Vinte de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, ganha em 2024 a sua segunda comemoração como feriado nacional. Cento e trinta e sete anos após a abolição da escravatura, o país ainda reflete os efeitos da colonização e da escravidão sobre a população negra brasileira. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil defendem que a data, mais do que simbólica, deve ser um convite à consciência histórica e ao debate profundo sobre desigualdade, violência e racismo estrutural.
A discussão se torna ainda mais urgente diante de episódios recentes, como a Operação Contenção, realizada em 28 de outubro nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, incluindo dois policiais militares e dois civis. Segundo levantamentos iniciais, nenhuma das 117 pessoas mortas pelas forças policiais havia sido denunciada pelo Ministério Público estadual. A ação já é considerada a maior chacina da história do Brasil.
A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro criou um observatório para acompanhar o cumprimento da lei durante a operação. Mesmo após a megaoperação, o principal alvo — Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho — continua em liberdade.
Dados de 2023 do Ibase, Instituto Raízes e ONG Educap mostram que 79% dos moradores do Complexo do Alemão são negros.
“Dia de luta, não apenas de celebração”
Para Mônica Sacramento, pedagoga e coordenadora da ONG Criola, o 20 de novembro deve ser entendido como um marco político.
“É uma data de extrema importância, porque todos os temas que atingem a população negra, de forma tão profunda e avassaladora, precisam ser debatidos. É dia de análise, de enfrentamento e de reafirmação da resistência”, afirma.
Colonialismo como origem da violência atual
O economista Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência (Ipea), afirma que as operações policiais nas favelas revelam a permanência de uma lógica herdada do período colonial.
“Antes mesmo de existir o Estado brasileiro, o território era voltado para a exploração econômica, sempre sustentado pelo uso sistemático da violência”, explica.
Cerqueira destaca que ações de grande letalidade seriam “inimagináveis” em bairros como Leblon, Ipanema ou Copacabana.
“Só é possível imaginar guerra às drogas nesses lugares onde vivem negros e pobres.”
Segundo o Atlas da Violência, uma pessoa negra tem quase três vezes mais chance de ser assassinada no Brasil do que uma pessoa branca.
Violência como ponta do iceberg
Para a advogada e pesquisadora Raquel Guerra, da UERJ, a violência atual é resultado direto de séculos de exploração sem reparação.
“A escravidão durou mais de 300 anos e afetou mais de 20 gerações. Após a abolição, não houve garantia de direitos básicos — terra, educação, emprego, moradia. A presença do Estado para a população negra sempre foi marcada pela ausência de direitos.”
Ela afirma que operações como a Contenção podem novamente levar o Brasil à condenação na Corte Interamericana de Direitos Humanos, repetindo precedentes envolvendo chacinas anteriores e violações em comunidades quilombolas.
Letalidade como política pública
A promotora de Justiça Lívia Sant’Anna, do Ministério Público da Bahia, reforça que o 20 de novembro é um marco de memória, denúncia e enfrentamento.
“Nas favelas, a presença do Estado se materializa quase sempre pela repressão. O que vemos é uma política de segurança que naturaliza a letalidade como método.”
Ela destaca que operações como essa interrompem serviços básicos, fecham escolas e ampliam desigualdades.
A violência que ameaça o futuro
A professora Juliana Kaizer, da UFRJ e PUC-Rio, alerta para os efeitos de longo prazo sobre crianças e adolescentes.
“Quando estudantes saem da rotina escolar por conta de confrontos armados, muitos não retornam. Isso nos condena a sucessivas gerações de excluídos do mercado formal e da cidadania.”
Disparidade territorial
Levantamento do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (UFF) mostra que entre 2017 e 2023:
- Mais de 70% das áreas dominadas por facção tiveram confrontos com a polícia.
- Nas regiões controladas por milícias, esse índice cai para 31,6%.
- 40,2% dos tiroteios em ações policiais ocorreram em áreas de tráfico, contra apenas 4,3% em regiões dominadas por milicianos.
Reflexão coletiva
Para os especialistas, o 20 de novembro reforça a urgência de políticas que superem a lógica da guerra.
Um país que celebra o Dia da Consciência Negra enquanto registra sua maior chacina precisa, dizem eles, olhar com rigor para o passado e assumir responsabilidade pelo futuro.
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