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Notícia de fato aponta possível omissão de bens de Marcelo Santos e cita suposto “operador financeiro”

Documento enviado à Procuradoria Regional Eleitoral, Polícia Federal e Ministério Público questiona crescimento de 421,5% do patrimônio declarado, aponta bens que teriam ficado fora das declarações e pede apuração sobre a atuação de Deusdete Fioresi

redação Por redação
01/09/2026 - 20:08
em Política
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Notícia de fato aponta possível omissão de bens de Marcelo Santos e cita suposto “operador financeiro”

Marcelo Santos: política e evolução patrimonial | Fotomontagem: Agência Fonte Exclusiva.

O crescimento do patrimônio declarado pelo presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Marcelo Santos, entrou no radar dos órgãos de controle em uma notícia de fato eleitoral protocolada em 27 de agosto.

O documento foi dirigido à Procuradoria Regional Eleitoral no Espírito Santo, à Superintendência Regional da Polícia Federal e à Ouvidoria-Geral do Ministério Público Estadual. Além da evolução patrimonial, a peça levanta uma acusação mais ampla: haveria, segundo o noticiante, bens de uso ou de titularidade econômica de Marcelo Santos que não teriam aparecido nas declarações apresentadas à Justiça Eleitoral.

A representação também dedica parte relevante do documento a Deusdete Fioresi, apresentado pelo autor da notícia de fato como suposto “operador financeiro” do parlamentar. Essa afirmação, porém, é uma acusação contida na representação e ainda depende de investigação e comprovação documental.

O próprio documento faz essa ressalva. A peça afirma expressamente que não antecipa culpa e reconhece que crimes eleitorais ou comuns dependem da demonstração de materialidade, autoria e, quando exigido pela lei, dolo específico. O pedido é para que as autoridades confirmem ou afastem as suspeitas por meio de documentos, registros bancários, imobiliários, societários e fiscais.

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Patrimônio cresce 421,5% em oito anos

Os números apresentados à Justiça Eleitoral formam o primeiro eixo da representação:

  • Em 2018, Marcelo Santos declarou patrimônio de R$ 1.089.543,17.
  • Em 2022, o valor passou para R$ 2.516.565,02, crescimento de 130,97%.
  • Na declaração de 2026, o patrimônio informado chegou a R$ 5.681.997,32, alta de 125,78% em relação à eleição anterior.
  • Na comparação entre 2018 e 2026, o aumento nominal foi de R$ 4.592.454,15. Isso representa crescimento de aproximadamente 421,5% em oito anos.

A representação também chama atenção para a aceleração desse crescimento. Entre 2018 e 2022, o patrimônio declarado aumentou R$ 1,427 milhão.

Já entre 2022 e 2026, período que coincide em grande parte com a passagem de Marcelo Santos pela Presidência da Assembleia Legislativa, o aumento chegou a R$ 3,165 milhões — mais que o dobro do acréscimo registrado nos quatro anos anteriores. Marcelo assumiu a Presidência da Ales em fevereiro de 2023.

A coincidência temporal, isoladamente, não prova irregularidade. É justamente a origem desse crescimento que a notícia de fato pede que seja apurada.

Salário parlamentar não explica sozinho crescimento, diz representação

O documento também compara o aumento patrimonial com os subsídios recebidos por Marcelo Santos.

Segundo o cálculo apresentado, a remuneração parlamentar bruta máxima entre agosto de 2018 e agosto de 2026, incluindo décimos terceiros, seria de aproximadamente R$ 2,986 milhões. O crescimento patrimonial no mesmo intervalo chegou a R$ 4,592 milhões.

Mesmo num cenário irreal em que 100% da remuneração bruta tivesse sido poupada — sem Imposto de Renda, contribuição previdenciária ou despesas pessoais — permaneceria uma diferença de cerca de R$ 1,605 milhão.

Considerando uma estimativa de 30% de descontos legais, a diferença subiria para aproximadamente R$ 2,5 milhões.

A própria notícia de fato, porém, reconhece que a diferença pode ter explicações legítimas.

Rendimentos financeiros, aluguéis, venda ou troca de bens, empréstimos, heranças, doações e outras atividades econômicas são mencionados como possíveis fontes lícitas. Por isso, a peça pede que as autoridades identifiquem documentalmente de onde vieram os recursos.

Possível omissão de bens ganha destaque na denúncia

A representação não se limita à comparação entre renda parlamentar e patrimônio.

Um dos pontos mais graves do documento é a alegação de que determinados bens poderiam ter sido omitidos das declarações eleitorais.

A peça cita, entre as situações a serem investigadas, uma suposta unidade no edifício Atlantic Blue, em Iriri, no município de Anchieta, sul capixaba.

Segundo a notícia de fato, Marcelo Santos ocuparia ou teria participação econômica em uma unidade do empreendimento. O próprio documento ressalta, entretanto, que essa informação ainda está “pendente de confirmação registral”. Nenhum apartamento nesse edifício aparece identificado dessa forma na declaração de 2026.

A representação pede que o Cartório de Registro de Imóveis de Anchieta e a incorporadora forneçam matrícula, contrato, quadro de pagamentos e identificação de quem teria quitado cada parcela. É justamente neste ponto que aparece o nome de Deusdete Fioresi. Ele é apontado como suposto “operador financeiro”

Segundo a narrativa apresentada na notícia de fato, Deusdete Fioresi teria atuado como intermediário financeiro de Marcelo Santos.

O texto afirma que ele seria a pessoa por meio da qual supostos pagamentos de empresas privadas chegariam ao parlamentar ou seriam utilizados para pagar despesas e adquirir bens em benefício dele.

Mais uma vez: trata-se da versão apresentada pelo noticiante. O documento não apresenta uma conclusão de investigação policial ou decisão judicial confirmando essa condição.

A notícia de fato relaciona Deusdete à Infinity Assessoria, Consultoria e Projetos Ltda., empresa constituída em 2012, da qual ele aparece como sócio-administrador nos registros cadastrais mencionados na peça.

De acordo com a representação, o mecanismo a ser investigado envolveria pagamentos de construtoras para a Infinity ou diretamente para Deusdete.

A peça sustenta que esses valores poderiam ter sido posteriormente sacados em espécie, entregues ao parlamentar ou utilizados para custear despesas e bens atribuídos a Marcelo Santos e familiares.

Nada disso é apresentado no documento como fato já comprovado. Ao contrário, a representação pede que extratos bancários, notas fiscais, livros contábeis, transferências, registros de saques e informações do Coaf sejam analisados justamente para confirmar ou descartar a hipótese.

CLIQUE AQUI E LEIA DOCUMENTO NA ÍNTEGRA

Construtoras também são citadas

A denúncia menciona ainda a Dulena Construtora e a Brape Construtora. Segundo o relato recebido pelo noticiante, as empresas teriam feito pagamentos que beneficiariam Marcelo Santos. Uma das hipóteses descritas é que valores teriam sido destinados à incorporadora responsável pelo Atlantic Blue; outra seria a realização de pagamentos a Deusdete Fioresi ou à empresa ligada a ele.

O documento pede que as autoridades requisitem contratos, extratos, notas fiscais e informações contábeis das empresas para verificar se esses pagamentos existiram, quais eram seus valores e qual teria sido a contraprestação.

A representação sustenta que, se comprovados pagamentos sem contraprestação real e destinados ao benefício do parlamentar, o caso poderia ultrapassar a esfera eleitoral e alcançar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro.

Essa classificação jurídica também é uma tese apresentada pelo autor da notícia de fato, não uma conclusão dos órgãos de investigação.

Atlantic Blue está no centro dos questionamentos

O apartamento no Atlantic Blue ocupa espaço importante na denúncia. Segundo a peça, a unidade supostamente ligada a Marcelo Santos não aparece identificada entre os bens de 2026.

O documento acrescenta que os pagamentos, segundo informações recebidas pelo noticiante, teriam sido feitos por terceiros, incluindo as duas construtoras citadas e Deusdete Fioresi.

A representação diz ainda que Deusdete possuiria uma unidade no mesmo edifício, próxima àquela atribuída ao parlamentar. Também nesse caso, a peça pede confirmação pelas matrículas imobiliárias e pelos registros da incorporadora.

O autor da denúncia reconhece expressamente que essas alegações ainda não estão comprovadas e afirma que podem ser verificadas por meio da documentação da incorporadora, registros imobiliários e identificação dos responsáveis pelos pagamentos.

Casa declarada por R$ 120 mil também é questionada

Outro ponto envolve um imóvel declarado em Anchieta por R$ 120 mil. A descrição apresentada à Justiça Eleitoral é genérica: “casa ou imóvel rural”, com “benfeitorias em andamento”.

Segundo o noticiante, o bem poderia corresponder a uma casa no condomínio Sítio da Pedra. A peça compara o valor declarado com anúncios de imóveis no mesmo condomínio, que ultrapassam R$ 1,2 milhão.

Por isso, pede que sejam levantadas a matrícula, a escritura, o ITBI e a forma de pagamento para descobrir quanto efetivamente foi pago pela propriedade.

