Um levantamento apresentado durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) reacendeu o debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Segundo a pesquisadora Larissa Mies Bombardi, sete dos dez pesticidas mais comercializados no país são proibidos na União Europeia (UE), mas continuam sendo exportados por empresas europeias para o mercado brasileiro.
A geógrafa, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), na França, classifica essa prática como “colonialismo químico”. Para ela, o Brasil se tornou o principal destino de substâncias que já não podem ser utilizadas em diversos países europeus devido aos riscos à saúde humana e ao meio ambiente.
Dados apresentados pela pesquisadora mostram que, em 2023, cerca de 3 mil toneladas de pesticidas proibidos na União Europeia foram enviadas ao Brasil. O volume supera o total exportado para Ucrânia, Estados Unidos e Rússia somados, colocando o país como principal comprador desses produtos.
Larissa Bombardi afirma que muitas dessas substâncias foram proibidas na Europa por apresentarem potencial cancerígeno, provocarem alterações hormonais, malformações fetais ou danos significativos aos ecossistemas.
Outro ponto destacado durante a conferência foi a concentração do mercado mundial de sementes e defensivos agrícolas. Segundo a pesquisadora, quatro grandes empresas controlam mais da metade do mercado global de sementes e cerca de 62% do segmento de agrotóxicos.
Ela avalia que esse cenário fortalece a dependência tecnológica e econômica de países produtores agrícolas em relação às grandes corporações do setor.
Durante a apresentação, Larissa também chamou atenção para os efeitos dos pesticidas sobre a biodiversidade.
Entre os exemplos citados está a atrazina, um dos herbicidas mais utilizados no Brasil e proibido na União Europeia. Estudos apontam que a substância pode provocar alterações hormonais em anfíbios, comprometendo sua reprodução.
A pesquisadora também mencionou dados do Atlas dos Pesticidas 2022, segundo os quais houve redução de 41% na população mundial de insetos entre 2009 e 2019. No caso das borboletas, a queda chegou a 53%, indicando impactos relevantes sobre a biodiversidade.
Na avaliação da especialista, o Brasil tem condições de liderar discussões internacionais voltadas ao fortalecimento da regulamentação dos agrotóxicos e ao incentivo à agricultura familiar.
Ela defende que o avanço de políticas públicas e da conscientização da sociedade pode contribuir para reduzir a dependência de substâncias consideradas de maior risco e ampliar modelos de produção agrícola mais sustentáveis.
Desde 2023, está em vigor a Lei nº 14.785, que estabelece as regras para registro e utilização de defensivos agrícolas no Brasil.
O processo envolve o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), responsável pelo registro dos produtos, além das análises da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na área de saúde, e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável pela avaliação ambiental.
Em nota, a Anvisa informou que cada país possui critérios próprios para registro de agrotóxicos e ressaltou que a legislação brasileira prevê reavaliações sempre que surgirem novas evidências de risco à saúde ou ao meio ambiente.
Desde 2006, a agência concluiu 20 processos de reavaliação, que resultaram na proibição de 13 ingredientes ativos e na imposição de restrições para outros produtos que permaneceram autorizados no mercado.
Os dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2023
- Glifosato e seus sais
- Mancozebe (proibido na União Europeia)
- 2,4-D (proibido na União Europeia)
- Acefato (proibido na União Europeia)
- Clorotalonil (proibido na União Europeia)
- Atrazina (proibido na União Europeia)
- S-metolacloro (proibido na União Europeia)
- Glufosinato de amônio
- Malationa
- Dibrometo de Diquate (proibido na União Europeia)
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