O governo dos Estados Unidos firmou um acordo com 16 países da América Latina para ampliar o combate aos cartéis de drogas na região e afirmou que pode agir de forma unilateral no continente caso considere necessário. A declaração foi feita pelo secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, durante a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, realizada na última quinta-feira (5), em Doral, na Flórida.
Segundo Hegseth, Washington está preparado para enfrentar organizações criminosas mesmo sem apoio internacional, embora a preferência do governo seja atuar em cooperação com países aliados.
“Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência é que façamos isso juntos, com nossos vizinhos e aliados”, afirmou.
O secretário também afirmou que a coalizão criada na conferência segue a lógica da política externa associada à Doutrina Monroe, estratégia que defende a predominância dos Estados Unidos nas Américas e que foi reafirmada na Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro pelo governo norte-americano.
Especialista vê ameaça à soberania
Para o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra e pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Ronaldo Carmona, a declaração representa uma ameaça significativa à soberania dos países da região.
Segundo ele, a evocação da Doutrina Monroe indica uma tentativa de limitar a presença de potências externas no continente e ampliar a influência estratégica de Washington.
“É uma ameaça gravíssima, pois sob o governo Trump essas declarações costumam se materializar. Ao evocar a Doutrina Monroe, propõe-se expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, o que representa uma ameaça à liberdade de ação dos países latino-americanos”, avaliou.
O especialista acrescentou que os Estados Unidos procuram transferir para a América Latina a responsabilidade pelo fluxo de drogas em seu território, o que poderia servir de justificativa para intervenções na região.
Conferência ocorreu no Comando Sul
A conferência foi realizada na sede do Comando Sul dos Estados Unidos, responsável pelas operações militares e de segurança relacionadas à América Latina e ao Caribe.
Participaram representantes da Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai e Peru, além de países da América Central e do Caribe, como Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago.
Segundo o Ministério da Defesa da Argentina, além de uma declaração conjunta — cujo conteúdo não foi divulgado — também foram assinados acordos bilaterais com os Estados Unidos para adaptar o marco jurídico de cada país às ações previstas na cooperação.
México e Brasil defendem respeito à soberania
Os governos do México e do Brasil têm defendido que o combate ao narcotráfico seja feito com cooperação internacional, mas sem violar a soberania nacional dos países latino-americanos.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a parceria com Washington deve ocorrer “com coordenação e sem subordinação”.
Já o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu o tema do combate ao narcotráfico na agenda de negociações com o governo do presidente Donald Trump.
Segundo Carmona, o Brasil historicamente separa ações de segurança pública — voltadas ao combate ao crime organizado — das atividades de defesa nacional, ligadas à proteção da soberania territorial. Para ele, os Estados Unidos tentam militarizar o enfrentamento ao tráfico de drogas na região.
Reações na América Latina
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também reagiu às declarações do secretário norte-americano, defendendo uma cooperação regional no enfrentamento ao narcotráfico.
Segundo Petro, os Estados Unidos não precisam agir sozinhos e a luta contra os cartéis deve ser conduzida de forma conjunta pelos países da América Latina.
“Se alguém está interessado em destruir os cartéis, são a Colômbia e a América Latina, onde milhões de pessoas foram assassinadas e onde a democracia foi afetada em regiões sob o terror do narcotráfico”, afirmou.
Acordos militares na região
Alguns países da região têm intensificado a cooperação com Washington na área de segurança.
No Paraguai, o Senado aprovou recentemente um acordo que permite a presença de militares norte-americanos no país, com imunidade penal para operações, medida que ainda precisa ser analisada pela Câmara dos Deputados.
Já o Equador anunciou a realização de operações militares conjuntas com os Estados Unidos para combater cartéis de drogas.
Em 2025, o presidente equatoriano Daniel Noboa tentou aprovar, por meio de referendo, a instalação de bases militares estrangeiras no país, mas a proposta foi rejeitada por cerca de 60% dos eleitores.
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