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Quilombolas defendem preservação de seus territórios

Encontro nacional em Brasília reúne lideranças de todo o país e destaca os desafios enfrentados por comunidades tradicionais diante da seca, de eventos extremos e da pressão de grandes empreendimentos.

redação Por redação
15/06/2026 - 08:00
em Brasil
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Mulheres quilombolas denunciam impactos das mudanças climáticas em comunidades tradicionais e defendem a regularização dos territórios como medida essencial para a justiça climática.

Imagem:Lula Marques/Agência Brasil

As consequências das mudanças climáticas sobre comunidades tradicionais estiveram no centro dos debates do Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas, realizado em Brasília. Reunindo lideranças de diferentes regiões do país, o evento destacou os desafios enfrentados por milhares de famílias que convivem com secas prolongadas, chuvas intensas e dificuldades crescentes para manter suas atividades agrícolas e preservar seus modos de vida.

Entre as participantes está Sueli Bessa, moradora da comunidade quilombola Nova Esperança, localizada em Baraúna, no Rio Grande do Norte. Ela relata que a paisagem da região mudou significativamente ao longo dos anos, afetando a produção agrícola e a rotina das famílias.

Segundo a agricultora, frutas tradicionais como a goiaba, antes abundantes na comunidade, tornaram-se cada vez mais raras devido aos períodos prolongados de estiagem e às mudanças no regime de chuvas.

A comunidade Nova Esperança abriga cerca de 70 famílias que dependem da agricultura familiar para geração de renda e subsistência. No entanto, os eventos climáticos extremos têm reduzido a produtividade das plantações e dificultado a permanência das famílias no campo.

Além da escassez de água, a infraestrutura precária agrava a situação. Sem pavimentação adequada, as estradas tornam-se praticamente intransitáveis durante os períodos de chuva intensa, dificultando o deslocamento dos moradores e o escoamento da produção agrícola.

A comunidade também enfrenta limitações no abastecimento de água, dependendo de um poço artesiano para suprir as necessidades diárias da população.

Apesar das dificuldades, Sueli mantém a produção de geleias e compotas artesanais, comercializadas na própria comunidade e em feiras da região. Ela também sonha concluir os estudos e cursar uma graduação para contribuir ainda mais com o desenvolvimento local.

Denise Penha da comunidade Divino Espírito Santo durante Terceiro Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas. Foto: Lula Marques/Agência Brasil.

Livro reúne denúncias e soluções

Durante o encontro, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou a publicação “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”, que reúne relatos, análises e propostas relacionadas aos impactos ambientais sobre os territórios quilombolas brasileiros.

A pesquisa foi coordenada pela agrônoma e pesquisadora Fran Paula, que destaca o protagonismo das mulheres na defesa ambiental e na construção de estratégias de adaptação às mudanças climáticas.

Segundo a pesquisadora, o levantamento apresenta tanto denúncias sobre os impactos causados por grandes empreendimentos quanto iniciativas desenvolvidas pelas próprias comunidades para preservar os territórios e garantir a continuidade de suas tradições.

Mulheres lideram resistência nos territórios

De acordo com Fran Paula, as mulheres quilombolas são frequentemente as primeiras a perceber os efeitos das alterações ambientais e desempenham papel fundamental na proteção dos recursos naturais.

O estudo aponta que atividades como mineração, exploração de petróleo, expansão do agronegócio e implantação de grandes empreendimentos energéticos têm provocado transformações significativas nos territórios tradicionais.

Além dos impactos ambientais, essas mudanças afetam diretamente a cultura, a segurança alimentar e a permanência das populações em suas terras.

A pesquisadora defende que a regularização fundiária das comunidades quilombolas é uma condição essencial para enfrentar os desafios climáticos e garantir a preservação dos modos de vida tradicionais.

Entre os exemplos apresentados está a comunidade quilombola Mesquita, localizada em Cidade Ocidental, em Goiás. Reconhecida oficialmente como território quilombola desde 2006, a comunidade ainda aguarda a titulação definitiva das terras.

A produção de marmelo, símbolo cultural da região, vem sofrendo os efeitos das longas estiagens e das alterações climáticas. Agricultores relatam redução na produtividade e mudanças nas características dos frutos ao longo dos anos.

No Espírito Santo, a comunidade quilombola Divino Espírito Santo, conhecida como Divino Beiju, também enfrenta desafios semelhantes. Localizada em São Mateus, a comunidade tem na produção artesanal de beiju de mandioca uma importante fonte de renda e identidade cultural.

Moradores afirmam que a redução da produção agrícola e a preocupação com a contaminação causada por agrotóxicos utilizados em propriedades vizinhas representam ameaças à continuidade dessa tradição.

As lideranças presentes no encontro reforçaram que a discussão sobre mudanças climáticas precisa considerar as realidades vividas pelas comunidades tradicionais.

Para as participantes, proteger os territórios quilombolas significa não apenas preservar áreas ambientais importantes, mas também garantir a continuidade de saberes, práticas culturais e formas sustentáveis de relação com a natureza.

O encontro encerra-se neste domingo com a defesa de políticas públicas voltadas à adaptação climática, à segurança alimentar e à regularização dos territórios quilombolas em todo o país.

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