Na Comunidade da Missão, em Tefé, o cultivo do cacau atravessa gerações e hoje sustenta uma iniciativa liderada por mulheres que transformaram tradição em renda e autonomia. O que antes era produção voltada apenas ao consumo familiar agora se tornou um comércio sustentável de chocolate artesanal, especialmente valorizado no período da Páscoa.
À frente do trabalho está Bernardete Araújo, conhecida como Dona Bete, coordenadora do grupo de agricultoras orgânicas da comunidade. Segundo ela, o conhecimento sobre o cultivo e o preparo do cacau vem de muito antes da atual geração.
“O cultivo nasceu antes de nós. Apenas seguimos o que aprendemos com nossas famílias”, afirma. Atualmente, 22 mulheres participam da produção, desde o plantio até a fabricação do chocolate.
Tradição que atravessa gerações
Desde a infância, Dona Bete convive com o preparo artesanal do chocolate. A receita da mãe, feita com ingredientes naturais e disponíveis na região, marcou sua formação.
Sem acesso a produtos industrializados, o doce era preparado com cacau, garapa de cana, leite de castanha e ovos. O resultado era um chocolate amargo, consumido diariamente como parte da alimentação da família. Cada produtora mantém sua própria forma de preparo, herdada de pais e avós, o que garante diversidade de sabores e preserva a identidade cultural da comunidade.
Produção artesanal e sustentável
O processo de produção segue métodos tradicionais e naturais, sem uso de insumos químicos. Após a colheita, os grãos passam por seleção cuidadosa, escorrimento do mel, fermentação e secagem ao sol antes da torra e moagem.
A produção ganhou reforço técnico com o acompanhamento do Instituto Mamirauá, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O apoio inclui capacitação em manejo agroecológico, certificação e acesso a políticas públicas.
Para Fernanda Viana, a integração entre ciência e saber tradicional é essencial para fortalecer iniciativas como essa. Segundo ela, o conhecimento técnico contribui para aprimorar práticas já desenvolvidas pelas comunidades.
Certificação e reconhecimento
Em 2021, o grupo conquistou a certificação orgânica, garantindo que os produtos são livres de agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes químicos. Foi a primeira iniciativa da região a obter esse reconhecimento.
Com a certificação, as agricultoras ampliaram oportunidades de comercialização e passaram a fornecer chocolate para marcas, mantendo o compromisso com a sustentabilidade e a valorização do trabalho coletivo.
Hoje, a produção segue crescendo, especialmente em datas como a Páscoa, quando a demanda por chocolates artesanais aumenta. Mais do que gerar renda, a atividade mantém viva uma herança cultural e fortalece o protagonismo feminino na região amazônica.
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