O Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançou uma publicação que chama a atenção para as desigualdades raciais na incidência e no tratamento do câncer de mama no Brasil. O material aponta que, embora a doença seja geralmente menos frequente entre mulheres negras do que entre mulheres brancas, mulheres pretas e pardas são mais afetadas por tumores agressivos, especialmente o subtipo triplo-negativo. Também há maior frequência de diagnósticos em estágios avançados e em idades mais jovens nesse grupo.
Intitulado “Disparidades raciais na incidência do câncer de mama”, o estudo é o primeiro volume da série “Disparidades raciais e câncer de mama: um olhar para a saúde das mulheres negras”. O lançamento integrou a programação do Outubro Rosa no INCA e marcou o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, celebrado em 27 de outubro.
Durante o evento, a coordenadora de Prevenção e Vigilância do INCA, Márcia Sarpa, destacou diferenças importantes no momento em que a doença é identificada. Segundo ela, o diagnóstico em estágio avançado ocorre em 60% das mulheres negras, contra 50% das mulheres brancas. A pesquisadora também informou que, entre 2000 e 2020, o aumento da taxa de mortalidade por câncer de mama entre mulheres negras foi 3,8 vezes maior.
A publicação ressalta que os números de casos, isoladamente, não explicam as diferenças observadas. Desigualdades socioeconômicas, dificuldades para acessar os serviços de saúde e situações de estresse relacionadas às condições de vida podem contribuir para o agravamento do problema. O estudo também aponta a importância de considerar fatores ligados à ancestralidade e melhorar a qualidade das informações sobre raça e cor nos registros de saúde.
Entre as recomendações estão o fortalecimento das ações de prevenção e promoção da saúde, com incentivo à alimentação equilibrada, à atividade física e ao aleitamento materno, além da redução de fatores de risco modificáveis, como obesidade e consumo de bebidas alcoólicas. O documento também defende ampliar o acesso à mamografia, garantir diagnóstico precoce e tratamento oportuno e combater o racismo estrutural e institucional nos serviços de saúde.
O diretor-geral do INCA, Roberto Gil, destacou a importância da prevenção para reduzir os impactos da doença e evitar o aumento da demanda por tratamentos mais complexos. Representantes do Ministério da Saúde também apontaram a necessidade de identificar obstáculos à vigilância, à detecção precoce e ao atendimento. A discussão incluiu ainda a importância de desenvolver políticas adequadas às necessidades de populações indígenas, LGBTQI+, ribeirinhas, rurais e de comunidades tradicionais.
Durante a programação, a pesquisadora Monique Miranda apresentou a cartilha “Saúde com axé: mulheres negras e prevenção do câncer”, elaborada para ampliar a oferta de materiais educativos específicos. O trabalho incluiu oficinas em terreiros e territórios de comunidades remanescentes de quilombos, com a participação de 56 pessoas. A iniciativa busca aproximar as informações de saúde das experiências culturais e sociais dessas comunidades.
O encontro também reuniu especialistas e representantes de movimentos sociais para discutir estratégias de prevenção e controle do câncer culturalmente adaptadas. As participantes destacaram a importância de ouvir os territórios, valorizar os saberes ancestrais e ampliar a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Para o INCA, enfrentar as desigualdades raciais é fundamental para melhorar o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento e garantir um cuidado mais adequado às necessidades das mulheres brasileiras.
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