O mercado brasileiro de bioinsumos vem ganhando espaço na agricultura e apresentou forte expansão nos últimos anos. Segundo dados da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII-Bio), o setor movimentou aproximadamente R$ 7 bilhões em 2025 e pode alcançar quase R$ 10 bilhões até 2030, o que representaria crescimento estimado de cerca de 46%.
Além do impacto econômico, a utilização dessas tecnologias também apresenta reflexos ambientais. De acordo com cálculos da Embrapa, o emprego de bioinsumos no país proporcionou uma economia estimada em US$ 28 bilhões e evitou a emissão de aproximadamente 280 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2025.
Os números foram apresentados durante a abertura da XXII Reunião da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologias de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (Relare), realizada nesta quarta-feira (19), em Curitiba (PR). O encontro segue até quinta-feira (20), no Centro de Eventos Sistema FIEP.
A Relare reúne cerca de 250 participantes, entre pesquisadores, representantes da comunidade acadêmica, órgãos de fiscalização e integrantes da indústria. Entre os assuntos discutidos estão o uso de microrganismos benéficos na agricultura, métodos para avaliar a qualidade dos produtos, validação de novas tecnologias, regulamentação e tendências do mercado.
A Embrapa participa das discussões e destaca a importância da pesquisa científica para o desenvolvimento e a expansão dos bioinsumos no país.
Para a pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa, a rede teve papel importante na consolidação dos inoculantes agrícolas no Brasil, especialmente na elaboração de protocolos utilizados pelo Ministério da Agricultura em processos relacionados ao registro desses produtos.
O desenvolvimento da fixação biológica de nitrogênio na soja é apontado como um dos principais exemplos dessa trajetória. Pesquisas realizadas ao longo do século passado permitiram identificar e selecionar microrganismos que posteriormente passaram a ser utilizados na fabricação de inoculantes comerciais.
Com a expansão da produção de soja para o Cerrado, novas pesquisas possibilitaram adaptar os microrganismos às diferentes condições de solo e clima encontradas nas regiões produtoras.
A fixação biológica de nitrogênio é uma das tecnologias de maior alcance entre os bioinsumos utilizados no Brasil. Na soja, bactérias associadas às raízes conseguem disponibilizar nitrogênio para a planta, reduzindo a necessidade de aplicação de fertilizantes nitrogenados industriais.
Segundo os dados apresentados durante o evento, aproximadamente 85% da área cultivada com soja no país utiliza essa tecnologia a cada safra.
A aplicação dos inoculantes também pode trazer ganhos de produtividade. De acordo com a pesquisadora Mariangela Hungria, mesmo em áreas onde os microrganismos já estão presentes naturalmente no solo, a aplicação anual pode proporcionar aumento médio de produtividade estimado entre 8% e 16% na cultura da soja.
A tecnologia também vem sendo utilizada em outras culturas, como milho, trigo, arroz, cana-de-açúcar e pastagens, com o objetivo de melhorar o aproveitamento de nutrientes e aumentar a eficiência da produção.
No caso das gramíneas, o mercado de inoculantes já ultrapassa 40 milhões de doses comercializadas por ano.
Embora esses produtos não substituam completamente os fertilizantes nitrogenados utilizados no milho, podem contribuir para aumentar a eficiência no aproveitamento dos nutrientes. Em determinadas condições, segundo a Embrapa, a tecnologia pode permitir uma redução de até 25% na adubação nitrogenada de cobertura.
Os resultados econômicos também estão relacionados à redução da necessidade de determinados insumos químicos, especialmente no cultivo da soja. A estimativa apresentada pela Embrapa aponta economia de aproximadamente US$ 28 bilhões na última safra.
No aspecto ambiental, a redução estimada de 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente representa uma contribuição relevante para diminuir as emissões associadas à produção agrícola.
Com o crescimento do setor, a regulamentação dos bioinsumos também está entre os principais desafios discutidos por pesquisadores e representantes da indústria.
Durante a Relare, especialistas destacaram a necessidade de aperfeiçoar critérios relacionados à análise de risco, qualidade, identidade, rastreabilidade e segurança dos produtos.
A diretora da CropLife Brasil, Amália Borsari, afirmou que as normas precisam acompanhar os avanços científicos e considerar as características específicas dos diferentes microrganismos e suas aplicações.
A discussão também envolve a expansão internacional dos produtos desenvolvidos no Brasil, com atenção a requisitos regulatórios de outros mercados.
No Paraná, a agenda de bioinsumos é tratada como uma área estratégica para a ciência, tecnologia e inovação. Segundo Márcio Spinosa, diretor da Fundação Araucária, o objetivo é fortalecer toda a cadeia, desde a pesquisa científica até a transformação dos resultados em produtos e serviços.
A iniciativa também busca ampliar a cooperação entre instituições de pesquisa do Paraná e outros países, criando oportunidades para transferência de conhecimento e desenvolvimento tecnológico.
A programação da XXII Relare inclui discussões sobre regulamentação, metodologias de análise, controle de qualidade, ensaios interlaboratoriais, padronização, proteção intelectual, novos agentes de biocontrole e segurança sanitária.
Para os organizadores, a integração entre pesquisadores, empresas e órgãos reguladores é necessária para acompanhar a evolução do mercado e garantir que novas tecnologias cheguem ao produtor com segurança e qualidade.
A XXII Relare é promovida pela Embrapa em parceria com a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII-Bio) e a CropLife Brasil, com apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia MicroAgro (INCT MicroAgro) e da Fundação Araucária.
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