Há alianças que acrescentam partidos a uma campanha. Outras alteram a identidade do candidato. Ao subir no palco do encontro estadual do PL, neste sábado, em Vitória, Lorenzo Pazolini deixou para trás qualquer possibilidade de ambiguidade: declarou apoio integral à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, prometeu participar ativamente da campanha nacional e confirmou que apoiará Maguinha Malta ao Senado.
No mesmo evento, Flávio apresentou Pazolini como o nome do PL para o governo do Espírito Santo. O movimento sacramentou politicamente a aproximação entre Republicanos e Partido Liberal, ainda que os detalhes formais da coligação dependam das convenções partidárias. Não foi apenas uma fotografia de ocasião. Foi uma troca pública de compromissos eleitorais.
Pazolini recebe o palanque, a militância e a estrutura do partido que comanda uma parcela expressiva da direita capixaba. Em contrapartida, entrega a Flávio Bolsonaro seu apoio presidencial e reserva a primeira vaga da chapa ao Senado para Maguinha, filha do senador Magno Malta, presidente estadual do PL. A negociação já era tratada nos bastidores como praticamente concluída, restando definir principalmente quem ocupará a segunda candidatura ao Senado.
Essa composição pode ampliar a presença de Pazolini entre eleitores bolsonaristas, mas também produz um efeito inevitável: nacionaliza sua candidatura ao governo. A partir de agora, o ex-prefeito de Vitória não será avaliado apenas por sua passagem pela administração da capital ou por suas propostas para o Espírito Santo. Passará a responder, politicamente, pelos benefícios e pelos desgastes associados ao projeto presidencial que decidiu abraçar.
O custo nacional da escolha
Flávio Bolsonaro chega a essa aliança pressionado por episódios que ultrapassaram os limites da disputa partidária. Mensagens divulgadas pela imprensa apontaram que o senador pediu R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio afirmou que se tratava de patrocínio privado para uma produção privada, negou recebimento pessoal de dinheiro e rejeitou qualquer oferta de vantagem em troca.
O caso permanece no campo das investigações e do debate político, sem condenação contra o senador relacionada ao episódio.
Ao mesmo tempo, a pré-campanha presidencial enfrenta uma ruptura pública com Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama deixou o comando do PL Mulher após acusar Flávio de tê-la desrespeitado e maltratado durante divergências sobre os rumos da legenda. O afastamento é especialmente sensível porque Michelle construiu forte interlocução com mulheres conservadoras e com o eleitorado evangélico, segmentos estratégicos para o partido.
O impacto já aparece no ambiente eleitoral. Levantamento da Quaest divulgado em 15 de julho mostrou ampliação da vantagem do presidente Lula sobre Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. Pesquisa anterior também apontara dificuldade do senador entre as mulheres, justamente o eleitorado no qual Michelle funcionava como uma das principais pontes do bolsonarismo.
Nada disso significa que os problemas nacionais serão automaticamente transferidos para Pazolini. Eleições estaduais possuem dinâmica própria, e o eleitor pode separar as escolhas para presidente e governador. O que muda é o grau de exposição: ao anunciar que entrará “com tudo” na campanha de Flávio, o pré-candidato capixaba reduziu o espaço para se apresentar como figura independente das disputas nacionais.
A rejeição de Magno entra no cálculo
O segundo componente da aposta está dentro do próprio Espírito Santo. Pesquisa Quaest divulgada no dia 16 apontou Magno Malta como o nome mais rejeitado entre os testados para o governo estadual: 55% dos entrevistados disseram que não votariam nele de maneira alguma. Em abril, esse índice era de 46%, o que representa crescimento de nove pontos percentuais.
Também aqui não existe transferência automática de rejeição. Magno não será candidato ao governo na composição anunciada. Entretanto, será difícil mantê-lo fora do centro da campanha. Ele dirige o PL no Estado, conduziu as negociações com o Republicanos, apresentou Pazolini ao ambiente nacional da legenda e condicionou o acordo à presença da própria filha na chapa ao Senado.
