Segurança, moradia e saúde aparecem como as maiores demandas de moradores de favelas brasileiras, segundo a pesquisa Sonhos da Favela, realizada pelo Data Favela nas cinco regiões do país, com ênfase nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.
O estudo ouviu 4.471 pessoas maiores de 18 anos, todas moradoras de favelas, entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025. O objetivo da pesquisa é dar visibilidade às prioridades dessa população e provocar o poder público e a sociedade a enfrentar negligências históricas que impactam diretamente a vida nas periferias.
Ao projetarem o futuro de suas famílias para 2026, os entrevistados apontaram como principais desejos a conquista de uma casa melhor (31%), seguida por saúde de qualidade (22%), entrada dos filhos na universidade (12%) e segurança alimentar (10%).
Para a copresidente do Data Favela, Cléo Santana, o levantamento representa mais do que números. “Mapear pensamentos, experiências e vivências de moradores de favela é um ato de reconhecimento e reparação. Favela não é só estatística, é também espaço de inteligência coletiva, cultura, empreendedorismo e inovação”, afirma.
Segundo ela, ouvir quem vive o território diariamente ajuda a mudar a narrativa e influencia diretamente a formulação de políticas públicas, a atuação de empresas e a forma como a imprensa retrata as periferias.
Perfil sociodemográfico
A maioria dos entrevistados tem entre 30 e 49 anos (58%), enquanto jovens de 18 a 29 anos representam 25% e pessoas com mais de 50 anos, 17%. Cerca de 60% são mulheres, e 75% se identificam como heterossexuais.
O levantamento mostra ainda que oito em cada dez entrevistados se identificam como negros, sendo 49% pardos e 33% pretos. Brancos correspondem a 15%.
Em relação à escolaridade, 35% concluíram o ensino médio, 11% têm ensino superior completo e 5% possuem pós-graduação. Cerca de 60% vivem com renda mensal de até um salário mínimo, enquanto 27% recebem entre R$ 1.521 e R$ 3.040.
No mercado de trabalho, 30% têm carteira assinada, 34% atuam de forma informal, 17% estão desempregados e 8% estão fora da força de trabalho. Mais da metade (56%) afirma não receber nenhum benefício social. Entre os que recebem, o mais citado é o Bolsa Família/Auxílio Brasil (29%).
Infraestrutura e serviços públicos
Quando questionados sobre melhorias desejadas em seus territórios para 2026, os moradores apontaram saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%).
As opções de esporte, lazer e cultura também aparecem como um desafio: 35% consideram essas ofertas ruins ou muito ruins, enquanto 32% avaliam como regulares.
Segurança pública e sensação de proteção
A pesquisa também investigou a confiança dos moradores em relação à segurança pública. Questionados sobre quem poderia protegê-los da violência, 36% responderam “nenhuma instituição”. A Polícia Militar foi citada por 27%, a Polícia Civil por 11%, e 7% mencionaram facções locais.
Sobre a presença policial nas favelas, 24% preferiram não responder, 25% afirmaram que não muda a sensação de segurança, 13% disseram sentir medo, enquanto 22% se sentem mais seguros com o policiamento.
Um dos dados mais simbólicos do levantamento, segundo Cléo Santana, é o desejo de “poder ir e vir com tranquilidade”, citado por 47% dos entrevistados. “Isso mostra que o futuro ainda é pensado a partir da sobrevivência e do medo. Pesquisas como essa funcionam como um megafone para ampliar a voz que a favela já tem”, conclui.
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