Levar vacinação a comunidades indígenas da Amazônia exige planejamento, longas viagens e respeito às tradições culturais dos povos atendidos. No território do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Purus, cerca de 11 mil indígenas vivem em 155 aldeias espalhadas entre Acre, Amazonas e Rondônia.
A região abriga povos das etnias Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá/Huni Kuin, Madiha/Kulina e Manchineri, com idiomas e costumes distintos. Em muitos locais, o português sequer é utilizado como principal forma de comunicação.
O coordenador do DSEI, Evangelista Apurinã, explica que o trabalho das equipes depende de diálogo e entendimento da organização social de cada povo.
Segundo ele, algumas comunidades exigem negociações específicas antes da realização de qualquer ação de saúde, incluindo campanhas de vacinação.
Além das diferenças culturais, os profissionais enfrentam dificuldades logísticas. Dependendo das condições climáticas, o acesso às aldeias pode ocorrer por barco, caminhonete, quadriciclo, pequenos botes ou até helicópteros.
As equipes permanecem até 40 dias em trabalho itinerante para atender comunidades onde não existem unidades de saúde fixas.
Vacinas precisam de refrigeração constante
Outro desafio é manter a conservação adequada das vacinas durante os deslocamentos. Os imunizantes precisam permanecer entre 2°C e 8°C para garantir eficácia.
Para isso, os profissionais utilizam freezers instalados em embarcações, caixas térmicas e bobinas de gelo.
A enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável técnica pela área de imunizações do distrito, afirma que o planejamento é feito a partir de um censo vacinal detalhado das famílias indígenas.
Com base nesses dados, as equipes calculam exatamente quantas doses serão necessárias em cada aldeia e realizam busca ativa de pessoas que ainda não foram vacinadas.
Capacitação fortalece atendimento
A enfermeira Evelin Plácido, que atua na capacitação de profissionais de saúde, destaca que trabalhar em territórios indígenas exige preparo técnico e habilidade de comunicação.
Ela ministrou recentemente um curso em Rio Branco para profissionais que atuam em áreas remotas do Acre.
Segundo Evelin, além das técnicas de armazenamento e aplicação das vacinas, os trabalhadores precisam aprender a explicar os benefícios da imunização de forma acessível e respeitosa.
A capacitação é oferecida pela MSD, fornecedora de vacinas ao Programa Nacional de Imunizações do Sistema Único de Saúde.
Surto de influenza acendeu alerta
Em 2024, durante a seca histórica na Amazônia, uma aldeia da região enfrentou um surto de influenza que resultou na morte de duas crianças indígenas.
Diante da emergência, equipes de saúde anteciparam a campanha de vacinação e utilizaram transporte aéreo e pequenas embarcações para alcançar as comunidades isoladas.
Além da vacinação contra gripe e covid-19, povos indígenas e populações vulneráveis de áreas remotas também passaram a receber imunização contra a raiva, devido ao maior risco de ataques de animais silvestres.
A profissional de saúde Natália Diniz, que atua em Boca do Acre, afirma que o trabalho exige dedicação, mas também traz grande significado.
“Quando a gente faz vacina nos territórios, não é só uma vacina. Estamos dando oportunidade para aquela pessoa ter um futuro com saúde”, destacou.
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