A recente prisão do prefeito afastado e do ex-prefeito de Pedro Canário durante a Operação Eco da Fraude II pode representar mais do que um episódio policial isolado. Pode ser um sinal de que as instituições de controle ainda funcionam em um Estado onde, cada vez mais, práticas antes consideradas exceções passam a ser encaradas como parte da normalidade administrativa.
A operação, conduzida pela Polícia Federal, investiga suspeitas de corrupção, fraude em licitações, peculato e lavagem de dinheiro envolvendo recursos públicos municipais. As medidas autorizadas pela Justiça incluíram prisões, afastamentos de agentes públicos e mandados de busca e apreensão.
Kleilson Martins Rezende (PSB) é o prefeito afastado e sucessor político do grupo que administra o município desde 2017. Bruno Teófilo Araújo (PDT) foi prefeito por dois mandatos consecutivos (2017-2024). Ambos estão presos e tiveram liminar negada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O caso reacende uma discussão mais ampla sobre um fenômeno que começa a ganhar contornos próprios no Espírito Santo: a gradual transformação de determinadas práticas políticas em modelo de governança. É o que se pode chamar de “Kennedização” da política capixaba.
O conceito não se refere apenas ao município de Presidente Kennedy, mas ao simbolismo que a cidade adquiriu ao longo dos últimos anos.
Com uma das maiores receitas per capita do Brasil graças aos royalties do petróleo, Presidente Kennedy tornou-se um laboratório singular da política brasileira. Bilhões de reais passaram pelos cofres municipais ao longo das últimas décadas. Entretanto, o volume extraordinário de recursos não produziu apenas investimentos e obras.
Produziu também uma sucessão de questionamentos sobre contratos públicos, adesões de atas, disputas judiciais, denúncias e um ambiente onde a percepção de fiscalização efetiva parece muitas vezes insuficiente diante da magnitude dos recursos administrados.
A cidade, que recebeu o nome do presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy em meio à comoção internacional causada por seu assassinato em 1963, acabou se tornando conhecida por razões muito distintas das que inspiraram sua homenagem. O município passou a simbolizar uma combinação peculiar de abundância financeira, concentração política e baixa capacidade de reação institucional.
Mas a Kennedização não está necessariamente nos processos ou nas acusações. Ela está na cultura política que se consolida quando agentes públicos passam a agir como se os limites legais fossem meras formalidades.
Essa percepção ganhou novos elementos nesta semana durante a cerimônia de assinatura da Ordem de Serviço para obras na rodovia ES-162. O evento reuniu lideranças estaduais e municipais, entre elas o governador Ricardo Ferraço (MDB), o ex-governador Renato Casagrande (PSB), o presidente da Ales, Marcelo Santos (União Brasil) e o prefeito Dorley Fontão (PSB).
Obras públicas naturalmente exigem atos institucionais. O problema surge quando solenidades financiadas pelo poder público passam a assumir características de promoção política de agentes que estarão no centro da disputa eleitoral seguinte.
Em democracias maduras, existe uma linha clara entre comunicação institucional e promoção pessoal. Quando essa linha desaparece, abre-se espaço para um dos mais antigos mecanismos de desequilíbrio eleitoral: o uso da estrutura estatal para construção de capital político.
Não por acaso, a legislação eleitoral brasileira dedica capítulos inteiros ao tema.
A Lei das Eleições proíbe condutas capazes de afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos. Entre elas estão a utilização promocional de programas governamentais, o uso da estrutura pública em benefício eleitoral, a publicidade institucional em períodos restritivos e diversas formas de abuso de poder político e econômico.
O objetivo é preservar a isonomia entre aqueles que disputam cargos públicos e impedir que a máquina administrativa seja transformada em instrumento de campanha.
Em 2026, ano eleitoral, a atenção dos órgãos de controle sobre essas práticas tende a ser ainda maior. Cartilhas elaboradas pela Advocacia-Geral da União, Ministério Público Eleitoral e outros órgãos reforçam que agentes públicos devem evitar qualquer comportamento que possa ser interpretado como promoção eleitoral utilizando recursos, estruturas ou eventos custeados pelo Estado.
O ponto central, porém, não é jurídico. É político.
Quando autoridades passam a utilizar inaugurações, ordens de serviço e agendas governamentais como plataformas permanentes de exposição eleitoral, cria-se um ambiente em que a disputa deixa de ocorrer entre candidatos e passa a ocorrer entre quem possui acesso ao aparelho estatal e quem não possui.
É exatamente nesse momento que a Kennedização deixa de ser um fenômeno localizado e se transforma em cultura institucional.
A história política brasileira demonstra que grandes escândalos raramente começam com crimes sofisticados. Eles geralmente começam quando pequenas transgressões deixam de gerar consequências.
Primeiro desaparece o constrangimento.
Depois desaparece a fiscalização.
Por fim desaparece o limite.
A Operação Eco da Fraude II talvez tenha importância justamente porque interrompe esse ciclo. Independentemente do resultado final das investigações, ela envia uma mensagem necessária: mandatos não conferem imunidade, cargos públicos não são propriedades privadas e recursos públicos não pertencem aos governantes de ocasião.
O verdadeiro desafio para o Espírito Santo, entretanto, não está apenas em responsabilizar eventuais desvios já ocorridos.
Está em impedir que a cultura que os torna possíveis continue avançando.
Porque a Kennedização não nasce da riqueza.
Ela nasce quando a ausência de limites se torna mais poderosa que a própria lei.
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