Com menos de dois meses de atuação, o programa Guardiões da Infância, desenvolvido pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), já capacitou cerca de 800 pessoas em diferentes regiões do Estado para atuar na prevenção e no enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes.
A iniciativa tem como foco preparar profissionais da educação, saúde, assistência social, segurança pública, além de familiares e lideranças comunitárias, para identificar sinais de abuso, negligência e outras formas de violência ainda nos estágios iniciais.
Até o início de junho, o programa já passou pelos municípios de São Domingos do Norte, Pedro Canário, Jaguaré, Itapemirim, Conceição do Castelo e Domingos Martins.
Idealizado para promover uma cultura permanente de proteção à infância, o Guardiões da Infância aposta na formação de multiplicadores capazes de atuar de forma preventiva em suas comunidades.
Segundo o presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Marcelo Santos, a proteção integral de crianças e adolescentes depende da atuação conjunta de diferentes setores da sociedade.
“O projeto organiza a união de esforços entre escola, família, rede de proteção e poder público para ampliar a capacidade de identificar situações de risco e agir rapidamente”, destacou o parlamentar.
A proposta conta com o apoio da Casa dos Municípios da Ales, responsável pela articulação junto às administrações municipais para ampliar o alcance da iniciativa.
Capacitação para identificar sinais de violência
As ações incluem palestras, workshops e treinamentos voltados a educadores, profissionais da saúde, assistentes sociais, conselheiros tutelares, agentes de segurança, líderes religiosos e representantes de organizações da sociedade civil.
O psicólogo forense Rafael Monteiro, responsável pelo conteúdo técnico do programa, explica que muitos profissionais ainda enfrentam dificuldades para agir corretamente diante de suspeitas ou relatos de violência.
Segundo ele, a falta de preparo pode levar à revitimização da criança, quando ela é obrigada a repetir diversas vezes sua história para diferentes profissionais.
Por isso, uma das principais abordagens do programa é a aplicação da Lei Federal nº 13.431/2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida, que estabelece procedimentos específicos para o acolhimento de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.
Negligência emocional é um dos principais fatores de risco
Entre os temas debatidos durante as capacitações, a negligência emocional aparece como uma das principais vulnerabilidades que podem facilitar situações de abuso.
De acordo com Rafael Monteiro, a ausência de diálogo, acolhimento afetivo e escuta ativa dentro do ambiente familiar pode tornar crianças e adolescentes mais suscetíveis à manipulação por parte de agressores.
“O abusador geralmente oferece aquilo que a criança sente falta, como atenção, afeto ou apoio emocional. Por isso, fortalecer vínculos familiares saudáveis é uma das formas mais eficazes de prevenção”, explica o especialista.
Violência geralmente ocorre dentro de casa
Outro ponto abordado pelo programa é a desconstrução do mito de que o agressor costuma ser um desconhecido.
Dados apresentados durante as capacitações indicam que a maioria dos casos de violência contra crianças e adolescentes ocorre dentro do ambiente familiar ou é praticada por pessoas próximas à vítima.
Diante desse cenário, o projeto orienta profissionais e familiares a observarem mudanças de comportamento, sinais emocionais e alterações no convívio social que possam indicar situações de risco.
Expansão para mais municípios
A coordenadora da Casa dos Municípios, Joelma Costalonga, afirma que o retorno recebido das equipes locais demonstra a importância da iniciativa.
Segundo ela, professores e profissionais da saúde relatam que passaram a identificar sinais de violência que anteriormente não percebiam.
A expectativa da Assembleia Legislativa é ampliar o alcance do Guardiões da Infância nos próximos meses, fortalecendo a rede de proteção em todo o Espírito Santo e promovendo uma atuação cada vez mais preventiva no combate à violência contra crianças e adolescentes.
Além das capacitações, o programa busca incentivar o diálogo entre escolas, famílias, instituições religiosas, órgãos públicos e organizações do terceiro setor para criar ambientes mais seguros, acolhedores e preparados para proteger a infância.
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