O menino George, de 10 anos, revirava o lixo em silêncio no Alto do Morro da Conceição, na zona Norte do Recife, em busca de materiais recicláveis para ajudar nas despesas de casa. Quase três décadas depois, George José Mendonça, hoje conhecido como o percussionista Bob Brown, transformou os sons da sobrevivência em música e carreira consolidada.
Garrafas plásticas, caixas de madeira e latas vazias, antes parte da rotina difícil, viraram instrumentos e linguagem artística. A mudança começou com a influência do vizinho e músico Lucas dos Prazeres, criador de projetos sociais no bairro onde nasceu. Foi ele quem apresentou George ainda criança ao Centro Maria da Conceição, espaço comunitário fundado há mais de 40 anos em terreno doado por sua avó.
“Ele pegava as garrafas, colocava areia e pedrinhas, vedava, pintava e aquilo virava instrumento”, relembra Bob. Em 2025, como faz todos os anos, o percussionista esteve no Marco Zero para assistir a Lucas dos Prazeres na 22ª apresentação do Baile do Menino Deus, tradicional auto de Natal pernambucano, que segue em cartaz nos dias 24 e 25.
No espetáculo deste ano, Lucas, de 41 anos, interpreta um anjo inspirado nas tradições do cavalo-marinho e do coco de roda. Filho de artistas do Balé Popular do Recife, ele defende que crianças formadas dentro das tradições culturais desenvolvem cidadania, senso crítico e outro olhar sobre o mundo. “Nasci em um território quilombola, no Quilombo dos Prazeres, e isso moldou quem eu sou”, afirma.
Fora do palco, Lucas coordena o ponto de cultura Negras Raízes e a Orquestra dos Prazeres, que já formou mais de 300 jovens. O objetivo, segundo ele, não é apenas criar músicos, mas cidadãos. Um dos exemplos é o próprio Bob Brown, que já tocou com nomes como Naná Vasconcelos, Elba Ramalho, Lenine e Lula Queiroga. A convivência de 12 anos com Naná, inclusive, ampliou a visibilidade dos projetos comunitários do morro.
Outra expressão artística que ganha força no auto de Natal vem do hip hop. O músico e dançarino Ellan Barreto, o Okado do Canal, de 32 anos, nasceu e cresceu na Favela do Canal, no bairro do Arruda. Criador do projeto Lado Beco, ele promove oficinas de break, audiovisual e consciência ambiental para crianças e adolescentes da comunidade.
Entre os alunos está Wilyane, de 11 anos, que encontrou na dança uma nova forma de expressão. “Eu me sinto uma família com minhas amigas”, diz a estudante, já participante de batalhas de break. O projeto também incentiva o reaproveitamento de materiais: figurinos e cenários dos espetáculos são feitos com recicláveis levados pelas próprias crianças.
O auto de Natal reúne ainda o ator Arilson Lopes, de 51 anos, intérprete do personagem Mateus. Além do palco, ele atua como coordenador artístico dos Doutores da Alegria em Pernambuco, levando palhaçaria a hospitais públicos. “O palhaço no hospital quebra a quarta parede e se conecta diretamente com as crianças”, explica. Para ele, o Natal se tornou sinônimo do Baile do Menino Deus, espetáculo que integra sua vida há 22 anos.
A cantora Sue Araújo completa o elenco. Solista do espetáculo há 12 anos, ela também desenvolve um projeto musical em uma escola pública da comunidade da Mustardinha. Nascida em Jaboatão Velho, Sue vê na educação e na arte caminhos para transformar realidades. “Quero que meus alunos brilhem. Fui a primeira mulher da minha família a me graduar e desejo isso para eles”, afirma.
As histórias desses artistas revelam como a arte, quando nasce e permanece nas periferias, se torna ferramenta de transformação social, preservação da memória e fortalecimento da identidade coletiva.
Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Estado do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram





