A crise da Apex Partners deixou de ser apenas um problema do mercado financeiro e abriu uma frente de questionamentos sobre a estrutura de comando da empresa e suas conexões com duas das principais famílias políticas do Espírito Santo.
Documentos societários revelados nos últimos dias ajudam a delimitar com maior precisão o papel de Pedro Chieppe Ferraço, filho do governador Ricardo Ferraço (MDB), e Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande (PSB), dentro do ecossistema da Apex.
E há uma distinção importante: não era Ricardo Ferraço quem ocupava a vice-presidência da Apex e o cargo de compliance. Essas funções estão relacionadas ao filho, Pedro Ferraço. O atual governador teve, antes de retornar à política eleitoral, participação empresarial na Rhino Securitizadora, companhia que posteriormente se tornou peça relevante no financiamento da Apex.
A diferença é fundamental para separar responsabilidades, funções e períodos distintos de atuação.
Pedro Ferraço não era apenas um investidor
As informações reunidas pela Veja mostram que Pedro Ferraço ocupava posição relevante dentro da estrutura da Apex.
Material empresarial citado pela revista o apresentava como cofundador e vice-presidente da companhia, além de head da APX Investimentos. Em dezembro de 2025, ele também se tornou acionista direto da Apex Partners Gestão de Ativos ao converter R$ 500 mil em debêntures em 8.921 ações ordinárias e uma ação preferencial classe B.
A Gazeta também identificou Pedro como liderança da Apex e registrou que ele se apresentava profissionalmente como Head da empresa, embora entrevistas anteriores o tenham apresentado como vice-presidente e cofundador.
Portanto, a participação dele ia além da condição de pequeno cotista ou simples funcionário.
Ele integrava a administração, participava da estrutura societária e exercia funções executivas dentro de um grupo que expandiu rapidamente sua atuação no mercado financeiro capixaba.
O elo mais sensível: o compliance da Rhino
O ponto que hoje provoca maior questionamento sobre governança surgiu em janeiro de 2026.
No dia 6 daquele mês, a Rhino Securitizadora aprovou uma emissão de até R$ 60 milhões em debêntures vinculadas à BRM Apex Investimentos. A emissão começou formalmente no dia seguinte. Em 8 de janeiro, Pedro Ferraço foi eleito diretor de compliance da securitizadora.
A ata analisada pela Veja definia como atribuição do diretor de compliance garantir o cumprimento das regras, políticas, procedimentos e controles internos da Rhino.
É exatamente por isso que essa função ganhou relevância depois da crise.
Pedro assumiu o setor responsável por controles internos de uma securitizadora que realizava negócios expressivos com empresas relacionadas à Apex, ao mesmo tempo em que já era acionista direto e executivo da própria Apex.
A questão que se coloca não é, neste momento, uma acusação de fraude contra Pedro. Não existe documento público apontando participação dele nas inconsistências financeiras encontradas na Apex.
O questionamento é de governança: como era administrado um possível conflito de interesses entre o responsável pelo compliance da securitizadora e sua posição simultânea dentro da empresa que figurava como contraparte relevante das operações?
Essa resposta ainda não veio a público.
R$ 452 milhões do passivo passam pela Rhino
A dimensão dessa relação tornou-se mais clara depois que a Apex levou seus números preliminares à Justiça.
Do passivo bruto de R$ 985,6 milhões informado pela empresa, aproximadamente R$ 452,1 milhões estão relacionados a debêntures emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora.
Ou seja: quase metade do passivo preliminar da Apex aparece vinculada ao tipo de operação estruturada pela empresa na qual Pedro Ferraço exercia a diretoria de compliance.
Esses números ainda dependem de validação por auditoria independente e não significam que toda essa dívida tenha sido originada durante a gestão de Pedro no compliance.
Mas ajudam a explicar por que a atuação do filho do governador passou a ser examinada com maior atenção.
Ricardo Ferraço também passou pela Rhino
A investigação jornalística da Veja avançou um passo além e mostrou que a relação da família Ferraço com a Rhino começou antes da entrada de Pedro no compliance.
Uma ata de agosto de 2021 apresenta Ricardo Ferraço como diretor comercial da securitizadora. Naquele momento, a Trekking Gestão e Estratégia Empresarial, empresa representada por ele como sócio-administrador, aparecia entre as acionistas da Rhino.
Segundo os documentos, a Trekking possuía 2.500 das 10 mil ações existentes, equivalentes a 25% da companhia.
Em 17 de agosto de 2022, essa participação foi transferida para a CMRF Investimentos e Participações, representada por Pedro Ferraço. Depois de aumento de capital, a CMRF continuou com 25% da securitizadora.
