O Bloco Mulheres Rodadas voltou a transformar o Carnaval do Rio de Janeiro em espaço de reflexão sobre a violência contra a mulher. O desfile ocorreu nesta quarta-feira (18), pelas ruas do Flamengo, na zona sul da cidade, com homenagens à farmacêutica Maria da Penha Fernandes, símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil.
Entre as fantasias, referências à história que deu origem à Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em 2026. A artista e produtora cultural Luciana Peres, de 46 anos, desfilou como pernalta e acrobata usando pintura corporal e adereços que simbolizavam as tentativas de assassinato sofridas por Maria da Penha em 1983.
“Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres”, afirmou Luciana, ao lembrar que, apesar dos avanços legais, o Brasil segue registrando altos índices de feminicídio.
Segundo dados do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o país contabilizou 1.518 vítimas de feminicídio em 2025. Para as integrantes do bloco, o número reforça a urgência de políticas públicas efetivas de prevenção e proteção.
Carnaval como espaço de denúncia e resistência
Desde 2015, o Mulheres Rodadas aborda temas como assédio, violência doméstica, feminicídio e transfobia por meio de fantasias, placas e performances. Ao som de Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, as pernaltas encenam situações de violência simbólica, denunciando também a transfobia — problema que coloca o Brasil entre os países com maiores índices de assassinatos de pessoas trans.
Durante o desfile, performances que mostram mulheres se ajudando a levantar do chão representam a solidariedade feminina e a importância da união diante da violência.
Repertório valoriza vozes femininas
A regente e coordenadora de percussão do bloco, Simone Ferreira, explica que o repertório musical é escolhido com cuidado para reforçar a mensagem do desfile. A lista prioriza compositoras, intérpretes mulheres ou canções que exaltam a força feminina.
Entre as músicas tocadas estão Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga; Vai, Malandra, de Anitta; Ama Sofre e Chora, de Pabllo Vittar; Tieta, de Luiz Caldas; Vermelho, de Fafá de Belém, além de clássicos internacionais como Toxic, de Britney Spears, e Girls Just Want to Have Fun, de Cyndi Lauper.
Participação internacional e cobrança por apoio
O bloco também atraiu artistas de fora do país. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, homenageou a advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, lembrada por sua atuação na despenalização do aborto na França, em 1975. Ela também citou casos recentes de violência doméstica no país europeu, reforçando que o problema é global.
A coordenadora do bloco, a jornalista Renata Rodrigues, destacou que, mesmo após dez anos de existência, o tema segue atual. Segundo ela, o Mulheres Rodadas é um dos poucos coletivos do Carnaval carioca a tratar diretamente da violência contra a mulher.
Renata também defendeu maior apoio do poder público e da iniciativa privada para ampliar o alcance da mensagem. Para o folião Raul Santiago, que acompanhou o desfile, o enfrentamento do problema exige o compromisso dos homens. “Os homens precisam mudar atitudes, ser antimachistas e defender a igualdade”, afirmou.
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