A crise da Apex Partners ganhou uma nova dimensão no Espírito Santo. Além da disputa judicial envolvendo o passivo de quase R$ 1 bilhão e das apurações sobre a origem das inconsistências financeiras, o Ministério Público Estadual passou a receber representações que colocam sob análise diferentes braços da atuação do grupo, incluindo investimentos ligados à CVC, relações com agentes públicos e possíveis crimes no sistema financeiro.
Documentos aos quais o Giro Capixaba teve acesso mostram pelo menos três procedimentos registrados no Ministério Público do Espírito Santo. As apurações caminham em frentes distintas e ampliam o alcance institucional do caso.
Uma delas trata especificamente do BRM Carbyne Voyage FIA e menciona possíveis irregularidades na comercialização e na gestão do fundo, promessa de rentabilidade mínima equivalente a 100% do CDI, concentração da carteira em ações da CVC Corp., forte desvalorização das cotas e possível prejuízo coletivo aos investidores. O procedimento foi registrado sob o número 2026.0021.2847-64 e está na 16ª Promotoria de Justiça Cível de Vitória, sob responsabilidade do promotor Bruno Araújo Guimarães.
Uma segunda representação pede a apuração de despesas públicas, viagens oficiais, critérios de participação e instrumentos jurídicos relacionados à presença de agentes e entidades do Governo do Espírito Santo e do Bandes em eventos promovidos ou organizados pela Apex Partners, entre eles o BUY ES e o Brazilian Regional Markets.
O documento cita questionamentos sobre eventual emprego de recursos públicos, escolha de participantes, parcerias e resultados dessas missões. O caso recebeu o número 2026.0020.8877-33 e foi encaminhado à 18ª Promotoria de Justiça Cível de Vitória. A terceira frente é criminal.
O documento registra uma representação por supostas irregularidades na gestão da Apex Partners e da Rhino Securitizadora, mencionando, em tese, crimes contra o sistema financeiro nacional, contra o mercado de capitais, contra o patrimônio e outros ilícitos relacionados.
Entre os nomes relacionados como requeridos aparecem o fundador afastado Fernando Cinelli, o ex-diretor financeiro Eduardo Siqueira, Pedro Chieppe Moura de Rezende Ferraço, filho do governador Ricardo Ferraço, e Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande.
Também estão relacionados outros executivos, a Apex Partners Gestão de Ativos, a Rhino Holding e Participações e a BRM Apex Investimentos. O procedimento é o 2026.0020.8166-96 e aparece no gabinete da 8ª Promotoria de Justiça Criminal de Vitória.
A inclusão de nomes em uma representação não significa denúncia criminal, indiciamento ou reconhecimento de responsabilidade. Nesta fase, trata-se de notícia levada ao Ministério Público para análise e eventual adoção de providências.
MP já acompanha processo bilionário da Apex
A atuação do Ministério Público não começou com essas representações. Na semana passada, a 16ª Promotoria de Justiça Cível de Vitória apresentou manifestação no processo que discute a situação econômico-financeira do grupo Apex.
Segundo o MPES, a ação envolve empresas do conglomerado e exige uma análise cuidadosa sobre a real capacidade financeira das companhias antes de qualquer conclusão sobre eventual recuperação judicial. O Ministério Público afirmou que acompanhará o caso fiscalizando a legalidade e os interesses envolvidos.
Em outra apuração publicada por A Gazeta, a primeira manifestação ministerial chamou atenção para uma diferença de R$ 13,2 milhões nos números apresentados à Justiça e se posicionou contra o pagamento de lucros, dividendos e bônus aos sócios enquanto a situação financeira não estivesse esclarecida.
A dívida líquida da Apex teria saltado de aproximadamente R$ 413 milhões, no início de 2025, para R$ 975 milhões em junho deste ano. É nesse ambiente que os novos procedimentos ganham relevância.
Eles não tratam apenas do tamanho do rombo, mas começam a alcançar a forma como os investimentos foram comercializados, a relação da Apex com o poder público e a estrutura de decisões dentro das empresas do grupo.
Fundo Carbyne coloca CVC no centro da apuração
O procedimento envolvendo o BRM Carbyne Voyage FIA toca em uma das operações mais controversas da Apex.
A representação recebida pelo Ministério Público menciona concentração de investimentos em ações da CVC Corp. e uma suposta promessa de remuneração mínima equivalente a 100% do CDI. Também registra a expressiva desvalorização das cotas e possível prejuízo coletivo a investidores.
A exposição à CVC já apareceu em outras frentes da crise. Fernando Cinelli, fundador afastado da Apex, foi à Justiça pedir atas, e-mails, contratos e documentos internos justamente para tentar demonstrar que decisões importantes — entre elas a aquisição de participação na CVC — não eram tomadas exclusivamente por ele.
A estratégia de defesa procura mostrar que havia comitês, diretorias e outros executivos participando das decisões relevantes. É nesse ponto que a estrutura de comando da Apex ganha importância.
Pedro Ferraço tinha posição executiva na Apex
Pedro Ferraço não aparece nessa história apenas por ser filho do atual governador. Documentos societários revelados pela Veja mostram que ele era cofundador e vice-presidente da Apex e também ocupava a posição de head da APX Investimentos. Em dezembro de 2025, tornou-se acionista direto da Apex Partners Gestão de Ativos depois de converter R$ 500 mil em debêntures em ações da companhia.
Poucos dias depois, Pedro passou a ocupar outra função sensível. Em 8 de janeiro deste ano, foi eleito diretor de compliance da Rhino Securitizadora. Dois dias antes, a Rhino havia aprovado uma emissão de até R$ 60 milhões em debêntures vinculadas à BRM Apex Investimentos.
A função de compliance compreendia o acompanhamento do cumprimento das regras, políticas, procedimentos e controles internos da securitizadora.