A transferência ocorreu um dia após o início oficial da campanha eleitoral de 2022, quando Ricardo retornou à disputa política e posteriormente foi eleito vice-governador.
Os documentos não demonstram irregularidade nessa operação e também não mostram Ricardo participando dos negócios entre Rhino e Apex ocorridos posteriormente.
O que eles comprovam é uma relação empresarial anterior e direta entre o atual governador e a securitizadora que, anos depois, passaria a responder por operações relacionadas a uma parcela expressiva das dívidas da Apex.
Incentivo fiscal acrescenta novo elo
Outro episódio revelado pela Veja ampliou a repercussão política.
Em julho de 2023, o Comitê de Avaliação do Invest-ES aprovou benefício fiscal para a Apex Log Pitanga Empreendimento Imobiliário, projeto relacionado à Apex. Ricardo Ferraço era, naquele momento, vice-governador, secretário de Desenvolvimento e coordenador do colegiado responsável pela análise dos pedidos do programa.
Na mesma época, Pedro já integrava a Apex e era apresentado como vice-presidente.
A regulamentação do comitê previa impedimento de integrantes quando existisse interesse direto ou indireto, além da necessidade de comunicação e abstenção em situações de potencial conflito.
Mas há uma ressalva indispensável.
Os documentos localizados pela Veja não demonstram que Ricardo Ferraço estivesse presente na reunião específica que aprovou o benefício, nem que tenha votado, interferido ou atuado diretamente na análise do projeto. Uma resolução referente à reunião foi assinada pela coordenadora suplente do colegiado.
A assessoria do governador afirmou que os incentivos concedidos ao setor logístico integram uma política estadual ampla e negou qualquer direcionamento individual em favor da Apex.
E Victor Casagrande?
Victor Casagrande também estava inserido na estrutura da Apex, mas em função diferente.
A documentação consultada por A Gazeta o identifica no quadro societário e como diretor institucional do grupo. Ele também aparece entre pequenos cotistas de empresas pertencentes ao ecossistema da Apex.
A Veja registra que Victor foi apresentado publicamente como sócio-diretor e diretor institucional. Não foi localizada, contudo, ação da holding Apex Partners Gestão de Ativos registrada diretamente em seu nome.
A diretoria institucional, em linhas gerais, lida com relações empresariais, institucionais e interlocução externa. Não há informação pública demonstrando que Victor fosse responsável pela tesouraria, contabilidade, auditoria, controle financeiro ou pela aprovação das operações que produziram o atual passivo.
Victor também se manifestou depois do início da crise. Em publicação no Dia dos Pais, disse que Renato Casagrande estava sendo envolvido em uma situação pela qual, segundo ele, não tinha responsabilidade e afirmou que enfrentaria o episódio assumindo as responsabilidades que lhe coubessem.
Até agora, não existe documento público apontando Victor como participante das inconsistências financeiras.
O que os dois sabiam?
Essa provavelmente será uma das perguntas mais relevantes daqui para frente.
Pedro e Victor não eram figuras externas ao negócio. Pedro era apresentado como cofundador e vice-presidente, tornou-se acionista direto e acumulou posteriormente a diretoria de compliance da Rhino. Victor exercia a diretoria institucional e aparece em registros societários do grupo.
Por outro lado, a Apex informou que sua investigação interna resultou no afastamento do fundador Fernando Cinelli e do diretor financeiro Eduardo Siqueira. Até agora, as medidas anunciadas pela companhia não atingiram Pedro ou Victor.
Não foi divulgado um relatório completo indicando quando as inconsistências começaram, quais executivos tinham acesso às informações financeiras consolidadas e quais níveis da administração conheciam a evolução das dívidas.
Essa lacuna mantém aberta a discussão sobre governança.
Apex declarou quase R$ 1 bilhão em passivos
A nova administração informou à Justiça passivo bruto preliminar de R$ 985,6 milhões.
A dívida líquida teria passado de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para aproximadamente R$ 975 milhões em junho deste ano. Somente no primeiro semestre de 2026, a companhia teria contratado cerca de R$ 300 milhões em novas dívidas.
Além dos R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas por intermédio da Rhino, os documentos apontam R$ 309,8 milhões relacionados a mecanismos de cashback de aproximadamente 1.600 posições de clientes, R$ 201,7 milhões em dívidas bancárias com aval e R$ 35,2 milhões em tributos correntes atrasados.
Também foram estimadas perdas integrais de R$ 38,1 milhões em 65 operações de mútuo.
