“É um divisor de águas”. “É transformador”. Assim mulheres descrevem o impacto do projeto Paisagens Alimentares, coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios Alagoas e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A iniciativa vem fortalecendo comunidades rurais no semiárido nordestino, gerando renda, preservando tradições e incentivando o turismo sustentável.
Um exemplo é Anatália Costa Neto, a Nat, de Indiaroba (SE). Integrante da Associação das Mulheres Empoderadas de Terra Caída, ela venceu o prêmio Mulher de Negócio 2025 na categoria Microempreendedora Individual. Entre suas criações está o hambúrguer de carne de aratu, um caranguejo típico da região. O produto, que ganhou visibilidade após a atuação da Embrapa, hoje é vendido para turistas e lanchonetes. Além dele, a comunidade também diversificou a produção com biscoitos de capim-santo, bolos, pudins, cocadas e geleias.
Em Alagoas, no assentamento Olho D’Água do Casado, Ana Paula Ferreira coordena um grupo de agricultoras que passou a explorar o turismo rural aliado à agricultura familiar. A região, próxima ao Pôr do Sol dos Cânions Dourados e do São Francisco, fortaleceu a preservação da caatinga e abriu espaço para jovens do território, que agora encontram oportunidades sem precisar migrar.
O projeto teve início em 2018 e envolveu três anos de pesquisas e oficinas. Foram selecionados cinco territórios e seis comunidades em Alagoas, Sergipe e Pernambuco, beneficiando diretamente mais de 500 pessoas e impactando cerca de 5 mil moradores. Entre os destaques estão catadoras de mangaba, marisqueiras, quilombolas e artesãs, que passaram a unir a produção agroecológica ao turismo de base comunitária.
Segundo Aluísio Goulart Silva, supervisor da Embrapa Alimentos e Territórios Alagoas, o protagonismo feminino é uma marca do projeto. “Coincidentemente, todas as lideranças são mulheres rurais. Elas organizam trilhas, coordenam associações, produzem alimentos e artesanato, conectando cultura alimentar e desenvolvimento sustentável”, afirmou.
A valorização de ingredientes da biodiversidade, como a mangaba, o coco, o aratu e a mandioca, fortalece a identidade cultural e cria novas perspectivas de renda. Além disso, a troca de saberes evidencia conexões históricas, como no caso do prato funje, típico da comunidade quilombola de Pernambuco e originário de Angola, reafirmando laços ancestrais.
Com apoio do BID e articulação da Embrapa, o projeto Paisagens Alimentares se tornou referência no fortalecimento da agricultura familiar, na preservação ambiental e na promoção de novas economias locais, transformando o futuro de centenas de famílias no semiárido nordestino.
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