A crise da Apex Partners pode ter começado muito antes das operações envolvendo a compra de ações da CVC e precisa ser investigada desde os primeiros investimentos realizados pela plataforma. A avaliação é do economista Aurélio Valporto, presidente da Associação Brasileira de Investidores (Abradin), em entrevista ao programa Direto da Redação.
No áudio, que exibido na edição desta terça-feira (8), Valporto faz uma análise contundente sobre o caso que abalou o mercado financeiro capixaba. Com quase 40 anos de experiência no setor, ele afirma enxergar características semelhantes às de um esquema Ponzi, modelo no qual os recursos captados de novos investidores são usados para pagar compromissos anteriores.
“A nossa análise do caso Apex é que ele se degenerou em um esquema Ponzi. Pode até não ter sido desde o início, mas, no final, com certeza estava tomando recursos para pagar saques. Toma de um para cobrir o buraco do outro, e essa é a característica principal de um esquema Ponzi”, declara Valporto.
A afirmação representa a análise pessoal do presidente da Abradin. Até o momento, não existe decisão definitiva da Justiça ou dos órgãos reguladores classificando as operações da Apex como um esquema Ponzi ou reconhecendo a prática de fraude.
Para Valporto, a compra de ações da CVC, acompanhada de promessas de proteção contra eventuais perdas, não teria sido a origem do problema. Na avaliação dele, essa operação pode ter ocorrido quando a situação financeira da Apex já estava comprometida.
“Os investimentos na CVC, prometendo que não haveria perda em caso de queda das ações, me parecem um desespero final para captar recursos, e não a causa da derrocada da Apex”, afirma.
O economista defende que as apurações não se concentrem apenas nos acontecimentos mais recentes. Segundo ele, é necessário verificar os investimentos anteriores, a existência efetiva dos ativos e os valores atribuídos às empresas e aos projetos financiados pelo grupo.
“O que precisa ser investigado são os investimentos anteriores. É necessário auditar se esses investimentos de fato existem e se houve desvio de caixa desde aquela época”, diz Valporto.
Como funciona um esquema Ponzi
O esquema Ponzi é uma fraude financeira na qual os recursos entregues por novos investidores são usados para pagar os rendimentos ou resgates de quem entrou antes. Em vez de gerar lucro com uma atividade econômica real, o sistema depende da entrada contínua de dinheiro.
Enquanto novas aplicações chegam, os responsáveis conseguem manter a aparência de normalidade e até apresentar pagamentos como se fossem resultado dos investimentos prometidos. O problema aparece quando aumentam os pedidos de resgate ou diminui a entrada de novos participantes. Sem dinheiro suficiente, o sistema entra em colapso.
O nome faz referência a Charles Ponzi, que ficou conhecido por aplicar esse tipo de golpe nos Estados Unidos no início do século XX. Normalmente, esses esquemas atraem investidores com promessas de retorno elevado, baixo risco ou garantia contra perdas.
O modelo é diferente de uma pirâmide financeira tradicional. Na pirâmide, os participantes costumam ser incentivados a recrutar novas pessoas. No esquema Ponzi, a captação pode ser centralizada por uma empresa ou operador, sem que os investidores saibam que o pagamento depende dos recursos de outros clientes.
No caso da Apex Partners, a comparação foi feita por Aurélio Valporto como uma avaliação técnica baseada nas informações conhecidas até agora. Não há, até o momento, decisão definitiva da Justiça ou dos órgãos reguladores classificando as operações da empresa como esquema Ponzi.
Passivo próximo de R$ 1 bilhão
A crise veio a público no início de agosto, quando a Apex anunciou o afastamento do cofundador e então presidente, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e do diretor financeiro Eduardo Siqueira. A medida foi tomada depois que uma apuração interna identificou o que a companhia classificou como “inconsistências financeiras”.
Documentos apresentados à Justiça indicaram um passivo bruto preliminar de R$ 985,6 milhões. A dívida líquida teria avançado de R$ 413 milhões, em janeiro de 2025, para aproximadamente R$ 975 milhões em junho de 2026.
Parte das obrigações, estimada em R$ 309,8 milhões, estaria relacionada a operações estruturadas com ações da CVC. A companhia de turismo, no entanto, não é apontada como responsável pela crise financeira da Apex.
Esse também é o entendimento apresentado por Valporto na entrevista. Segundo ele, a CVC teria sido usada como parte de uma estratégia financeira da Apex, mas não teria participação nas decisões internas que levaram ao desequilíbrio do grupo.
“As ações da CVC, que aparentemente não têm absolutamente nada a ver com essa história, despencaram, e aí veio a derrocada final”, avalia.
Disputa chegou à Justiça
A Apex está sob proteção judicial temporária enquanto tenta reorganizar suas contas e negociar com os credores. A empresa anunciou uma auditoria externa para aprofundar a análise das movimentações financeiras e identificar eventuais responsabilidades.
Em outro processo, a Justiça determinou o bloqueio inicial de até R$ 5 milhões em bens de Fernando Cinelli e autorizou a quebra de seu sigilo bancário. Posteriormente, a Apex pediu que a indisponibilidade patrimonial fosse ampliada para R$ 23,25 milhões, com base em 298 lançamentos financeiros que, segundo a atual administração, não teriam contrato, justificativa contábil ou autorização interna.
O pedido de ampliação ainda depende de decisão judicial. Cinelli nega ter desviado ou se apropriado de recursos. A defesa afirma que as movimentações tinham justificativas econômicas, estavam ligadas às operações do grupo e não eram decididas individualmente pelo ex-presidente.
Os advogados também questionam os cálculos apresentados pela Apex e alegam que a companhia ainda não juntou ao processo o resultado da auditoria externa independente anunciada no início da crise.
O Ministério Público do Espírito Santo acompanha o processo empresarial. Em manifestação oficial, o órgão ressaltou que ainda não é possível antecipar conclusões sobre a situação financeira das empresas nem sobre a responsabilidade das pessoas envolvidas.
Entrevista vai ao ar nesta terça-feira
A análise completa de Aurélio Valporto, exibida nesta terça-feira (8), aprofunda as suspeitas levantadas pelo economista, explica o funcionamento de um esquema Ponzi e aponta quais movimentações deveriam ser examinadas pelas autoridades e pela auditoria.
O programa é apresentado pelos jornalistas Roberto Barbosa e Fabrício Cabral, diretamente do estúdio VIU!, com transmissão ao vivo pelo YouTube. A edição também pode ser acompanhada pelo aplicativo Canal VIU!, disponível gratuitamente para os sistemas Android e iOS.
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