A chama acesa por um homem que nasceu escravizado no século XIX continua iluminando gerações no Quilombo Urbano Mineiro Pau, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. Nesta segunda-feira (29), moradores da comunidade voltam a se reunir para celebrar a tradicional Fogueira de Xangô, um ritual preservado há mais de 150 anos e que se tornou símbolo da resistência e da preservação da cultura afro-brasileira.
A tradição teve início com Manoel Caetano Madeira, nascido em 1841 no município de Paraíba do Sul (RJ). Mesmo vivendo sob o regime da escravidão durante mais de quatro décadas, ele manteve viva a prática de acender a fogueira no dia dedicado a São Pedro e São Paulo. No contexto do sincretismo religioso, a celebração também representa uma homenagem ao orixá Xangô, embora essa devoção precisasse permanecer discreta para escapar da repressão da época.
Segundo o bisneto de Manoel, Fausto Manoel Madeira Neto, a referência aos santos católicos servia para proteger um ritual que preservava a espiritualidade de origem africana.
Ao longo dos anos, a fogueira tornou-se muito mais do que um encontro familiar. O espaço passou a fortalecer os laços comunitários, preservar saberes ancestrais e reafirmar a identidade negra por meio das histórias, ensinamentos e manifestações culturais compartilhadas entre gerações.
Após a morte de Manoel Caetano, em 1946, seu filho deu continuidade à tradição ao se mudar para Santa Cruz. Décadas depois, Fausto Neto assumiu a responsabilidade de manter vivo o legado da família, transformando a celebração em um dos principais eventos culturais do quilombo.
Hoje, o ritual é realizado pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo – Kabiúna do Sertão e pela Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ). Para Fausto, a fogueira representa o fundamento espiritual do terreiro e a maior herança deixada pelos antepassados.
Além do caráter religioso e cultural, o evento fortalece o sentimento de pertencimento da comunidade. O quilombo desenvolve ações permanentes de combate ao racismo, assistência social e incentivo à cultura popular, incluindo a distribuição diária de refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade.
As atividades também valorizam as crianças por meio de oficinas educativas e da tradicional Dança do Mineiro Pau, manifestação folclórica afro-brasileira marcada pelo ritmo e pelo uso de bastões de madeira, que voltou a integrar a rotina da comunidade após décadas.
A programação desta segunda-feira começa às 17h, com entrada gratuita. O público poderá acompanhar apresentações de jongo, música popular, danças tradicionais, atividades infantis, comidas típicas e, ao anoitecer, o esperado acendimento da fogueira, momento que celebra a memória, a ancestralidade e a força da cultura negra.
Fausto Neto afirma que pretende manter viva a tradição por muitas gerações. A intenção é transmitir aos filhos e aos futuros descendentes a responsabilidade de preservar um legado que atravessou mais de um século de história e continua fortalecendo a identidade da comunidade.
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