O sonho da maternidade pode se transformar em um grande desafio para mulheres diagnosticadas com mola gestacional, uma doença causada por uma alteração na fecundação que impede o desenvolvimento normal da gravidez e, em alguns casos, evolui para um câncer de placenta.
Foi o que aconteceu com a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento. Após meses tentando engravidar, ela recebeu a confirmação da gestação, mas poucos dias depois descobriu que a gravidez era inviável. Menos de um mês mais tarde, veio um diagnóstico ainda mais difícil: um câncer decorrente da doença trofoblástica gestacional.
Segundo o professor de Obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, Antônio Braga, a mola gestacional acontece por um erro durante a fecundação.
Existem dois tipos da doença. Na mola parcial, há formação de uma placenta anormal acompanhada por um embrião com alterações genéticas incompatíveis com a vida. Já na mola completa, não há formação do embrião, apenas de uma placenta anormal.
Em ambas as situações, a gestação precisa ser interrompida para evitar complicações, como hemorragias, alterações hormonais e o desenvolvimento de tumores.
Embora seja considerada um tumor benigno, a mola gestacional pode evoluir para neoplasia trofoblástica gestacional, conhecida como câncer de placenta.
O risco é inferior a 5% entre pacientes com mola parcial, mas pode atingir cerca de 20% nos casos de mola completa. Quando não tratada rapidamente, a doença pode provocar metástases, principalmente nos pulmões.
De acordo com Antônio Braga, a incidência da doença no Brasil é significativamente maior do que em países como Estados Unidos e Inglaterra. Enquanto no Brasil ocorre aproximadamente um caso a cada 200 a 400 gestações, nos Estados Unidos a frequência é de um caso para cada mil gestações e, na Inglaterra, um para cada duas mil.
Os motivos dessa diferença ainda são estudados e envolvem possíveis fatores genéticos, imunológicos e alimentares. Na maioria dos casos, o problema é identificado durante o primeiro exame de ultrassonografia realizado após a confirmação da gravidez.
Após a retirada da mola por aspiração uterina, a paciente inicia um acompanhamento rigoroso com exames periódicos para medir os níveis do hormônio beta-HCG, utilizado como marcador da doença. Se os níveis hormonais não retornarem ao normal, isso pode indicar que células da mola permaneceram no organismo e deram origem ao câncer.
“O diagnóstico desse tipo de câncer não depende de biópsia. O principal marcador é justamente o hormônio da gravidez”, explica o especialista.
Quando o câncer é confirmado, o tratamento é realizado com quimioterapia. Segundo os especialistas, as chances de cura são elevadas quando o acompanhamento ocorre em centros especializados. Após a recuperação completa, muitas pacientes conseguem engravidar novamente de forma segura, desde que respeitem o período de acompanhamento médico.
Foi o que motivou Daiana a seguir em frente. Após concluir o tratamento, ela teve o hormônio normalizado, sinal de cura da doença, mas ainda aguarda a liberação médica para tentar uma nova gestação. Para mulheres que já tiveram filhos ou não desejam engravidar novamente, a retirada do útero pode ser indicada.
A empresária Mônica Rosa do Amaral Pelizari recebeu essa recomendação após descobrir a mola gestacional aos 45 anos, depois de um aborto espontâneo. Pouco tempo depois, também foi diagnosticada com câncer de placenta.
Ela passou por cirurgia, realizou quimioterapia e hoje mantém apenas o acompanhamento anual, sem sinais da doença.
Além do tratamento médico, especialistas destacam que o suporte psicológico e social faz parte da recuperação das pacientes e de seus familiares.
Na Maternidade Escola da UFRJ, o atendimento inclui acompanhamento psicológico, assistência social e atividades como musicoterapia para ajudar mulheres que enfrentam simultaneamente o luto pela perda da gestação e o tratamento contra o câncer.
A médica Gabriela Paiva ressalta que muitas pacientes chegam ao serviço sentindo culpa, apesar de a doença ocorrer de forma totalmente aleatória.
O apoio da família também é considerado essencial durante o tratamento, que costuma durar vários meses e exige consultas frequentes, deslocamentos constantes e mudanças na rotina profissional e pessoal.
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