um minitorneio, com os meninos acompanhando as partidas das arquibancadas e ex-jogadoras da Seleção Brasileira incentivando as jovens que participaram da atividade.
A atividade marcou a abertura do programa Pioneiras nas Escolas, iniciativa que leva ex-jogadoras a unidades da rede pública municipal para compartilhar experiências, falar sobre a trajetória no futebol e mostrar às estudantes que o esporte também pode abrir caminhos para o futuro.
Durante o encontro, as ex-atletas Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, conhecidas como Fia, Caju e Pelezinha, relembraram as dificuldades enfrentadas ao longo da carreira. Mais de 100 alunas participaram de uma conversa no auditório, fizeram perguntas e aproveitaram a oportunidade para tirar fotos com as convidadas.
Fia, de 62 anos, contou que precisou lidar com o machismo desde o início da trajetória no futebol. Segundo ela, jogar com meninos fazia parte da rotina, e a confiança na própria habilidade ajudava a enfrentar o preconceito. “Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, relatou às estudantes.
A ex-zagueira Caju, de 60 anos, também recordou as provocações que ouvia durante as partidas. Integrante da Seleção Brasileira entre 1988 e 1999, ela disputou 43 jogos pela equipe, com 34 vitórias. A atual árbitra contou que comentários discriminatórios serviam como estímulo para demonstrar a capacidade das mulheres dentro de campo.
O projeto é coordenado por Duda Luizelli, ex-jogadora da Seleção Brasileira, que também defendeu o Internacional, de Porto Alegre, e os clubes italianos Milan e Verona. Para ela, a formação escolar precisa caminhar junto com a prática esportiva, já que a carreira de atleta tem duração limitada. A bicampeã sul-americana destacou que os estudos são fundamentais para garantir oportunidades profissionais depois do encerramento da vida esportiva.
A iniciativa conta com a parceria da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Desde 2012, a Escola Municipal Juan Antonio Samaranch funciona como Ginásio Experimental Olímpico (GEO), com ensino integral e incentivo ao esporte. A unidade atende cerca de 600 estudantes, de 11 a 15 anos, e oferece treinamento em 19 modalidades. Atualmente, a cidade conta com 12 escolas desse modelo, criado durante a preparação para os Jogos Olímpicos Rio 2016.
A coordenadora de Projetos Integradores da secretaria, Caroline Guedes, afirmou que a ação também se relaciona à preparação da cidade para receber partidas da Copa do Mundo Feminina de 2027, prevista para junho e julho. Para a estudante Letícia Pereira, de 15 anos, aluna do 9º ano, receber as ex-jogadoras é um privilégio e uma oportunidade de perceber que o esporte pode representar uma perspectiva concreta de futuro. Ela também disse que pretende acompanhar os jogos do Mundial no próximo ano.
As histórias compartilhadas pelas atletas chamaram a atenção das alunas, especialmente quando o assunto foi a proibição histórica da participação feminina no futebol brasileiro. Entre 1941 e 1979, a prática era vetada às mulheres com base no Decreto-Lei nº 3.199, que restringia a presença feminina em esportes considerados incompatíveis com sua natureza. A proibição foi encerrada em 1979, mas a regulamentação do futebol feminino só ocorreu em 1983.
A primeira participação da Seleção Brasileira feminina em uma competição internacional aconteceu em 1988, em um torneio experimental realizado na China. A primeira Copa do Mundo Feminina foi disputada no mesmo país, em 1991, e a modalidade entrou no programa olímpico em 1996, nos Jogos de Atlanta, nos Estados Unidos. Ao conhecer essa história, a estudante Nicoly Melo, de 12 anos, questionou por que as mulheres eram impedidas de jogar, demonstrando surpresa com uma realidade que hoje parece distante para muitas meninas.
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