No bairro do Coque, uma das regiões mais estigmatizadas do Recife (PE), a música transformou vidas. Foi ali que Callyandra Santos, hoje com 17 anos, trocou a vassoura e o lápis — que usava para imaginar um violoncelo — pelo verdadeiro instrumento que a levaria ao mundo. Integrante da Orquestra Criança Cidadã, projeto social criado em 2006, ela foi uma das 11 jovens selecionadas para uma turnê internacional chamada “Concerto pela Paz”, ao lado de músicos de países marcados por guerras e conflitos.
A turnê terá apresentações em Seul (Coreia do Sul), Hiroshima e Osaka (Japão), Roma (Itália) e culminará com um concerto no Vaticano, diante do Papa Francisco. A iniciativa reunirá jovens israelenses e palestinos, russos e ucranianos, norte-coreanos e sul-coreanos, mostrando como a música pode unir povos em desarmonia.
A história de Callyandra é também a da sua família. Filha de Sara Coutinho, mãe solo que trabalha madrugadas em uma fábrica de refrigerantes, a jovem cresceu vendo no primo Davi Andrade sua maior inspiração. Ele entrou na orquestra aos 7 anos, formou-se em música pela UFPE e hoje é professor. Davi também participará da turnê, levando no arco do violoncelo as lembranças de amigos perdidos para a violência no Coque.
“A orquestra ensina mais do que música. Ensina cidadania”, resume Davi.
Ao longo de 19 anos, a Orquestra Criança Cidadã já transformou a realidade de mais de mil jovens. Hoje, são 400 alunos atendidos em três núcleos — Recife, Igarassu e Ipojuca — aprendendo música, disciplina e valores que ultrapassam as partituras.
Nomes como o contrabaixista Antonino Tertuliano, também do Coque e atualmente integrante da Niederbayerische Philharmonie Orchester, na Alemanha, provam a força do projeto. Ele, que começou sem saber nada de música, tornou-se referência internacional e agora ajuda a organizar eventos fora do Brasil.
Para o maestro José Renato Accioly, que conduz a orquestra, a experiência é única:
“São músicos de altíssimo nível. Independentemente de seguirem carreira, jamais esquecerão dessa oportunidade.”
Com repertório que vai do frevo às obras de Bach e Dvorák, a orquestra prova que a arte é ponte de transformação social. Para Callyandra, cada nota é também uma homenagem à mãe e à avó, vítima da Covid-19 em 2020:
“Quero mostrar para elas que nada foi em vão.”
Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Estado do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram


