A alopecia areata é uma doença autoimune caracterizada pelo ataque do próprio organismo aos folículos pilosos, provocando a queda dos cabelos e pelos. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a condição atinge cerca de 2% da população mundial e pode surgir em diferentes fases da vida. De acordo com a dermatologista Enilde Borges Costa, da SBD, a doença é imprevisível e pode apresentar períodos de queda seguidos pelo crescimento dos fios e novas crises.
A doença pode se manifestar de diferentes formas. Na alopecia areata localizada, surgem áreas sem cabelo no couro cabeludo. Já na forma total, ocorre a perda dos fios de todo o couro cabeludo. Na versão universal, a pessoa pode perder também sobrancelhas, cílios, barba e pelos de outras partes do corpo. O diagnóstico é feito principalmente por meio da avaliação clínica, já que não existe, até o momento, um exame específico de laboratório ou de imagem capaz de confirmar a doença.
Embora situações de estresse possam contribuir para o surgimento ou agravamento de episódios, a dermatologista alerta que a alopecia não deve ser tratada simplesmente como uma doença de origem emocional. A condição também possui componente genético e pode ser desencadeada por diferentes fatores que interferem no sistema imunológico. Para a médica, atribuir a doença apenas ao estresse pode fazer com que o paciente se sinta culpado pelas crises.
A revisora de livros Beatriz Santos convive com alopecia desde a adolescência e chegou à forma universal da doença em 2012. Ao longo do tratamento, utilizou corticoides e outros medicamentos, mas enfrentou efeitos colaterais, incluindo osteopenia. Com o passar dos anos, passou a lidar de outra maneira com a condição e, atualmente, não tenta esconder a ausência de cabelos e pelos. Para ela, terapia e a construção de outros interesses foram importantes para que a alopecia deixasse de ocupar o centro de sua vida.
O acolhimento também é uma das estratégias adotadas pela dermatologista Enilde, que criou o Alopecia Areata Grupo de Apoio (AAGAP), em São Paulo. O grupo realiza encontros mensais e mantém uma rede de comunicação para pacientes e familiares. Juliana Fernandes, que teve o primeiro episódio aos 10 anos e perdeu definitivamente os cabelos na adolescência, encontrou no grupo e na terapia ferramentas para lidar com a mudança. Segundo ela, o acompanhamento psicológico ajudou a desenvolver autoestima e aceitar a própria aparência.
Entre as famílias acompanhadas estão pais de crianças que desenvolveram a forma universal da doença. Regina Ramos, psicóloga e mãe de um adolescente com alopecia, optou por priorizar o fortalecimento emocional do filho diante das limitações e dos possíveis efeitos colaterais dos tratamentos. Já Paloma Monteiro da Lava acompanha Levi, de 5 anos, diagnosticado em 2025. A mãe criou a campanha “Eu sou mais que aparência” para ampliar a conscientização sobre a doença e ensinar o filho a enfrentar situações de preconceito e adaptar atividades do cotidiano.
Além dos desafios emocionais, pacientes e familiares discutem a necessidade de ampliar o acesso ao tratamento e às políticas públicas. Uma proposta busca reconhecer a alopecia como deficiência, medida que poderia ampliar direitos e atendimento especializado, mas a ideia divide os próprios pacientes. Beatriz e Juliana são contrárias ao enquadramento, por entenderem que a doença não limita suas atividades, enquanto Regina e Paloma defendem políticas que garantam tratamento, acompanhamento psicológico e maior proteção. Para os pacientes e especialistas, informação e acolhimento são fundamentais para combater o preconceito e evitar que a perda de cabelo determine a forma como essas pessoas vivem.
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