“Não me é possível traduzir em palavras o que sinto e o que penso nesta hora”. Foi assim que Juscelino Kubitschek definiu, há 66 anos, a emoção diante da inauguração de Brasília. Décadas depois, o desafio de traduzir a capital permanece — agora nas mãos de artistas que buscam expressar, em diferentes linguagens, a complexa identidade da cidade.
Um desses intérpretes da “candanguice” é o mímico Miqueias Paz, que encontrou no silêncio e no gesto uma forma de retratar as desigualdades, a força dos migrantes e o cotidiano urbano. Chegado ainda criança à capital, ele iniciou sua trajetória artística na adolescência, em Taguatinga, com um teatro voltado às experiências das periferias.
Nos anos 1980, encenou espetáculos como “Sonho de um retirante” e “História do homem”, enfrentando a censura durante o período da Ditadura Militar no Brasil. Sua arte, baseada na expressão corporal, também o expôs a abordagens policiais frequentes. Ainda assim, consolidou-se como figura ativa em movimentos sociais — especialmente após o gesto simbólico de um coração na rampa do Congresso, em 1984, celebrando o fim do regime.
Hoje, ele mantém o Teatro Mimo, espaço cultural na periferia do DF, voltado ao acolhimento de artistas independentes.
A música também encontra formas próprias de traduzir Brasília. O grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, criado por Tico Magalhães, desenvolveu o “samba pisado”, ritmo que mistura referências como cavalo-marinho, maracatu e outras tradições populares brasileiras.
A proposta vai além da sonoridade:
envolve a criação de uma mitologia própria, com personagens e celebrações que ajudam a construir uma identidade cultural para a capital. Para o fundador, Brasília é uma “cidade inventada” que também inventa suas próprias tradições, fruto do encontro de diferentes povos e culturas.
Na moda, a arquitetura da cidade ganha novas formas. Os estilistas Mackenzo e Felipe Manzoli transformam linhas e curvas urbanas em peças de vestuário. Inspirados pela paisagem e pela história familiar ligada à construção da capital, eles enxergam o corpo como um “território” a ser moldado, em diálogo com a estética modernista da cidade.
A arquiteta e estilista Nara Resende também encontra nas formas geométricas e no contraste entre natureza e concreto a base de seu processo criativo. Para ela, Brasília pulsa nas ruas e nas pessoas, sendo fonte constante de inspiração.
Já a artista visual Isabella Stephan traduz a capital em cores. Suas obras, que transitam entre o figurativo e o abstrato, buscam representar a alegria e o movimento do cotidiano brasiliense, contrapondo o branco e o concreto predominantes na paisagem urbana.
Mais de seis décadas após sua inauguração, Brasília segue desafiando definições. Se faltaram palavras a Juscelino Kubitschek, sobram hoje linguagens artísticas que, cada uma à sua maneira, continuam tentando traduzir a alma da capital.
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