A comparação com anúncios de imóveis não é prova de subavaliação. Imóveis dentro de um mesmo condomínio podem ter valores diferentes por causa de tamanho, localização, padrão construtivo e estado de conservação. A documentação da compra é que poderá esclarecer o ponto.

Oito imóveis têm a mesma descrição

Também chama atenção na declaração de 2026 a forma como os imóveis foram informados. São oito propriedades ou participações imobiliárias em diferentes locais do país. Todas recebem a mesma expressão: “benfeitorias em andamento”.

Entre elas aparecem bens em Cariacica, Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro, Anchieta, Vargem Alta, Divino de São Lourenço e Rio Grande do Sul.

A notícia de fato pede que cada benfeitoria seja individualizada, com identificação da obra, período de execução, empresa contratada, notas fiscais, comprovantes de pagamento, ART ou RRT e origem dos recursos empregados.

Dinheiro, aplicação, avião e barco

A declaração de 2026 inclui ainda R$ 1.039.980 em aplicação financeira, R$ 409.276,03 em conta bancária e R$ 116 mil em espécie.

Somados, são mais de R$ 1,5 milhão em ativos líquidos. Há também 5% de participação em uma aeronave Cirrus, declarados por R$ 170 mil, e 20% de uma embarcação, informados por R$ 320 mil.

A representação pede que ANAC e Capitania dos Portos identifiquem os bens e os demais coproprietários e esclareçam valores, forma de aquisição e pagamento dos custos de manutenção.

O documento apresenta ainda outras informações recebidas pelo noticiante e expressamente classificadas como pendentes de confirmação.

Entre elas estão a suposta participação em um helicóptero, um terreno em Guarapari que teria sido adquirido por intermédio de terceiro e até um imóvel na Toscana, na Itália, atribuído ao filho ou a uma empresa ligada a ele.

A denúncia pede consultas à ANAC, cartórios, Detran, Capitania dos Portos e, no caso da Itália, cooperação jurídica internacional.

Nenhuma dessas alegações pode ser apresentada como patrimônio comprovadamente pertencente a Marcelo Santos sem que as autoridades obtenham os registros correspondentes.

Investigação pede rastreamento do dinheiro

A dimensão da notícia de fato pode ser medida pelas diligências solicitadas. O documento pede acesso às declarações eleitorais de 2018, 2022 e 2026, declarações fiscais, relações de bens entregues à própria Assembleia Legislativa e levantamento detalhado de aquisições, aplicações e fontes de renda.

Em relação a Deusdete Fioresi e à Infinity, a representação pede levantamento de recebimentos das construtoras, contratos, notas fiscais, saques em espécie, pagamentos de despesas e eventual relação financeira com Marcelo Santos e seus familiares.

Também é solicitado relatório de inteligência financeira ao Coaf.

Para o Atlantic Blue, o pedido é ainda mais específico: matrícula das unidades, contratos, quadro de pagamentos e identificação de quem efetivamente pagou cada parcela.

Marcelo Santos deve ter oportunidade de explicar patrimônio

A própria notícia de fato pede que Marcelo Santos seja ouvido depois da coleta dos documentos.

Segundo a peça, o parlamentar deve ter oportunidade de “demonstrar documentalmente a origem lícita de toda a evolução patrimonial” e responder às demais acusações apresentadas. Esse ponto é essencial.

Uma notícia de fato não equivale a denúncia criminal oferecida pelo Ministério Público, muito menos a condenação. É uma comunicação feita aos órgãos competentes para que avaliem se existem elementos suficientes para abrir investigação e realizar diligências.

Ao final, o próprio documento pede que, se as suspeitas não forem confirmadas, o procedimento seja arquivado. Caso sejam comprovadas divergências materiais, dolo e eventuais crimes conexos, requer a adoção das medidas legais cabíveis.

Outro lado

O documento analisado pelo Giro Capixaba não contém uma manifestação de Marcelo Santos sobre as acusações feitas pelo noticiante.

A reportagem do Giro Capixaba encaminhou ao parlamentar perguntas objetivas sobre a evolução patrimonial, os imóveis declarados como “benfeitorias em andamento”, a unidade apontada no Atlantic Blue, a relação com Deusdete Fioresi e a origem dos valores mantidos em aplicações e dinheiro em espécie. Até o fechamento, ele não se maifestou.

O empresário Deusdete Fioresi, também foi instado a responder perguntas enviadas pela reportagem e se manifestou por meio de mensagem enviada por WhatsApp. O conteúdo está publicado também aqui no Giro Capixaba, como desdobramento desta edição.  A reportagem não conseguiu contato com as empresas citadas.

O Giro Capixaba mantém o espaço aberto para a manifestação dos citados e atualizará a reportagem caso sejam apresentados documentos ou esclarecimentos.

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