Uma crise empresarial que começou dentro de uma das maiores plataformas de investimentos do Espírito Santo atravessou rapidamente os limites do mercado financeiro e entrou no debate político capixaba em plena campanha eleitoral.
A Apex Partners reconheceu perante a Justiça um passivo preliminar de R$ 985,6 milhões, afastou o fundador Fernando Antonio Kulnig Cinelli e o então diretor financeiro Eduardo Siqueira e obteve proteção temporária contra cobranças enquanto tenta dimensionar a real situação financeira de um conglomerado formado por dezenas de empresas.
O episódio ganhou ainda mais repercussão porque Pedro Chieppe Moura de Rezende Ferraço, filho do governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço (MDB), integra a estrutura societária da Apex e ocupou posições executivas ligadas ao grupo.
Victor Fernandes Moca Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande (PSB), candidato ao Senado, também aparece como sócio e diretor institucional. Até esta quarta-feira (12), não havia documento público que atribuísse a Pedro, Victor, Ricardo Ferraço ou Renato Casagrande participação nas inconsistências financeiras que desencadearam a crise.
A distinção é fundamental: os vínculos societários e familiares são fatos documentados, mas não significam, por si só, responsabilidade pelas irregularidades que estão sendo apuradas.
Dívida quase dobrou e empresa recorreu à Justiça
A crise tornou-se pública em 6 de agosto, quando a Apex informou que integrantes do seu partnership identificaram “inconsistências financeiras”. Fernando Cinelli foi afastado da presidência e Eduardo Siqueira deixou a diretoria financeira. Marcelo Murad assumiu interinamente o comando, e a companhia anunciou a contratação de auditoria externa para aprofundar a investigação.
No dia seguinte, o grupo recorreu à Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. A medida adotada foi uma tutela cautelar antecedente, e não um pedido formal de recuperação judicial. A Justiça concedeu proteção temporária contra execuções, penhoras e bloqueios enquanto a companhia tenta organizar as informações financeiras e decidir se ingressará efetivamente com recuperação judicial.
Os dados apresentados pela própria Apex à Justiça revelaram uma deterioração acelerada das contas.
A dívida líquida consolidada teria passado de aproximadamente R$ 413 milhões, em janeiro de 2025, para cerca de R$ 975 milhões em junho de 2026. Já o passivo preliminar indicado na ação alcança R$ 985,6 milhões, com data-base de 30 de junho. Os números ainda dependem de reconciliação contábil e auditoria independente.
Somente no primeiro semestre de 2026, aproximadamente R$ 300 milhões em novas dívidas teriam sido contratados. Documentos apresentados ao Judiciário indicam que R$ 175 milhões desse montante foram direcionados a despesas operacionais, financeiras e fiscais relacionadas também a obrigações anteriores.
Outro ponto de atenção está nos ativos considerados recuperáveis. A documentação aponta uma carteira nominal de R$ 261,5 milhões, mas a avaliação preliminar da nova administração reduziu a expectativa de recuperação para R$ 190,1 milhões. Em 65 operações de empréstimos, foram consideradas perdas integrais que somam R$ 38,1 milhões.
Debêntures concentram R$ 452 milhões do passivo
O maior bloco individual da dívida envolve debêntures. Segundo os documentos levados à Justiça, R$ 452,1 milhões do passivo estão associados a títulos emitidos por intermédio da Rhino Securitizadora. As remunerações variavam entre 110% e 130% do CDI ou IPCA acrescido de percentuais mensais. Parte relevante dessas operações tinha como garantia ações da própria Apex Partners.
Há ainda R$ 309,8 milhões relacionados a aproximadamente 1.600 posições de clientes ligadas a mecanismos de cashback e cerca de R$ 201,7 milhões em obrigações bancárias. Também aparecem R$ 35,2 milhões em tributos correntes atrasados.
A documentação mostra ainda que um aumento de capital de R$ 176,5 milhões chegou a ser aprovado pelos acionistas em abril, mas o aporte não se concretizou.
A Apex afirma que os números são preliminares. A auditoria independente deverá determinar o tamanho definitivo do passivo, a qualidade dos ativos e a destinação dos recursos captados.
Fundo tem resgates suspensos e BTG rompe parceria
Os efeitos da crise já chegaram a investidores. O BRM Carbyne Crédito Estruturado FIC-FIDC, administrado pelo BTG Pactual e ligado à estrutura da Apex, teve os resgates suspensos depois do aumento dos pedidos de retirada. O fundo possuía patrimônio líquido de aproximadamente R$ 160,5 milhões e 909 cotistas. O BTG justificou a medida pela incompatibilidade entre a liquidez da carteira e o volume de resgates solicitados.
