Quase metade das crianças e adolescentes do planeta vive atualmente sob a influência de múltiplas ameaças climáticas que colocam em risco sua saúde, educação e qualidade de vida. O alerta está no novo Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, divulgado pelo UNICEF.
De acordo com o levantamento, cerca de 1,1 bilhão de crianças e adolescentes em todo o mundo estão expostos a pelo menos três riscos climáticos simultaneamente. O estudo revela ainda que mais de 4 milhões enfrentam até seis ameaças diferentes ao mesmo tempo.
No Brasil, a situação também preocupa. O relatório aponta que aproximadamente 16 milhões de crianças e adolescentes convivem com três ou mais riscos climáticos, o equivalente a três em cada dez jovens brasileiros. Quando considerados dois ou mais riscos, esse número ultrapassa 30 milhões, representando cerca de 60% da população infantil do país.
O estudo analisou a exposição da população infantil a oito eventos climáticos considerados recorrentes em diferentes regiões do planeta: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes fluviais, tempestades de areia e poeira e tempestades tropicais.
Pela primeira vez, o relatório apresenta um mapeamento detalhado das áreas onde essas ameaças ocorrem com maior intensidade e como elas impactam serviços essenciais, como educação, saúde, saneamento e abastecimento de água.
Segundo a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, os efeitos das mudanças climáticas já afetam diretamente a vida de milhões de crianças em diversos países.
Entre as combinações de riscos mais frequentes identificadas pelo estudo está a exposição simultânea à seca, calor extremo e ondas de calor, realidade vivida por mais de 296 milhões de crianças e adolescentes. Outra combinação comum envolve seca, calor extremo e tempestades tropicais, afetando mais de 115 milhões de jovens em diferentes regiões do mundo.
O relatório destaca que áreas da região do Sahel, no continente africano, estão entre as mais vulneráveis, com milhões de crianças expostas simultaneamente a ondas de calor, temperaturas extremas e tempestades de areia.
Na Ásia, países como Bangladesh, Mianmar e Paquistão concentram alguns dos cenários mais severos de exposição climática infantil.
Mesmo países desenvolvidos enfrentam desafios significativos. Na Itália, por exemplo, mais de seis milhões de crianças convivem com períodos prolongados de calor extremo e seca.
Além dos eventos climáticos, o relatório avaliou dois fatores fortemente influenciados pelas mudanças no clima: a poluição do ar e a malária.
Segundo os dados, quase todas as crianças do planeta estão expostas à poluição atmosférica. Já cerca de 1 bilhão vivem em áreas com risco de transmissão da malária.
No Brasil, aproximadamente 47 milhões de crianças e adolescentes, o equivalente a 95% da população infantil, estão expostos à poluição do ar. Outras 5,6 milhões vivem em áreas vulneráveis à malária.
O Unicef alerta que a ausência de medidas efetivas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa poderá agravar ainda mais o cenário nas próximas décadas.
Entre as recomendações do organismo estão a redução gradual do uso de combustíveis fósseis, ampliação dos investimentos em energias renováveis, fortalecimento da infraestrutura de saúde e educação, melhoria dos sistemas de alerta precoce e ampliação da participação de crianças e jovens nas políticas de enfrentamento às mudanças climáticas.
O relatório também defende a criação de escolas mais resilientes, o fortalecimento da segurança alimentar e o aprimoramento dos serviços de água, saneamento e proteção social, especialmente em regiões mais vulneráveis aos impactos climáticos.
Para o Unicef, investir na proteção das crianças diante da crise climática é essencial para garantir direitos fundamentais e reduzir os impactos sociais, econômicos e ambientais das próximas décadas.
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