Apesar de o diálogo ser apontado como o melhor caminho para orientar crianças, práticas como gritos, ameaças e agressões físicas ainda fazem parte da rotina de muitas famílias brasileiras. É o que mostra uma pesquisa nacional sobre atitudes e percepções relacionadas à infância e à violência contra crianças e adolescentes.
O levantamento foi realizado pelo Infinis — Instituto Futuro é Infância Saudável, ligado à Fundação José Luiz Setúbal, em parceria com a Quaest. Foram entrevistadas presencialmente 2.202 pessoas com 18 anos ou mais, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Diálogo aparece como ideal, mas não domina a prática
A pesquisa identificou um contraste entre aquilo que os brasileiros consideram adequado e a maneira como parte deles reage diante de situações de desobediência ou conflito.
Segundo o estudo, 91% consideram ideal conversar com a criança e explicar o erro. Na prática, 93% afirmaram já ter adotado essa forma de orientação pelo menos uma vez. Os dados, entretanto, mostram que o diálogo convive com medidas mais duras.
Entre os entrevistados, 62% reconheceram que já gritaram com uma criança — 54% algumas vezes e 8% frequentemente. Outros 49% admitiram ter dado tapas com a mão, enquanto 39% disseram já ter ameaçado bater. O uso de objetos, como chinelos ou outros utensílios, foi relatado por 27% dos participantes.
O estudo também constatou que 48% dos brasileiros já aplicaram castigos para restringir momentos de lazer. Além disso, 22% disseram ter beliscado o braço ou puxado a orelha de uma criança, e 18% reconheceram já ter xingado ou ofendido.
Palmada ainda encontra aceitação
Embora a maioria rejeite agressões mais graves, a palmada continua sendo considerada aceitável por uma parcela expressiva da população. O relatório destaca que aproximadamente metade dos entrevistados admite o tapa como forma de correção e também reconhece já ter recorrido à prática.
Quando questionados sobre diferentes formas de tratamento, 51% classificaram o tapa com a mão como inaceitável. Outros 28% disseram considerá-lo aceitável, embora não ideal, enquanto 20% avaliaram a prática como ideal e aceitável.
Em relação aos gritos, 62% afirmaram que a atitude não é aceitável. Mesmo assim, o número de pessoas que admitiu ter gritado com uma criança também chegou a 62%, evidenciando a diferença entre o comportamento considerado correto e aquele adotado em momentos de estresse.
Maioria não interviria em agressão pública
A omissão diante de situações presenciadas em locais públicos também chamou a atenção dos pesquisadores. Ao serem perguntados sobre o que fariam ao ver uma pessoa dando palmadas ou puxões de orelha em uma criança na rua, 32% responderam que não tomariam nenhuma providência porque “cada um sabe da própria vida”.
Outros 30% disseram que gostariam de intervir, mas ficariam constrangidos. Somados, os dois grupos representam 62% dos participantes que, apesar de reprovarem determinadas agressões, provavelmente não agiriam para interrompê-las.
Apenas 21% afirmaram que abordariam diretamente o responsável, enquanto 15% chamariam a atenção de outras pessoas ou acionariam a polícia. Em 2023, o percentual de entrevistados que não tomaria nenhuma medida diante de uma situação semelhante era de 64%.
Violência pode ser reproduzida entre gerações
O levantamento também analisou a relação entre as experiências vividas pelos adultos durante a própria infância e as práticas utilizadas atualmente na educação de crianças.
Os resultados indicam uma associação entre uma criação marcada por punições e uma maior aceitação de métodos disciplinares rígidos na vida adulta. Em média, pessoas que sofreram mais punições quando eram crianças apresentam maior tendência a repetir práticas semelhantes.
Os responsáveis pelo estudo ressaltam, porém, que essa relação não representa uma consequência inevitável. Uma parcela significativa das pessoas que enfrentou métodos violentos na infância consegue romper o ciclo e adotar formas de educação baseadas no diálogo, no respeito e na proteção.
O que determina a legislação
Desde 2014, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito de crianças e adolescentes serem educados e cuidados sem castigo físico ou tratamento cruel e degradante.
A Lei nº 13.010, conhecida como Lei Menino Bernardo, considera castigo físico qualquer ação disciplinar que utilize força e provoque sofrimento ou lesão. Também são proibidas condutas que humilhem, ameacem gravemente ou ridicularizem crianças e adolescentes.
Casos suspeitos ou confirmados podem ser comunicados ao Conselho Tutelar. Denúncias de violência, maus-tratos e outras violações de direitos também podem ser feitas gratuitamente pelo Disque 100, serviço nacional que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados.
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