A proposta de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Consórcio Público do Norte do Espírito Santo (CIM Norte) ultrapassou os limites do debate institucional e mergulhou no centro de uma disputa política que começa a inquietar empresários, prefeitos e lideranças do Estado.
Na noite desta quinta-feira (4), um artigo publicado pelo jornalista Roberto Barbosa na rede social X provocou intensa repercussão nos círculos político e empresarial capixabas ao questionar não apenas os objetivos da investigação, mas também os métodos que estariam sendo empregados nos bastidores para sua construção.
No texto, Barbosa relata que empresários vêm sofrendo pressão diante da articulação da CPI na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) e levanta dúvidas sobre a competência do Legislativo estadual para exercer fiscalização direta sobre consórcios públicos municipais.
O jornalista também chama atenção para um aspecto que considera seletivo na condução do debate: enquanto o foco recai sobre o CIM Norte, o CIM Sul permanece fora da mira das discussões, apesar de envolver municípios com histórico de adesões a atas de registro de preços milionárias por meio do mecanismo conhecido como “carona”.
A CPI foi proposta pelo deputado estadual Lucas Polese, do PL, mas tem apoio geral, amplo e irrestrito do presidente da Casa, Marcelo Santos (União), que seria o verdadeiro mentor do movimento.
Mas o trecho que mais repercutiu no artigo foi a referência à chamada “Era Gratz”, período que marcou a política capixaba entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000.
O peso simbólico da Era Gratz
Ao afirmar que o Espírito Santo poderia estar diante de uma “Era Gratz 2.0”, o artigo resgata uma das fases mais traumáticas da história recente da Assembleia Legislativa.
O ex-deputado estadual José Carlos Gratz presidiu a Ales entre 1997 e 2002. Seu período à frente do Legislativo ficou conhecido como “Era Gratz” e foi marcado por sucessivas investigações, denúncias e operações que atingiram a estrutura política do Estado.
Ao longo dos anos, Gratz foi alvo de processos relacionados a esquemas de desvio de recursos públicos, suposta compra de votos para eleições internas da Assembleia e investigações envolvendo venda de decisões judiciais. Diversas ações resultaram em condenações e prisões preventivas, embora parte dos processos tenha posteriormente enfrentado discussões sobre prescrição.
Entre os casos mais emblemáticos esteve o chamado “Esquema das Associações”, no qual o Ministério Público apontou a utilização de entidades de fachada para desviar recursos da Assembleia Legislativa durante a gestão do então presidente da Casa. As investigações estimaram prejuízos milionários aos cofres públicos.
A referência feita por Barbosa, portanto, possui forte carga simbólica. Não se trata apenas de uma comparação administrativa, mas da evocação de um período frequentemente associado ao uso da máquina política para pressão, cooptação, chantagem e influência nos bastidores.
Empresários relatam preocupação
Nos meios empresariais, o artigo ganhou força especialmente por mencionar relatos de supostas abordagens envolvendo promessas de proteção política, blindagem e até a existência de gravações comprometedoras.
Até o momento, as denúncias citadas no texto não foram formalmente comprovadas nem apresentadas publicamente às autoridades competentes. Ainda assim, a simples circulação dessas informações ampliou a tensão em setores que mantêm contratos ou relações institucionais com consórcios públicos.
Fontes do setor empresarial afirmam que o ambiente passou a ser marcado por cautela diante do temor de exposição política em um ano eleitoral.
A disputa pelo controle da narrativa
Nos bastidores da Assembleia, a discussão sobre a CPI também revela uma disputa mais ampla: quem controla a narrativa sobre os contratos públicos e os grandes consórcios intermunicipais.
Enquanto defensores da investigação argumentam que a CPI é um instrumento legítimo de fiscalização e transparência, críticos questionam se a escolha dos alvos segue critérios técnicos ou interesses políticos.
É justamente essa dúvida que aparece no centro do artigo de Roberto Barbosa.
“A investigação busca esclarecer fatos ou selecionar alvos?”, questiona o jornalista.
A pergunta, ainda sem resposta definitiva, tornou-se o principal tema de conversas entre parlamentares, empresários e agentes públicos nas últimas horas.
No Espírito Santo, onde a memória da Era Gratz continua viva no imaginário político, qualquer sinal de uso instrumental das instituições tende a despertar reações imediatas.
Por enquanto, a CPI ainda está no campo das articulações. Mas a repercussão do artigo demonstra que o debate já extrapolou os limites do plenário da Assembleia e alcançou um terreno mais sensível: o da confiança pública nas instituições.
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