Cientistas brasileiros têm conquistado reconhecimento internacional na busca por novas abordagens para a Doença de Alzheimer, um dos maiores desafios da medicina atual. Recentemente, os pesquisadores Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foram premiados por suas contribuições à área.
Lourenço recebeu o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, concedido pela organização Alba Network a cientistas em meio de carreira que se destacam por pesquisas relevantes. Já Brum foi reconhecido pela Alzheimer’s Association como “One to Watch”, prêmio voltado a jovens pesquisadores promissores.
A doença de Alzheimer ainda não tem cura e apresenta opções limitadas de tratamento para retardar sua progressão. O sintoma mais conhecido é a perda de memória recente, mas, com o avanço do quadro, o paciente pode desenvolver dificuldades cognitivas, de comunicação e de mobilidade, tornando-se dependente de cuidados.
Pesquisa brasileira e desafios globais
Segundo Mychael Lourenço, cerca de 40 milhões de pessoas vivem com Alzheimer no mundo, sendo aproximadamente 2 milhões no Brasil — número possivelmente subestimado. Ele ressalta que o envelhecimento da população brasileira aumenta a necessidade de estudos locais, já que a maioria das pesquisas ainda é conduzida em países do hemisfério norte.
O pesquisador lidera o Lourenço Lab, grupo dedicado ao estudo de demências. Entre as linhas de investigação está a análise do acúmulo de proteínas no cérebro, como a beta-amiloide e a tau, associadas ao desenvolvimento da doença. Embora já se saiba que essas substâncias formam placas cerebrais, ainda não está totalmente claro por que isso ocorre e como interromper o processo.
Outro foco do grupo é entender por que algumas pessoas conseguem envelhecer sem desenvolver sintomas, mesmo apresentando alterações cerebrais típicas da doença. Casos como o da atriz Fernanda Montenegro são citados como exemplo de envelhecimento com preservação cognitiva.
Diagnóstico precoce ganha força
Uma das principais apostas da ciência é o diagnóstico precoce. Lourenço coordena estudos que investigam biomarcadores no sangue capazes de identificar o Alzheimer antes do surgimento dos sintomas, abrindo caminho para intervenções mais eficazes.
Na mesma linha, o pesquisador Wagner Brum tem se destacado pelo desenvolvimento de protocolos clínicos para exames de sangue que detectam a proteína p-tau217, considerada um dos principais biomarcadores da doença. O método permite identificar com maior precisão a presença do Alzheimer, especialmente em casos mais claros.
Segundo Brum, ainda há desafios para pacientes com resultados intermediários, que podem precisar de exames complementares. Mesmo assim, o avanço já representa um passo importante para tornar o diagnóstico mais acessível e confiável.
Do laboratório à prática clínica
Os protocolos desenvolvidos por Brum já vêm sendo utilizados em laboratórios da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil, porém, a tecnologia ainda está restrita a poucos centros privados.
O objetivo dos pesquisadores é ampliar o acesso ao exame e viabilizar sua implementação no Sistema Único de Saúde (SUS). Para isso, são necessários estudos que comprovem o impacto positivo da ferramenta tanto no diagnóstico quanto no tratamento dos pacientes.
Atualmente, o diagnóstico do Alzheimer no país é feito principalmente com base na avaliação clínica e exames de imagem, como tomografia e ressonância, que não são totalmente específicos. Métodos mais precisos, como análise de líquor e PET-CT, ainda têm alto custo e baixa acessibilidade.
As pesquisas lideradas pelos cientistas brasileiros apontam para um futuro em que o diagnóstico poderá ser feito de forma mais simples e precoce, aumentando as chances de controle da doença. Além disso, o reconhecimento internacional reforça a relevância da produção científica nacional no cenário global.
Os estudos contam com apoio de instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), o Instituto Serrapilheira e o Idor Ciência Pioneira.
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