A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, a crise político-institucional ganhou grande espaço no noticiário, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia. Para representantes de entidades da sociedade civil, a situação acabou deixando em segundo plano as propostas dos candidatos e questões estruturais que afetam diretamente a população brasileira.
As disputas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ultrapassaram os limites da própria Corte e passaram a envolver outras instituições. Para a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, o cenário prejudica o debate eleitoral porque a atenção pública está concentrada nos desdobramentos da crise. A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, também lamenta o pouco espaço dado a temas como ciência e tecnologia, que dependem de planejamento, orçamento estável e políticas de longo prazo.
Os representantes ouvidos pela Agência Brasil consideram graves as denúncias reveladas a partir dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, iniciada pela Polícia Federal em novembro de 2025. Eles defendem que as suspeitas envolvendo autoridades e o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao antigo Banco Master, sejam devidamente investigadas, mas avaliam que a apuração não pode impedir que os eleitores conheçam as propostas de quem disputará as eleições.
Para o coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, a eleição ocorre em um momento decisivo, marcado por mudanças econômicas, conflitos internacionais e transformações na produção mundial. Segundo ele, temas como desenvolvimento econômico, soberania, educação, defesa, ciência e tecnologia deveriam ocupar um espaço maior nos programas de governo. Já a presidenta do Diap, Rita Serrano, cita como prioridades para os trabalhadores o fim da escala 6×1, a geração de empregos e renda, a regulamentação da negociação coletiva no setor público e o fortalecimento da segurança pública.
A crise climática também aparece entre os assuntos que as entidades consideram indispensáveis durante a campanha. O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, lembra os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul, da seca na Amazônia e de outros eventos extremos sobre a população, a produção agrícola e os cofres públicos. Ele critica a falta de destaque do tema entre os candidatos e alerta que negar a existência da crise dificulta a adoção de medidas para reduzir seus efeitos.
Outro ponto considerado estratégico é a exploração de minerais críticos e terras raras, recursos cada vez mais importantes para áreas como indústria, tecnologia, ciência e defesa. A discussão ganhou força após a aprovação do projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, encaminhado para sanção presidencial. Enquanto o setor produtivo vê potencial para ampliar a capacidade tecnológica do país, organizações indígenas cobram proteção ambiental e respeito à consulta prévia das comunidades, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Alcebias Constantino, afirma que a discussão sobre esses recursos está diretamente ligada à defesa dos territórios indígenas e à garantia de direitos básicos das comunidades. Como estratégia para ampliar a representação política, o movimento decidiu lançar e apoiar 56 candidaturas em 2026: 33 para deputado estadual, 19 para deputado federal, duas para o Senado, uma para governador e uma para suplência do Senado.
Com a aproximação do primeiro turno, as entidades defendem que a campanha volte a abrir espaço para assuntos que terão impacto direto na vida dos brasileiros. Economia, trabalho, educação, ciência, tecnologia, meio ambiente, segurança, soberania nacional e direitos dos povos indígenas estão entre os temas apontados como essenciais para que os eleitores possam comparar propostas e decidir os rumos do país nas urnas.
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