A popularização das apostas online acendeu um alerta de saúde pública no Brasil. Antes restritas a determinados ambientes, as chamadas bets passaram a ocupar redes sociais, transmissões esportivas, anúncios digitais, influenciadores e programas de televisão. Com a exposição crescente, também aumentou o número de pessoas que relatam perda de controle diante dos jogos e buscam ajuda no Sistema Único de Saúde.
Dados do Ministério da Saúde mostram que o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas em 2025. O avanço acompanha uma tendência observada nos últimos anos: a procura por atendimento para transtornos associados ao uso problemático de jogos e apostas cresceu de forma expressiva na Rede de Atenção Psicossocial. O levantamento citado na reportagem aponta que os atendimentos passaram de 305, em 2018, para mais de 5 mil em 2025, um salto de quase 20 vezes. (gov.br)
Especialistas alertam que o vício em apostas pode começar de forma aparentemente inofensiva. Muitas pessoas iniciam com valores baixos, como R$ 10 ou R$ 20, mas passam gradualmente a apostar quantias maiores. Além do aumento do valor, também cresce a frequência: de apostas ocasionais para acessos semanais, diários e, em casos mais graves, várias vezes ao dia.
A perda de controle é um dos principais sinais de alerta. A pessoa tenta parar, mas não consegue; aposta para recuperar prejuízos; esconde perdas da família; compromete renda, trabalho e relações pessoais; e continua jogando mesmo diante de consequências negativas. Em muitos casos, o comportamento vem acompanhado de ansiedade, depressão, endividamento, conflitos familiares e risco de agravamento do sofrimento psíquico.
Para enfrentar o problema, o Ministério da Saúde iniciou, em março de 2026, um serviço gratuito de teleatendimento em saúde mental pelo SUS para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. A iniciativa é realizada em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, por meio do Proadi-SUS, e pode ser acessada pelo aplicativo Meu SUS Digital. O atendimento é voltado a pessoas com 18 anos ou mais, familiares e rede de apoio.
A proposta é facilitar o acesso ao cuidado, especialmente porque muitas pessoas têm vergonha de procurar ajuda presencialmente ou demoram a reconhecer que estão enfrentando um transtorno. Segundo o Ministério da Saúde, a expectativa inicial era atender centenas de pacientes por mês, com possibilidade de ampliação conforme a demanda.
O atendimento busca avaliar o grau de risco, orientar a pessoa e indicar o caminho de cuidado mais adequado. Dependendo do caso, o paciente pode ser encaminhado para grupos terapêuticos, atendimento individual, unidades básicas de saúde, Centros de Atenção Psicossocial ou outros pontos da rede pública.
Outra medida anunciada pelo governo é a plataforma centralizada de autoexclusão. Por meio desse sistema, a pessoa pode solicitar o bloqueio de acesso às contas mantidas em sites de apostas. A ferramenta também prevê restrição a novos cadastros e bloqueio de publicidade direcionada das empresas do setor, reduzindo os estímulos para quem tenta interromper o comportamento compulsivo.
Na avaliação de profissionais da saúde mental, a dependência em apostas online tem características semelhantes a outros transtornos de impulso e dependências comportamentais. Assim como ocorre com substâncias, a exposição constante ao estímulo pode provocar recaídas e dificultar o tratamento. Para pessoas que já desenvolveram o transtorno, não há exposição considerada segura às apostas.
A capacitação dos profissionais da rede pública também entrou na agenda. A Fiocruz Brasília oferece curso gratuito, a distância, com carga horária de 45 horas, voltado à qualificação de trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial e da Atenção Primária. A formação busca preparar equipes para identificar comportamentos de risco, acolher famílias, construir projetos terapêuticos e atuar de forma integrada no território.
O crescimento dos atendimentos mostra que o tema ultrapassou o campo do entretenimento e passou a exigir respostas de saúde pública, regulação, educação digital e proteção social. Com anúncios cada vez mais presentes e acesso facilitado pelo celular, especialistas defendem ações permanentes de prevenção, especialmente entre jovens adultos, trabalhadores endividados e pessoas em situação de vulnerabilidade emocional ou financeira.
Para quem percebe perda de controle, a orientação é procurar ajuda o quanto antes. O SUS oferece apoio por meio das Unidades Básicas de Saúde, dos Centros de Atenção Psicossocial e do teleatendimento pelo Meu SUS Digital. Familiares e amigos também podem buscar orientação para entender como apoiar a pessoa em sofrimento sem reforçar o ciclo de endividamento e dependência.
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