Na monarquia britânica, o soberano reina, mas não governa. Guardadas todas as proporções, é essa a comparação que começa a circular nos bastidores da campanha de Ricardo Ferraço (MDB) ao Governo do Espírito Santo.
No núcleo político montado para a eleição, uma personagem ganhou espaço muito além das atribuições formais de chefe de gabinete: Flávia Mignoni, jornalista e ex-superintendente de Comunicação no governo Casagrande.
Interlocutores políticos atribuem a ela papel central na organização da campanha, no filtro das decisões e na interlocução com os diferentes grupos que cercam o governador. Na prática, Mignoni passou a ser tratada nos bastidores como uma das pessoas de maior influência sobre o candidato.
A expressão “eminência parda”, usada por aliados e adversários para descrever esse tipo de personagem, pode ser exagerada. Mas revela uma percepção que existe dentro da política capixaba: decisões importantes passam pelo seu gabinete antes de chegar à rua.
Ferraço terá ainda outro nome experiente em uma área sensível da campanha. Maurício Duque, ex-presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) e ex-secretário estadual da Fazenda, aparece no núcleo responsável pela organização financeira.
É uma composição que reúne experiência administrativa e conhecimento profundo da máquina estadual.
Mas a estrutura de campanha não resolve todos os problemas.
Ricardo Ferraço chega à eleição com uma vantagem que seus adversários dificilmente conseguem reproduzir: herdou de Renato Casagrande uma rede política construída ao longo de anos, com prefeitos, secretários, lideranças regionais, partidos e interlocutores distribuídos praticamente por todo o Espírito Santo.
É uma capilaridade importante numa eleição estadual.
Ao mesmo tempo, essa herança produz uma contradição que a campanha terá de administrar.
Ferraço precisa apresentar-se como continuidade de uma administração bem avaliada entre setores do eleitorado, mas também necessita construir uma identidade própria. Se permanecer excessivamente ligado a Casagrande, corre o risco de parecer apenas uma extensão do antecessor. Se tentar romper demais, perde justamente uma das principais estruturas que sustentam sua candidatura.
Esse movimento de afastamento e aproximação tende a ser uma das marcas da campanha.
Casagrande continua sendo padrinho político, cabo eleitoral e fiador de parte significativa da estrutura que Ferraço recebeu. O governador, porém, precisa convencer o eleitor de que possui um projeto próprio para o Palácio Anchieta.
Não é tarefa simples.
Ferraço construiu ao longo da carreira uma trajetória política marcada por mudanças de alianças e aproximações com grupos ideologicamente distintos. Em diferentes momentos, esteve próximo de setores mais conservadores, enquanto a coalizão liderada por Casagrande mantém relação política com partidos da esquerda, inclusive o PT.
Para uma eleição polarizada, essa flexibilidade pode servir para ampliar pontes. Também pode alimentar questionamentos sobre qual será, afinal, a identidade política de um eventual novo mandato.
A essa equação juntou-se um problema que ninguém no núcleo eleitoral gostaria de carregar para dentro da campanha: a crise da Apex Partners.
O caso deixou o mercado financeiro e entrou de vez na política capixaba.
A empresa apresentou à Justiça um passivo preliminar próximo de R$ 1 bilhão e passou a enfrentar uma disputa judicial para reorganizar sua situação financeira. A extensão das perdas, responsabilidades e eventuais irregularidades ainda está em apuração.
O assunto é particularmente sensível para Ricardo Ferraço porque seu filho, Pedro Ferraço, ocupou funções relevantes na estrutura empresarial ligada à Apex.
Também aparece no grupo Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande.
Isso não permite transferir automaticamente aos pais qualquer responsabilidade pelos negócios dos filhos. Tampouco há, até agora, conclusão judicial atribuindo a Pedro Ferraço ou Victor Casagrande participação nas inconsistências financeiras apontadas na companhia.
Politicamente, porém, a proximidade é inevitável.
Quando filhos de dois dos principais nomes da política estadual aparecem ligados a uma empresa que enfrenta uma crise financeira dessa dimensão, o assunto deixa de ser apenas empresarial.
É exatamente essa fronteira entre negócio privado e repercussão pública que deverá alimentar o debate eleitoral.
O Ministério Público do Espírito Santo já recebeu representações relacionadas ao universo da Apex, incluindo uma de natureza criminal. Essas iniciativas ainda estão em estágio de análise e não significam denúncia, indiciamento ou condenação dos nomes mencionados.
O que existe, neste momento, é uma sucessão de perguntas.
Quem conhecia a real situação financeira da Apex? Quem participava das decisões? Quais eram as atribuições efetivas de cada diretor? Como funcionavam os mecanismos internos de controle? E em que momento a dimensão das obrigações passou a ser conhecida pela alta administração?
Essas respostas poderão ser mais importantes eleitoralmente do que qualquer discurso produzido pelos marqueteiros.
Também chama atenção, até agora, a ausência de uma movimentação pública mais clara de órgãos federais de fiscalização e investigação semelhantes às observadas em outros escândalos financeiros recentes. Isso não significa inércia — procedimentos podem tramitar sem publicidade —, mas aumenta a expectativa sobre eventual atuação de instituições como CVM, Polícia Federal e Ministério Público Federal caso surjam elementos de competência federal.
Para Ricardo Ferraço, portanto, a eleição deixou de ser apenas uma disputa para administrar a herança de Casagrande.
Há uma agenda própria de problemas.
A campanha precisa controlar danos provocados pela Apex, definir uma identidade política, acomodar aliados de diferentes campos e, ao mesmo tempo, impedir que a estrutura herdada do governo pareça maior que o próprio candidato.
É nesse cenário que Flávia Mignoni ganha importância.
Se realmente concentra a articulação atribuída a ela nos bastidores, sua tarefa será equilibrar um candidato conhecido por decisões próprias com uma campanha que necessita de disciplina, mensagem uniforme e resposta rápida às crises.
Maurício Duque terá missão diferente. Sua área é menos visível, mas igualmente estratégica: garantir organização financeira e operacional a uma campanha estadual que contará com uma extensa rede de apoios.
Ferraço dispõe de máquina política, alianças, estrutura e capilaridade.
Mas nenhuma dessas vantagens elimina os riscos.
A campanha começa com um candidato que precisa provar que governa o próprio projeto, mesmo carregando a herança de Casagrande, convivendo com um núcleo de assessores de forte influência e enfrentando uma crise empresarial que toca diretamente seu ambiente familiar.
A comparação com a monarquia britânica pode render uma boa provocação de bastidor.
A eleição, porém, cobrará uma resposta bem menos simbólica: quem, afinal, dará as ordens no projeto político de Ricardo Ferraço?
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