O Governo Federal anunciou uma nova etapa da estratégia brasileira para inteligência artificial, com medidas voltadas à ampliação da capacidade computacional e ao desenvolvimento de tecnologias de IA no país.
As iniciativas fazem parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028 para ampliar a capacidade tecnológica, formar profissionais e estimular pesquisa, inovação e aplicações de inteligência artificial.
A estratégia busca aumentar a infraestrutura disponível no Brasil e reduzir a necessidade de contratação de capacidade computacional no exterior. Os recursos poderão ser utilizados por empresas, startups, universidades, instituições de pesquisa e órgãos públicos.
O pacote anunciado reúne três frentes principais: a aquisição de um supercomputador de alta capacidade, uma parceria internacional para ampliar a supercomputação e desenvolver modelos de IA em português e a participação brasileira no desenvolvimento de chips baseados na arquitetura aberta RISC-V.
Uma das iniciativas prevê a aquisição, por meio de edital competitivo, de um novo supercomputador voltado à inteligência artificial. O investimento estimado é de aproximadamente R$ 1 bilhão.
A máquina deverá alcançar cerca de 7.200 petaflops, o equivalente a aproximadamente 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo, e deverá figurar entre os dez maiores equipamentos do mundo em capacidade de processamento de IA.
A infraestrutura será disponibilizada para empresas, universidades, instituições científicas e governos interessados em treinamento de modelos, pesquisas e desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial.
O equipamento deverá ser instalado no Parque Tecnológico Augusto Severo (PAX), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A execução ficará a cargo do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
A previsão é que o supercomputador entre em operação no fim de 2027.
A escolha do Rio Grande do Norte está relacionada ao potencial energético do estado. A instalação também pretende ampliar a infraestrutura científica e tecnológica no Nordeste e descentralizar equipamentos de alta capacidade no país.
O edital prevê contrapartidas envolvendo transferência de tecnologia, capacitação, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local e participação de fornecedores brasileiros. A expectativa é capacitar 5 mil brasileiros ao longo de cinco anos.
Outra frente prevê a implantação, no Rio de Janeiro, de uma infraestrutura de supercomputação executada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em parceria com as empresas Huawei e iFlytek.
A iniciativa terá investimento estimado em R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos, com previsão de início das operações em julho de 2027.
O projeto prevê transferência de tecnologia, pesquisas, formação de profissionais e desenvolvimento de uma estrutura de software voltada à soberania tecnológica.
Também está previsto o desenvolvimento de um modelo de linguagem de grande escala (LLM) nacional e de modelos de inteligência artificial em português. A proposta é permitir aplicações mais adequadas ao idioma, aos dados e às necessidades brasileiras.
A parceria também prevê capacitar 3 mil brasileiros em cinco anos.
A terceira frente tem horizonte de 10 a 15 anos e busca ampliar a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias para chips, reduzindo a dependência de arquiteturas proprietárias.
A iniciativa será baseada na RISC-V, uma arquitetura aberta que permite o desenvolvimento e a adaptação de componentes sem depender exclusivamente de tecnologias fechadas.
A estratégia será conduzida em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha. O objetivo é ampliar o domínio brasileiro sobre tecnologias consideradas estratégicas para computação de alto desempenho e inteligência artificial.
As três frentes foram estruturadas de forma complementar, reunindo aumento da capacidade de processamento, transferência de tecnologia, formação profissional e desenvolvimento de competências nacionais.
O Governo Federal também anunciou a estruturação da Nuvem Brasileira, iniciativa que reunirá os setores público e privado para desenvolver no país componentes considerados críticos da computação em nuvem.
A proposta é criar uma alternativa nacional para armazenamento e processamento de dados e sistemas, além de ampliar a participação de fornecedores brasileiros nesse mercado.
A solução deverá utilizar padrões abertos e interoperáveis e contar com tecnologia nacional em componentes críticos. A medida também busca diminuir a dependência de grandes provedores estrangeiros e evitar a concentração da infraestrutura em uma única empresa ou tecnologia.
Um acordo de cooperação envolvendo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Serpro e o BNDES dará início à estruturação do projeto.
A primeira etapa também prevê uma consulta ao mercado para identificar a capacidade da indústria brasileira, avaliar tecnologias disponíveis e definir o modelo da futura Nuvem Brasileira.
A estratégia pretende utilizar a demanda do setor público para ajudar a gerar escala para fornecedores nacionais e estimular soluções que possam atender tanto órgãos governamentais quanto empresas privadas.
O projeto parte da experiência da Nuvem de Governo, atualmente operada pelo Serpro e pela Dataprev.
Outra iniciativa anunciada é a criação do Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, que será implantado pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A estrutura terá atuação técnico-científica e deverá desenvolver pesquisas, metodologias e ferramentas voltadas à transparência, explicabilidade, auditabilidade e segurança dos sistemas de inteligência artificial.
O centro também trabalhará na avaliação de riscos e na identificação e mitigação de vieses, contribuindo para detectar falhas e possíveis situações de discriminação em sistemas de IA.
A criação da estrutura acompanha a expansão da capacidade brasileira de desenvolver e utilizar inteligência artificial e busca ampliar as condições para avaliar o funcionamento dessas tecnologias e tornar seus resultados mais transparentes e rastreáveis.
As atividades do centro terão caráter técnico e científico. As funções de fiscalização e aplicação de sanções continuarão sob responsabilidade das autoridades competentes previstas em lei.
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