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Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas sob risco de desertificação

Degradação do solo já alcança cerca de 18% do território nacional e afeta comunidades tradicionais, produção de alimentos e segurança hídrica.

redação Por redação
16/08/2026 - 08:15
em Brasil
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Desertificação ameaça cerca de 39 milhões de brasileiros e exige ações de recuperação do solo, preservação ambiental e adaptação climática.

Imagem: ASA / Divulgação/Agência Brasil

Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem atualmente em áreas suscetíveis à desertificação, um processo de degradação ambiental que reduz a capacidade do solo de armazenar água e sustentar a vegetação e as atividades produtivas.

Apesar do nome, o fenômeno não significa necessariamente a formação de um deserto semelhante ao Saara ou ao Atacama. A desertificação está relacionada à perda progressiva da qualidade das terras em regiões secas, provocada pela combinação de fatores ambientais e atividades humanas.

Desmatamento, práticas agrícolas inadequadas, uso excessivo dos recursos naturais e alterações no regime climático podem acelerar a degradação. À medida que o processo avança, aumentam os impactos sobre a disponibilidade de água, a biodiversidade, a produção de alimentos e as condições de vida das populações.

Segundo dados do boletim mais recente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), aproximadamente 18% do território brasileiro está inserido em Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD).

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O tema estará entre os assuntos discutidos na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que será realizada na Mongólia entre os dias 17 e 28 de agosto.

A desertificação afeta especialmente populações que dependem diretamente dos recursos naturais para viver e produzir. Entre os grupos expostos estão agricultores, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros, pampeiros e comunidades do semiárido.

Cisterna construída com ajuda da ASA para garantir que famílias tenham acesso à água potável. Crédito: ASA / Divulgação

Para especialistas e representantes da sociedade civil, a degradação da terra não deve ser tratada apenas como um problema ambiental. A redução da capacidade produtiva do solo também pode afetar a oferta de alimentos, a economia local e o acesso à água.

As consequências ainda podem ultrapassar as áreas diretamente degradadas, atingindo cidades por meio de impactos sobre o abastecimento, a produção agrícola, os preços dos alimentos e as condições climáticas.

Entre 2000 e 2020, a área brasileira afetada pelo processo de desertificação aumentou de aproximadamente 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados.

A diferença, de cerca de 170 mil quilômetros quadrados, corresponde a uma extensão territorial próxima à soma das áreas de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O fenômeno está concentrado principalmente nos nove estados do Nordeste, mas também alcança áreas do norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, o nordeste do Rio de Janeiro e o noroeste de Mato Grosso do Sul.

As áreas suscetíveis apresentam diferentes níveis de aridez, classificados conforme a relação entre precipitação e evaporação. O Brasil possui regiões de clima subúmido seco, semiárido e árido, mas ainda não apresenta áreas classificadas como hiperáridas, condição característica dos desertos.

Em 2023, pesquisadores identificaram pela primeira vez uma região de clima árido no território brasileiro. A área possui aproximadamente 6 mil quilômetros quadrados e está localizada entre Pernambuco e Bahia.

A Caatinga é o bioma brasileiro que concentra uma das situações mais preocupantes relacionadas à degradação do solo. Estimativas indicam que cerca de 11% do bioma, equivalente a aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados, encontra-se em níveis crítico ou severo de deterioração. Ao mesmo tempo, aproximadamente 42,6% da vegetação nativa da Caatinga já foi retirada.

Pesquisadores destacam, porém, que a conservação do bioma também representa uma oportunidade para enfrentar a crise climática. Estudos apontam que a Caatinga possui importante capacidade de absorção e armazenamento de carbono.

Grande parte desse carbono permanece armazenada no solo, contribuindo para a manutenção da fertilidade e para a redução da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

Um estudo publicado em 2025 apontou que, somente em 2022, a Caatinga respondeu por aproximadamente metade do sequestro líquido de carbono registrado no Brasil naquele ano.

A preservação do bioma será um dos pontos de atenção durante as discussões internacionais sobre desertificação e mudanças climáticas. Pesquisadores defendem que as características e contribuições da Caatinga sejam consideradas nos documentos científicos e nas políticas internacionais de combate à degradação das terras.

O Brasil aderiu à Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação em 1997. Desde então, o país participa de iniciativas voltadas à prevenção e recuperação de áreas degradadas.

Em março de 2026, foi lançado oficialmente o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043).

A estratégia estabelece ações que envolvem diferentes áreas do poder público, incluindo meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e desenvolvimento tecnológico.

Outra iniciativa apresentada neste ano foi o Programa Recaatingar, que tem como objetivo recuperar de forma produtiva 10 milhões de hectares de áreas degradadas da Caatinga ao longo dos próximos 20 anos.

A proposta combina recuperação ambiental, segurança hídrica, adaptação às mudanças climáticas e geração de oportunidades econômicas, levando em consideração conhecimentos tradicionais das comunidades que vivem no bioma.

As técnicas de recuperação adotadas no semiárido incluem sistemas agroflorestais, manejo adequado da vegetação, práticas de conservação do solo e métodos de produção adaptados às condições climáticas da região.

Experiências já realizadas demonstram que é possível recuperar áreas degradadas sem retirar as comunidades de seus territórios.

Entre as estratégias estão sistemas de produção que combinam agricultura, criação de animais e preservação da vegetação. A adoção de práticas de manejo adequado pode aumentar a oferta de forragem, reduzir a erosão e melhorar a retenção de água e carbono no solo.

Organizações da sociedade civil também atuam na busca por soluções para a convivência com o semiárido. A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), formada por mais de 3 mil organizações, desenvolve projetos relacionados ao acesso à água e à produção sustentável.

Cisternas e pequenas estruturas de armazenamento de água da chuva estão entre as tecnologias utilizadas para ampliar a segurança hídrica das famílias.

Outras ações incentivam o uso de sementes adaptadas ao clima local e técnicas agrícolas que preservam a biodiversidade e aumentam a capacidade de resistência das comunidades aos períodos de seca.

Especialistas defendem que o enfrentamento da desertificação deve combinar políticas ambientais com iniciativas sociais e econômicas.

A participação das comunidades que vivem nas regiões suscetíveis é considerada fundamental para que as medidas de recuperação sejam adequadas à realidade local. A agricultura familiar, a agroecologia e o conhecimento tradicional podem contribuir para recuperar áreas degradadas e, ao mesmo tempo, manter a produção de alimentos e a geração de renda.

O desafio ganhou dimensão internacional com a realização da COP17, na Mongólia. A conferência reúne representantes de governos, organizações sociais, pesquisadores e outros setores para discutir medidas capazes de conter a degradação das terras, enfrentar os efeitos das secas e ampliar a recuperação de áreas afetadas.

No Brasil, o debate também reforça a necessidade de preservar biomas como a Caatinga e de ampliar políticas públicas capazes de garantir água, produção sustentável e qualidade de vida para milhões de pessoas que vivem em áreas suscetíveis à desertificação.

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Tags: #AgriculturaFamiliar#COP17#MeioAmbiente#MudançasClimáticas#PreservaçãoAmbiental#SegurançaHídricaCaatingadesertificaçãosemiáridoSustentabilidade
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