Não existe, até agora, documento público demonstrando que Pedro tenha participado da aprovação daquela emissão ou das inconsistências financeiras descobertas posteriormente.
Mas a sobreposição de posições passou a ser uma das principais questões de governança do caso: ele era executivo e acionista da Apex e, simultaneamente, ocupava o compliance de uma securitizadora que mantinha negócios relevantes com empresas do próprio grupo.
Quase metade do passivo está ligada à Rhino
Essa relação ganhou outro peso quando apareceram os números preliminares da crise. Dos R$ 985,6 milhões de passivo bruto apresentados pela Apex à Justiça, R$ 452,1 milhões estavam relacionados a debêntures emitidas por intermédio da Rhino.
Isso significa que quase metade do passivo informado pela Apex estava vinculada às operações estruturadas pela securitizadora. Os números ainda dependem de validação e auditoria independente.
O procedimento criminal agora registrado no MPES inclui tanto Pedro Ferraço quanto a Apex, a Rhino Holding e a BRM Apex Investimentos entre os requeridos.
Mais uma vez, isso não significa que o Ministério Público tenha concluído pela existência de crime ou pela responsabilidade de qualquer dessas pessoas ou empresas. A representação apenas provoca a análise do órgão.
Victor Casagrande também aparece na representação
Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande, também aparece entre os requeridos no procedimento encaminhado à Promotoria Criminal.
Victor ocupou funções empresariais na Apex e era apresentado publicamente como diretor institucional do grupo. Até agora, não surgiu documento público que o coloque diretamente na gestão financeira, na tesouraria ou na aprovação das operações que deram origem ao passivo.
A presença dele na representação, entretanto, amplia a necessidade de esclarecer qual era efetivamente o papel de cada integrante da alta administração e quais informações chegavam às diferentes diretorias enquanto o endividamento crescia.
Governo e Apex também entram no radar do MP
Outra representação pode produzir repercussões políticas ainda maiores. Ela pede que o Ministério Público verifique a regularidade de despesas públicas, viagens oficiais e critérios utilizados para a participação de agentes e entidades estaduais em eventos relacionados à Apex.
O documento cita nominalmente o Bandes e eventos como BUY ES e Brazilian Regional Markets. Não há, nos documentos apresentados ao Giro Capixaba, conclusão de que tenha ocorrido gasto irregular.
O que existe é um pedido de apuração. A nova frente aparece justamente quando a relação da Apex com estruturas do Governo do Estado começa a receber atenção nacional.

Veja revelou incentivo fiscal a empreendimento ligado à Apex
Reportagem da revista Veja publicada em 13 de agosto mostrou que, em julho de 2023, o Comitê de Avaliação do Invest-ES aprovou benefício fiscal para a Apex Log Pitanga Empreendimento Imobiliário, empreendimento ligado à Apex.
Naquele período, Ricardo Ferraço era vice-governador, secretário estadual de Desenvolvimento e coordenador do comitê responsável por avaliar os pedidos apresentados ao programa.
Pedro Ferraço já fazia parte da Apex e era apresentado como vice-presidente da companhia.
A norma do colegiado previa impedimento em situações envolvendo interesse direto ou indireto e determinava comunicação e abstenção diante de eventual conflito.
A Veja, no entanto, fez uma ressalva fundamental: os documentos encontrados pela revista não comprovam que Ricardo Ferraço tenha participado da reunião específica que concedeu o benefício, votado a favor da Apex Log Pitanga ou interferido na tramitação do pedido.
A resolução referente à reunião foi assinada pela coordenadora suplente.
A assessoria do governador sustentou que o incentivo destinado ao setor atacadista e logístico faz parte de uma política pública ampla, aplicada a empresas que atendam aos critérios definidos pelo Estado, e negou qualquer direcionamento específico para beneficiar a Apex.
Relação de Ricardo Ferraço com a Rhino vem de antes
A própria Veja revelou outro elo empresarial anterior. Antes de retornar à política eleitoral, Ricardo Ferraço foi diretor comercial da Rhino Securitizadora. Uma empresa ligada a ele detinha 25% das ações da companhia.
Em agosto de 2022, essa participação passou para uma empresa representada pelo filho Pedro.
Anos depois, a Rhino se tornaria uma das principais estruturas de financiamento utilizadas nas operações relacionadas à Apex.
Os documentos, contudo, não demonstram que Ricardo tenha participado dessas operações depois de deixar a empresa, tampouco que tivesse conhecimento das inconsistências financeiras posteriormente identificadas.
Caso entra em uma nova fase
A crise da Apex começou como uma questão financeira. Agora, passa a se dividir em diferentes frentes.
A Justiça discute a proteção das empresas e dos credores. A auditoria tenta estabelecer o tamanho real do passivo. Ex-dirigentes travam uma disputa para definir quem participou das decisões. E o Ministério Público passa a receber representações envolvendo investidores, relações com o Estado e possíveis infrações criminais.
Para a política capixaba, o ponto mais sensível é justamente a interseção entre esses mundos. Pedro Ferraço e Victor Casagrande não eram investidores externos: ocupavam funções dentro da Apex. Ricardo Ferraço teve relação empresarial anterior com a Rhino e coordenava o Invest-ES quando um empreendimento ligado à Apex recebeu incentivo fiscal.
Nada disso, isoladamente, prova prática ilícita. Mas as novas apurações indicam que a pergunta que antes era feita apenas por investidores agora também chegou ao Ministério Público: quem decidia, quem fiscalizava e quem tinha conhecimento das operações que terminaram em uma crise financeira de quase R$ 1 bilhão? Essa resposta deverá definir os próximos capítulos do caso.
*Com reportagem da Agência Fonte Exclusiva. Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Espírito Santo.
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