Os números ainda não foram validados por auditoria independente.
Caso chegou à tribuna da Assembleia
A crise já entrou diretamente no debate político da Assembleia Legislativa. Na sessão de 10 de agosto, deputados da oposição e da base governista protagonizaram um confronto sobre as relações entre a Apex, seus executivos e o Governo do Estado.
Alcântaro Filho (Republicanos) defendeu uma CPI e cobrou explicações do governador. Lucas Polese (PL) também pediu investigação e afirmou ter recebido relatos de empresários envolvendo relações entre investimentos privados, fundos administrados pelo BTG e a Apex. Essas declarações são acusações políticas e não foram comprovadas documentalmente até agora.
Do lado governista, Mazinho dos Anjos e Vandinho Leite, ambos do MDB, acusaram a oposição de exploração eleitoral e afirmaram que não há dinheiro do Fundo Soberano investido diretamente na Apex.
O Governo do Estado também negou que recursos do Tesouro ou do Fundo Soberano estejam aplicados na plataforma.
Por que o cargo de compliance é tão importante
Entre todas as revelações, a nomeação de Pedro Ferraço para o compliance da Rhino é uma das que mais exigem esclarecimentos.
Compliance não significa necessariamente fiscalizar todas as decisões de investimento da Apex. Esse é um ponto que precisa ser tecnicamente separado.
Pedro era diretor de compliance da Rhino, não o responsável formal por todo o compliance do conglomerado Apex, segundo os documentos encontrados. A função atribuída a ele estava ligada ao cumprimento das regras, políticas, procedimentos e controles internos da securitizadora. É uma diferença relevante.
O problema potencial de governança nasce justamente porque ele exercia essa função na Rhino enquanto simultaneamente mantinha posição executiva e acionária na Apex — empresa cujas operações eram contraparte relevante da securitizadora.
Assim, seria impreciso afirmar hoje que Pedro “deveria fiscalizar todas as irregularidades dos investimentos da Apex”.
A pergunta correta é outra: quais controles deveriam ser aplicados pela Rhino às operações envolvendo a Apex e como o possível conflito de interesses de Pedro foi administrado?
Uma crise empresarial que ganhou dimensão eleitoral
O caso ganhou repercussão nacional justamente durante a campanha eleitoral.
Ricardo Ferraço disputa a permanência no Governo do Espírito Santo. Renato Casagrande deixou o Palácio Anchieta para concorrer ao Senado. Os filhos de ambos aparecem em posições empresariais dentro da mesma companhia que revelou uma crise de quase R$ 1 bilhão.
Isso, por si só, não transfere responsabilidade jurídica dos filhos para os pais nem comprova envolvimento dos governadores nas inconsistências.
Da mesma maneira, a ocupação de cargos por Pedro e Victor também não comprova participação nas irregularidades.
Mas os cargos impedem que ambos sejam tratados como personagens meramente periféricos.
Pedro ocupava funções executivas, tinha participação acionária e assumiu uma área diretamente ligada à governança de uma securitizadora central nas operações do grupo. Victor era diretor institucional e estava inserido no quadro societário.
Por isso, a auditoria independente terá importância muito além da simples confirmação do tamanho do passivo.
Ela poderá ajudar a responder quem conhecia a situação financeira da Apex, quando as inconsistências foram detectadas internamente, quais órgãos de administração recebiam informações consolidadas e se existiram falhas de controle que poderiam ter sido identificadas anteriormente.
Até que essas respostas apareçam, há fatos documentados e perguntas legítimas — mas não há base pública para atribuir fraude a Pedro Ferraço ou Victor Casagrande.
O que está documentalmente estabelecido
Pedro Ferraço foi apresentado como cofundador e vice-presidente da Apex, tornou-se acionista direto e posteriormente assumiu o compliance da Rhino. Ricardo Ferraço havia sido diretor comercial e tinha participação indireta de 25% na securitizadora antes de retornar à política, participação posteriormente transferida para uma empresa representada pelo filho.
Victor Casagrande ocupava a diretoria institucional da Apex e aparece em sua estrutura societária.
A Rhino emitiu debêntures que representam R$ 452,1 milhões do passivo preliminar da Apex.
E um projeto ligado à Apex recebeu incentivo fiscal do Invest-ES quando Ricardo Ferraço coordenava o comitê responsável pelo programa — sem prova, até agora, de que ele tenha participado da decisão específica.
É esse conjunto de relações, e não uma acusação ainda sem provas, que transformou a crise da Apex em um dos temas mais sensíveis da política capixaba às vésperas das eleições.
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