A lama do manguezal do Rio Capibaribe, em Recife, vai simbolicamente se misturar à do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, durante o desfile da Acadêmicos do Grande Rio no carnaval 2026. A escola apresentará o enredo “A Nação do Mangue”, inspirado no movimento Manguebeat, que revolucionou a cena cultural pernambucana nos anos 1990.
Responsável pelo projeto, o carnavalesco Antônio Gonzaga afirma que há convergências entre o ritmo nordestino e a trajetória da agremiação da Baixada Fluminense, especialmente na capacidade de promover transformação social em seus territórios.
“Tem a ver com o modo da escola de fazer carnaval, com o estilo estético e com o discurso da escola”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Movimento que nasceu da lama e mudou a cultura
O Manguebeat surgiu quando músicos do Recife combinaram guitarras do rock e do reggae com batidas tradicionais como maracatu, coco e ciranda. Bandas como Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi se tornaram referências dessa mistura inovadora.
A lama dos manguezais virou metáfora da criatividade e da resistência das periferias, mostrando que a produção cultural relevante também floresce fora do eixo Rio-São Paulo.
A inspiração para o enredo veio ainda de uma influência familiar. Gonzaga, nascido em 1994, conta que cresceu ouvindo as músicas em casa por causa do pai, o jornalista e escritor Renato Lemos, que também assina a sinopse do desfile.
“Eu sempre gostei de Nação Zumbi. Entendia que seria importante o Manguebeat virar enredo em algum momento”, disse ao programa Sem Censura, da TV Brasil.
Paralelos entre Recife e a Baixada Fluminense
Durante a pesquisa, o carnavalesco identificou semelhanças geográficas e sociais entre Duque de Caxias e a região onde o movimento cultural nasceu — ambas cercadas por áreas de manguezal e marcadas pela potência das periferias.
Para representar esse universo, o desfile contará com seis setores, cinco carros alegóricos e três tripés, além de fantasias que remetem à capital pernambucana e a personagens ligados à história do Manguebeat.
A proposta, segundo a escola, é apresentar um espetáculo colorido e competitivo na busca pelo bicampeonato.
Bateria promete mistura de ritmos
O mestre de bateria Fabrício Machado de Lima, o Mestre Fafá, garante que os 270 ritmistas estão preparados para um arranjo inspirado nas experimentações musicais do movimento.
A apresentação deve trazer referências ao frevo, ao maracatu e às criações rítmicas de Chico Science.
“Pode esperar muita alegria e uma bossa inspirada no trabalho de Chico, um artista que misturava muitos ritmos”, afirmou.
A fantasia da bateria homenageará o bloco afro Lamento Negro, fundado com a participação de Chico Science em Olinda.
Samba reforça identidade periférica
A letra do samba-enredo também dialoga com a vida nas áreas de mangue e com as margens sociais da Baixada Fluminense, reforçando a identificação cultural entre diferentes regiões do país.
Assinam a composição Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins.
A Grande Rio será a penúltima escola a desfilar na terça-feira (17), último dia das apresentações do Grupo Especial do Rio de Janeiro.
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