Um dos monumentos mais visitados do Centro Histórico da capital capixaba, a Catedral Metropolitana de Vitória se impõe na paisagem urbana com sua arquitetura neogótica, vitrais coloridos e forte simbolismo religioso. Pouca gente sabe, porém, que a construção do templo, erguido no lugar da antiga Igreja Matriz, integrou um amplo processo de modernização cultural, social e urbana ocorrido nas primeiras décadas do século XX.
A edificação da nova Catedral envolveu nomes de destaque na história da cidade, como Paulo Rodrigues da Motta Teixeira — paisagista responsável pelo Parque Moscoso e pela Praça Costa Pereira —, o engenheiro Henrique de Novaes, atuante em projetos de infraestrutura em várias capitais brasileiras, e André Carloni, arquiteto e construtor do Theatro Carlos Gomes.
No contexto da Primeira República, a escolha do estilo arquitetônico teve caráter simbólico: romper com a memória colonial da antiga matriz, afirmar a presença da Igreja Católica na capital e representar o ideal de progresso material da sociedade capixaba.
As obras da Catedral se estenderam por cerca de 50 anos, entre 1920 e 1971, atravessando períodos de paralisação e retomada. Nesse intervalo, o entorno também passou por profundas transformações, como abertura de ruas, construção de escadarias e reorganização urbana — processos hoje documentados no acervo do Arquivo Público Municipal de Vitória.
Revisitar essa trajetória é resgatar legados que atravessam gerações de capixabas e reverenciar tradições que extrapolam as fronteiras do Espírito Santo, como a tradicional procissão anual em homenagem à padroeira do Estado, Nossa Senhora da Penha.
No alto da colina, visível de toda a cidade
No início do século XX, Vitória concentrava suas residências e atividades comerciais entre a colina da Santa Casa de Misericórdia e as proximidades do Morro do Vigia, atual Rua Barão de Monjardim. Com predominância de casarios baixos, as edificações da Cidade Alta se destacavam na paisagem e eram avistadas pelas embarcações desde a entrada da Baía de Vitória.
Registros iconográficos da época revelam como construções como a antiga Igreja de São Thiago — hoje Palácio Anchieta — e a Igreja Matriz se sobressaíam no conjunto urbano. Foi nesse cenário que surgiu a proposta de construção de um novo templo, alinhada às políticas de higienização, embelezamento e expansão da cidade conduzidas por governantes como Muniz Freire e Jerônimo Monteiro.
A antiga Igreja Matriz, de traços coloniais simples, já não atendia às expectativas simbólicas e funcionais da Diocese nem às solenidades oficiais que reuniam autoridades locais e nacionais. A solução foi substituí-la por uma edificação monumental, alinhada às tendências arquitetônicas europeias da época.
O primeiro projeto, elaborado em 1913 por Paulo Rodrigues da Motta Teixeira, previa uma igreja maior, em estilo neogótico, com apenas uma torre sineira, arcos em ogiva e vitrais. A antiga matriz foi demolida em 1918, e as obras da nova Catedral tiveram início em 1920.
André Carloni e a primeira missa, em 1933
As dificuldades financeiras e técnicas marcaram toda a execução do projeto. Apenas a partir de 1930, com a entrada de André Carloni na condução das obras, o empreendimento ganhou maior regularidade. Inspirado na Catedral de Colônia, na Alemanha, Carloni promoveu mudanças significativas no projeto original.
Entre as alterações estão a inclusão da segunda torre sineira, o aumento da altura da nave e das torres pontiagudas, a abertura de portas laterais, além da construção da Capela do Santíssimo Sacramento e da sacristia. Também são de sua autoria a nave em cruz latina e a elevação do presbitério.
Essas modificações exigiram o reposicionamento dos vitrais, criando jogos de luz que se transformam ao longo do dia e das estações do ano — um dos aspectos mais marcantes da experiência visual no interior do templo.
A primeira missa foi celebrada em 1933, marcando a inauguração parcial da Catedral. Paralelamente, o entorno urbano foi reorganizado: a antiga Rua da Matriz foi ampliada e renomeada como Rua Pedro Palácios; novos trechos viários surgiram ligando a Catedral à Praça João Clímaco e à Praça Costa Pereira; e antigas vias foram reconfiguradas ou substituídas.
Apesar das campanhas de arrecadação, novas interrupções ocorreram. Os sinos foram instalados apenas em 1953 e, hoje, são acionados eletronicamente. A conclusão definitiva da Catedral ocorreu em 1971. Em 1984, o edifício foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura.
Vitrais que unem arte, fé e memória
Os vitrais, elementos marcantes da arquitetura gótica, ganharam espaço nos templos cristãos entre os séculos XII e XIV, associando luz, espiritualidade e narrativa religiosa. Na Catedral de Vitória, eles se tornaram também importantes registros artísticos e históricos.
A igreja é um dos principais exemplos da retomada da arte do vitral no Brasil no início do século XX. As peças foram executadas pelo artesão italiano César Alexandre Formenti, natural de Ferrara, radicado no Brasil desde 1890. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão vitrais e claraboias em edifícios históricos do Rio de Janeiro, como a Igreja da Candelária e o antigo Salão Nobre do Clube Naval.
Entre 1933 e 1943, Formenti produziu 17 dos 23 vitrais em formato de ogiva existentes na Catedral. Seguindo a tradição da época, as obras se basearam em modelos consagrados da arte sacra europeia, especialmente de altares da Basílica de São Pedro, em Roma, reconhecidos pelo Papa Pio XI como exemplos da “verdadeira arte”.
Os vitrais foram viabilizados por meio de doações, cujos nomes estão gravados nas próprias peças. O maior deles, “Santa Cecília e os Anjos” (300 x 500 cm), localizado na fachada principal, foi doado pelo Governo do Estado.
As obras de Formenti estão distribuídas pela nave, coro, transepto, presbitério e guarda-vento, retratando cenas bíblicas, santos e símbolos da fé cristã. No altar-mor, destacam-se os vitrais dedicados aos quatro evangelistas.
No final da década de 1960, outros seis vitrais foram incorporados ao conjunto, com linguagem artística distinta e sem identificação de doadores. Eles estão localizados na Capela do Santíssimo Sacramento e em áreas internas, abordando temas como a Eucaristia, o milagre dos pães e peixes e episódios da vida de Jesus.
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