Pazolini, portanto, recebe o apoio de um grupo mobilizado e ideologicamente definido, mas incorpora ao seu entorno uma liderança com rejeição elevada fora desse núcleo. Essa equação pode fortalecer a candidatura entre os eleitores mais identificados com o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, dificultar sua aproximação com setores independentes, moderados ou simplesmente resistentes a Magno Malta.
Uma vaga garantida e vários aliados ameaçados
O acordo também mexe profundamente na disputa pelo Senado. A vaga de Maguinha Malta passou a ser tratada como assegurada, embora seu desempenho nas pesquisas ainda seja inferior ao de outros nomes que buscam espaço na mesma coligação.
Na pesquisa Quaest mais recente, Renato Casagrande liderou os quatro cenários, variando entre 24% e 31%. Paulo Hartung apareceu com 11% a 14%, enquanto Sérgio Meneguelli oscilou entre 9% e 11%. Maguinha registrou de 4% a 6%. Os números não definem candidaturas nem antecipam o resultado das urnas, mas revelam que a garantia dada à filha de Magno decorre do acordo partidário, e não de uma superioridade eleitoral demonstrada até o momento.
Com Maguinha na primeira vaga, resta somente uma posição para acomodar uma fila numerosa. Meneguelli está no PSD e afirma que não aceitará disputar outro cargo. Carlos Manato, hoje no Republicanos, também trabalha para concorrer ao Senado. O deputado federal Evair de Melo cresceu nas articulações internas, e o nome do ex-governador Paulo Hartung continua presente nas discussões do grupo.
Alguém terá de recuar — ou será retirado da disputa por decisão das cúpulas partidárias.
Para Meneguelli, o roteiro é especialmente delicado. Em 2022, ele já teve a candidatura ao Senado interrompida pelo Republicanos e acabou concorrendo à Assembleia Legislativa. Neste ano, deixou a legenda de Pazolini e ingressou no PSD após receber a garantia de que poderia disputar a Câmara Alta. Sua relação política com o prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, foi determinante para a filiação.
Manato enfrenta outro obstáculo. Embora esteja no partido de Pazolini, rompeu politicamente com Magno Malta. Dentro de uma aliança na qual o senador passou a exercer influência não apenas sobre a vaga da filha, mas também sobre a configuração geral da chapa, esse conflito reduz o espaço do ex-deputado.
Renzo entre o aliado e a composição
A situação também cobra uma decisão de Renzo Vasconcelos, presidente estadual do PSD. Ele é aliado de Meneguelli, lidera um partido que já declarou apoio a Pazolini e, ao mesmo tempo, negocia a vaga de vice-governador na chapa.
Entre os nomes mencionados para a vice está Lívia Vasconcelos, médica e primeira-dama de Colatina. Caso essa composição avance, Renzo poderá ser pressionado a aceitar a retirada de Meneguelli do Senado em troca de uma posição de destaque para o PSD na chapa governista. Trata-se, até o momento, de uma possibilidade relatada nos bastidores, e não de uma definição oficial.
O problema é que acordos dessa natureza raramente terminam sem sequelas. Retirar Meneguelli pode produzir reação no PSD e no eleitorado de Colatina. Excluir Manato pode abrir uma divisão dentro do próprio Republicanos. Deslocar Evair de Melo para a Câmara dos Deputados preservaria um articulador próximo de Pazolini, mas frustraria um parlamentar que também reivindica espaço na majoritária.
Pazolini fez uma escolha clara. Abandonou a posição mais discreta que vinha mantendo no cenário presidencial e passou a integrar formalmente o campo de Flávio Bolsonaro. Ganhou o PL, garantiu um palanque nacional e consolidou uma frente competitiva para o governo. Em troca, assumiu compromissos que poderão restringir sua autonomia na montagem da própria chapa.
A frigideira está no fogo. O risco não é apenas fritar uma candidatura ao Senado. É permitir que o óleo dessa disputa respingue sobre o projeto de chegar ao Palácio Anchieta.
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