O Brasil alcançou a 52ª colocação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, divulgado pela organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF). O resultado representa um avanço expressivo de 58 posições desde 2022 e marca a primeira vez que o país supera os Estados Unidos no levantamento internacional.
Na edição anterior do ranking, o Brasil já havia apresentado melhora, mas neste ano subiu mais 11 posições. Entre os países da América do Sul, o país ficou atrás apenas do Uruguai, que aparece na 48ª colocação.
Segundo a RSF, a melhora brasileira ocorre em um cenário global de deterioração da liberdade de imprensa. O diretor da entidade para a América Latina, o jornalista Artur Romeu, destacou que o Brasil se tornou uma exceção positiva diante do avanço de ataques à imprensa em diferentes regiões do mundo.
De acordo com Romeu, parte da evolução brasileira está relacionada à redução das tensões institucionais entre governo e imprensa após o período de constantes ataques verbais e políticos registrados durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Outro fator apontado pela organização foi a ausência de assassinatos de jornalistas no Brasil desde o caso do jornalista britânico Dom Phillips, morto em 2022 na Amazônia. Entre 2010 e 2022, o país registrou 35 mortes de profissionais da imprensa.
A entidade também destacou iniciativas recentes voltadas à proteção do jornalismo, como a criação do Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de protocolos específicos para investigação de crimes cometidos contra profissionais da comunicação.
Além disso, a RSF apontou que o Brasil passou a avançar em debates relacionados à regulação das plataformas digitais, inteligência artificial, combate à desinformação e defesa da integridade da informação.
Apesar da melhora no ranking, a organização alerta que ainda existem desafios importantes. Um dos indicadores brasileiros que apresentou queda foi o relacionado à percepção de confiança da sociedade na imprensa, além do aumento de campanhas de ódio contra jornalistas e episódios de autocensura.
O relatório também aponta preocupação com o uso de processos judiciais considerados abusivos para intimidar jornalistas e veículos de comunicação no Brasil.
Estados Unidos enfrentam piora
Enquanto o Brasil avançou, os Estados Unidos registraram queda no ranking e ocupam agora a 64ª posição. Segundo a RSF, o governo do presidente Donald Trump intensificou ataques sistemáticos contra jornalistas e veículos de imprensa, contribuindo para um ambiente de maior polarização política.
O relatório cita práticas como restrições administrativas, acesso limitado à informação pública, cortes orçamentários em emissoras públicas e investigações com motivação política contra jornalistas.
Ainda de acordo com os pesquisadores, jornalistas norte-americanos passaram a enfrentar episódios de hostilidade até mesmo durante manifestações públicas, o que teria agravado a crise da liberdade de imprensa no país.
Argentina e América Latina registram retrocessos
A situação da liberdade de imprensa também piorou em outros países da América Latina. A Argentina, sob o governo de Javier Milei, caiu para a 98ª posição após perder 11 colocações neste ano. Desde 2022, o país já acumula queda de 69 posições.
O Equador registrou a maior queda da região, perdendo 31 posições após o assassinato de três jornalistas ligados à cobertura do crime organizado. O Peru também apresentou forte recuo, caindo para a 144ª colocação depois da morte de quatro jornalistas no último ano.
Em El Salvador, a tendência de deterioração continua desde a chegada do presidente Nayib Bukele ao poder, em 2019. O país perdeu 74 posições no período e ocupa atualmente a 143ª colocação.
Na parte inferior do ranking das Américas aparecem Nicarágua, Cuba e Venezuela, países apontados pela RSF como ambientes de severas restrições à liberdade de imprensa.
Europa lidera ranking mundial
O relatório mostra que os 19 primeiros colocados do ranking são países europeus. A Noruega lidera novamente a lista, seguida por Holanda e Estônia.
Entre os países das Américas, o Canadá aparece como o mais bem colocado, ocupando a 20ª posição. A RSF destacou ainda que, pela primeira vez na história do levantamento, mais da metade dos países avaliados está classificada em situação “difícil” ou “grave” no quesito liberdade de imprensa.
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