A Receita Federal, em parceria com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e diversos órgãos estaduais e municipais, deflagrou nesta quinta-feira (27/11) a Operação Poço de Lobato, uma das maiores ações já realizadas contra sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis no país.
Ao todo, 126 mandados de busca e apreensão são cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e Bahia, envolvendo pessoas físicas e jurídicas ligadas a um esquema considerado altamente sofisticado.
Segundo as autoridades, o grupo investigado — também vinculado à Operação Carbono Oculto, de 2025 — é o maior devedor contumaz do Brasil, com dívidas que ultrapassam R$ 26 bilhões.
Bens bloqueados e movimentação bilionária
A PGFN e o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (Cira/SP) obtiveram decisões judiciais que bloquearam mais de R$ 10,2 bilhões em imóveis, veículos e outros ativos para garantir o crédito tributário.
As investigações apontam que o grupo movimentou mais de R$ 70 bilhões em apenas um ano, valendo-se de:
- empresas próprias,
- fundos de investimento,
- instituições financeiras controladas pelo grupo,
- estruturas internacionais de blindagem,
- offshores em paraísos fiscais,
- e até uma exportadora no exterior.
A atuação envolve toda a cadeia de combustíveis — da importação à venda final ao consumidor — com um núcleo principal estabelecido no Rio de Janeiro e ramificações em praticamente todo o país.
Fraudes na importação e venda de combustíveis
Entre 2020 e 2025, importadoras ligadas ao esquema trouxeram mais de R$ 32 bilhões em combustíveis. O grupo já havia sido alvo da Operação Cadeia de Carbono, que reteve quatro navios com 180 milhões de litros de combustível.
Após a operação, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) interditou a refinaria do grupo por diversas irregularidades, como;
- falsa declaração de conteúdo de combustíveis,
- indícios de adulteração com aditivos químicos não autorizados,
- ausência de evidências do processo de refino.
Além disso, formuladoras, distribuidoras e postos ligados à organização sonegavam tributos de forma sistemática, agravando o impacto sobre a arrecadação pública e a concorrência no setor.
Ocultação e blindagem patrimonial
A Receita Federal identificou que o grupo concentrava seus recursos em uma grande operadora financeira que atuava como sócia de outras empresas do mesmo ramo. Entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro de 2025, esse núcleo movimentou mais de R$ 72 bilhões.
O esquema utilizava:
- uma financeira “mãe” com diversas empresas “filhas”,
- operações complexas para ocultar beneficiários,
- “contas-bolsão”, que dificultam o rastreamento de recursos,
- 47 contas bancárias atreladas às empresas do grupo.
Após a Carbono Oculto, os investigados mudaram toda a estrutura financeira, permitindo que operadores que antes movimentavam R$ 500 milhões passassem a movimentar mais de R$ 72 bilhões.
Fundos e offshores para lavar e reinvestir recursos
O dinheiro ilícito era reinvestido por meio de 17 fundos de investimento, que juntos somam patrimônio líquido de R$ 8 bilhões. Grande parte deles é formada por fundos fechados com apenas um cotista, o que facilita a ocultação patrimonial.
A análise também revelou participação de offshores, principalmente nos Estados Unidos, criadas em jurisdições como Delaware, conhecidas por permitir anonimato e baixa tributação.
Entre os indícios identificados:
- mais de 15 offshores atuando na aquisição de imóveis e participações no Brasil, somando quase R$ 1 bilhão;
- envio ao exterior superior a R$ 1,2 bilhão via contratos de mútuo conversíveis em ações, que podem retornar ao país como investimentos;
- importação de R$ 12,5 bilhões em combustíveis por meio de uma exportadora adquirida em Houston, Texas.
Por que “Poço de Lobato”?
O nome da operação remete ao primeiro poço de petróleo perfurado no Brasil, em 1939, no bairro de Lobato, em Salvador (BA). A referência destaca a atividade central da empresa investigada, que atua no segmento de combustíveis e figura entre os maiores sonegadores do país.
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