Dados da carteira divulgados pela CVM e analisados pela imprensa mostram que, em 30 de junho, o fundo tinha cerca de R$ 148 milhões de patrimônio e apenas R$ 220,8 mil em liquidez imediata. A concentração, isoladamente, não comprova fraude ou perda financeira, mas ajuda a explicar a dificuldade para atender uma corrida de resgates.
O BTG também encerrou o contrato de distribuição de produtos financeiros que mantinha com a Apex. O banco esclareceu que a relação era comercial, não societária.
Operação com a CVC amplia dimensão nacional da crise
A Apex tornou-se uma das acionistas relevantes da CVC, uma das maiores companhias do setor de turismo do país.
Entre dezembro de 2025 e abril deste ano, fundos ligados à BRM Carbyne e Fernando Cinelli adquiriram aproximadamente 15% do capital da CVC. Em abril, a Apex também firmou acordo de acionistas com o fundo GJP, do empresário Guilherme Paulus. Somados, os participantes do acordo chegaram a 35,3% do capital da companhia de turismo.
A assembleia da CVC chegou a aprovar uma alteração estatutária que permitiu ao bloco ultrapassar a participação de 25% sem disparar automaticamente uma oferta pública de aquisição de ações. Cinelli também foi eleito para o conselho da empresa, mas deixou a posição depois que a crise da Apex veio à tona.
A CVC afirma não possuir relação operacional ou financeira com a Apex além da presença desta como acionista.
Filho de Ricardo Ferraço aparece como acionista e executivo
A dimensão política do caso está principalmente na composição societária e administrativa da Apex.
Consultas a registros empresariais feitas pela imprensa capixaba mostram Pedro Chieppe Ferraço entre os sócios da ABM Partnership Investimentos e Participações, principal holding do grupo. Pedro se apresenta profissionalmente como Head da APX Investimentos e já foi identificado publicamente como vice-presidente e cofundador de operações relacionadas à Apex.
Documentos societários obtidos pela revista Veja mostram ainda que Pedro converteu, em dezembro de 2025, R$ 500 mil em debêntures da Apex Partners Gestão de Ativos em ações da companhia.
Há outro ponto que passou a chamar atenção do mercado. Em 6 de janeiro de 2026, a Rhino Securitizadora aprovou uma emissão de R$ 60 milhões em debêntures vinculadas à BRM Apex Investimentos. Dois dias depois, Pedro Ferraço foi eleito diretor de compliance da Rhino. Naquele momento, ele já era acionista da Apex.
Sete meses depois, as debêntures emitidas por intermédio da Rhino apareceram nos documentos judiciais respondendo por R$ 452,1 milhões do passivo preliminar da Apex.
Não há, entretanto, informação pública indicando que Pedro tenha participado da aprovação da emissão de R$ 60 milhões ou que tenha relação com as inconsistências financeiras posteriormente identificadas na Apex. Também não há evidência pública de participação do governador Ricardo Ferraço no caso.
A própria Rhino afirma manter segregação funcional, patrimonial e operacional em relação à Apex e diz que atua apenas como estruturadora e emissora dos títulos contratados pelo grupo.
Filho de Casagrande também integra estrutura da Apex
Victor Casagrande, filho de Renato Casagrande, também aparece no quadro societário da holding e exercia a função de diretor institucional da Apex.
No domingo (9), em meio à repercussão da crise, Victor publicou uma mensagem nas redes sociais em defesa do pai. Disse que Renato Casagrande estava sendo envolvido em uma situação pela qual, segundo ele, não tinha responsabilidade e afirmou que enfrentaria o momento assumindo as responsabilidades que lhe cabem.
Assim como ocorre em relação a Pedro Ferraço, não há informação pública até o momento apontando Victor Casagrande como participante das inconsistências investigadas. Renato Casagrande também não é apontado nas apurações internas da companhia.
Governo afirma que dinheiro público não está aplicado na Apex
Com a repercussão política do episódio, o Governo do Espírito Santo divulgou esclarecimento afirmando que não há recursos do Tesouro Estadual nem do Fundo Soberano do Espírito Santo investidos na Apex Partners.
A manifestação é relevante porque reduz, até agora, uma das dúvidas de maior impacto público: não surgiu evidência de que o passivo da Apex tenha exposição direta de recursos do caixa estadual.
Isso, porém, não eliminou a repercussão política.
