As apostas esportivas e outros jogos virtuais ganharam espaço na rotina de muitas pessoas, mas, quando o jogador perde o controle, a diversão pode se transformar em um problema grave de saúde mental. Durante o Setembro Amarelo, especialistas reforçam a importância de falar abertamente sobre os riscos relacionados ao jogo problemático, que pode estar associado a ansiedade, depressão, dívidas, conflitos familiares, isolamento e desesperança.
Entre os sinais que merecem atenção estão mudanças de comportamento, afastamento de familiares e amigos, aumento do consumo de álcool e falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de continuar vivendo. Para a psiquiatra Katia Branco, do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, abordar pensamentos suicidas durante o tratamento não aumenta o risco. Segundo ela, a conversa pode ajudar o paciente a revelar um sofrimento que vinha sendo mantido em silêncio.
A especialista explica que muitas pessoas que procuram ajuda por causa da ludopatia, transtorno ligado ao comportamento compulsivo de jogar, já apresentam sintomas de ansiedade e depressão. Em alguns casos, os prejuízos financeiros provocados pelas apostas são tão grandes que o paciente passa a enxergar a própria situação como sem saída. O neurocirurgião Orlando Maia também destaca que a expectativa de ganhar pode estimular o sistema de recompensa do cérebro e levar a pessoa a buscar repetidamente essa sensação.
O problema se agrava quando as perdas fazem o jogador aumentar os valores das apostas na tentativa de recuperar o dinheiro. Com o tempo, podem surgir dívidas, conflitos familiares, dificuldades no trabalho, insônia, culpa, vergonha e isolamento. Como nem sempre a própria pessoa reconhece que desenvolveu uma relação problemática com as apostas, familiares e amigos podem ser fundamentais para perceber mudanças e incentivar a busca por ajuda.
A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, afirma que pessoas que chegam ao serviço após uma tentativa de suicídio muitas vezes estão expressando um sofrimento extremo. Nesses casos, o acolhimento deve envolver também a família, quando possível. Para a especialista, o problema não pode ser encarado apenas como uma questão individual ou relacionada ao uso do celular, mas também como uma questão que exige ações coletivas e políticas de prevenção.
A psiquiatra Giovanna Quinet, do Rio de Janeiro, ressalta que apostar não significa necessariamente desenvolver depressão ou ter pensamentos suicidas. O alerta surge quando o jogo deixa de ser ocasional e passa a ocupar um espaço central na vida, acompanhado de perda de controle e consequências negativas. A facilidade de acesso às plataformas, disponíveis praticamente 24 horas pelo celular, além da presença das apostas em propagandas esportivas e redes sociais, pode favorecer a repetição do comportamento.
Os especialistas recomendam que a busca por ajuda não seja adiada até que a situação chegue ao limite. O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e psiquiátrico e, quando necessário, medicamentos prescritos por profissionais de saúde. Também é importante criar um ambiente em que a pessoa possa falar sobre pensamentos relacionados à morte sem medo de julgamento. Perguntar diretamente sobre o assunto não significa estimular o suicídio e pode ajudar a identificar uma situação de risco.
Em casos de risco imediato de suicídio, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de emergência. O Samu pode ser acionado pelo telefone 192. Quem estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar pode procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, com atendimento gratuito 24 horas por dia. Também é possível buscar ajuda na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do SUS, que inclui os Caps. O alerta dos especialistas é que o jogo problemático vai muito além das perdas financeiras e, quanto mais cedo houver ajuda, maiores são as chances de interromper esse ciclo.
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