O caso chegou à Assembleia Legislativa, onde governo e oposição passaram a discutir as relações empresariais da Apex e os vínculos de integrantes da companhia com famílias políticas do Estado.
Por que a crise pode pesar na campanha de Ricardo Ferraço
O potencial eleitoral do caso está menos em uma responsabilização jurídica do governador — para a qual não há elementos públicos neste momento — e mais no desgaste político provocado pela proximidade familiar e pelo calendário.
Ricardo Ferraço assumiu o governo do Espírito Santo em 2 de abril, depois da renúncia de Renato Casagrande, que deixou o Palácio Anchieta para disputar as eleições de 2026.
A candidatura de Ricardo à reeleição foi encaminhada no início de agosto, com Camillo Neves (PP) anunciado como vice. A crise da Apex se tornou pública praticamente na mesma semana em que a chapa governista entrou definitivamente na disputa eleitoral.
Esse calendário transforma um problema empresarial em um risco político.
Antes da crise, Ricardo vinha aparecendo em posição competitiva nas pesquisas. Levantamento Real Time Big Data realizado em 20 e 21 de julho mostrou o governador liderando cenários de primeiro turno e todos os confrontos de segundo turno em que era testado.
Em um deles, marcava 41% contra 30% de Lorenzo Pazolini. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores, tinha margem de erro de dois pontos percentuais e foi registrada sob o número ES-04482/2026.
Outra pesquisa, da Quaest, realizada entre 10 e 13 de julho, apresentava quadro mais apertado. Ricardo tinha 21%, contra 19% de Pazolini e 19% de Paulo Hartung em um dos cenários, configurando empate técnico pela margem de erro de três pontos.
Nenhum desses levantamentos mediu o efeito da crise da Apex porque ambos foram realizados antes de o caso vir a público.
É exatamente aí que estará um dos testes da campanha. A associação entre o sobrenome Ferraço e uma empresa que acaba de revelar um passivo próximo de R$ 1 bilhão oferece aos adversários uma linha de questionamento politicamente sensível, sobretudo porque Pedro Ferraço não aparece apenas como um investidor distante: ele figura em registros societários e ocupou funções executivas relacionadas ao grupo e à Rhino.
Isso não autoriza atribuir ao governador responsabilidade pela crise. Mas, em campanha eleitoral, a discussão pode migrar da responsabilidade jurídica para temas como governança, relações entre empresários e poder público, transparência e conhecimento das atividades desenvolvidas por pessoas próximas ao núcleo político governista.
O desgaste poderá ser maior ou menor conforme as próximas revelações.
Se a auditoria concluir que a crise ficou restrita às decisões dos executivos já afastados, e se não surgirem conexões com recursos públicos ou atos praticados por Pedro Ferraço, a tendência é que o governo tente separar definitivamente o episódio empresarial da candidatura.
Se, ao contrário, novos documentos ampliarem o número de responsáveis, indicarem falhas de governança envolvendo outras diretorias ou revelarem relações ainda desconhecidas entre a estrutura empresarial e agentes públicos, a Apex poderá se transformar em um dos principais temas da campanha estadual.
Por enquanto, qualquer conclusão além disso seria prematura.
Uma crise que ainda está no começo
Há perguntas fundamentais sem resposta. A auditoria externa ainda deverá estabelecer o valor definitivo das dívidas, a capacidade de recuperação dos ativos e o destino dos recursos captados. Também permanece sob análise a origem das inconsistências financeiras e quem tinha conhecimento das operações.
A Justiça concedeu à Apex uma janela temporária de proteção. A empresa ainda não está formalmente em recuperação judicial. A cautelar busca impedir que uma corrida de credores provoque bloqueios e execuções capazes de comprometer a continuidade dos negócios enquanto a situação é examinada.
Fernando Cinelli, por sua vez, afirmou por meio de sua assessoria que está disposto a colaborar para o esclarecimento dos fatos e para a preservação da companhia, dos investidores e dos acionistas.
No mercado, os próximos capítulos virão da auditoria, da Justiça e dos órgãos reguladores.
Na política, a resposta poderá aparecer nas pesquisas eleitorais realizadas depois da crise.
Para Ricardo Ferraço, que chega à campanha sustentando a continuidade de uma administração que transformou confiança institucional e equilíbrio fiscal em bandeiras políticas, o desafio será impedir que a crise de uma empresa privada da qual seu filho é acionista e executivo contamine essa narrativa. O próprio discurso de posse de Ferraço definiu a confiança como um dos principais ativos do Espírito Santo.
É justamente nesse terreno — o da confiança — que o caso Apex poderá produzir seu maior efeito eleitoral.
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