A Beija-Flor de Nilópolis promete transformar o Sambódromo do Rio de Janeiro em um grande palco de celebração à ancestralidade negra ao apresentar o enredo “Bembé do Mercado” no Carnaval de 2026. Inspirada na tradicional manifestação cultural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, a escola reforça a ideia de ocupação como forma histórica de resistência e autorreparação do povo negro.
O carnavalesco João Vitor Araújo destacou que a proposta mantém a tradição da azul e branca de contar histórias marcantes ligadas à memória e à identidade afro-brasileira. Após conquistar o título no último ano com uma homenagem ao carnavalesco Laíla, a agremiação buscou permanecer conectada às suas raízes.
Segundo Araújo, o objetivo foi dar continuidade ao diálogo com os ancestrais e explorar narrativas que ficaram por muito tempo invisibilizadas. Para ele, enredos autorais permitem revelar “Brasis que o Brasil não conhece”, ampliando o olhar do público sobre personagens e culturas fundamentais para a formação do país.
Celebração nascida após a abolição
Realizado desde 1889, sempre em 13 de maio, o Bembé do Mercado surgiu como uma celebração de rua promovida por casas de candomblé um ano após a abolição da escravatura. A festa denuncia a liberdade incompleta deixada pela Lei Áurea e afirma o direito de manifestação por meio da religião, da música, da dança e da culinária afro.
A tradição começou com o babalorixá João de Obá, enfrentando perseguições religiosas ao longo dos anos, e segue viva atualmente sob a liderança de Pai Pote. A associação reúne 65 terreiros, além de contar com a participação de cerca de outros 100 na manifestação.
Pai Pote comemorou a escolha do tema e ressaltou a identificação entre a escola e a comunidade do Bembé. Para ele, o desfile valoriza não apenas a celebração baiana, mas todos os terreiros e o povo negro.
O enredo será dividido em seis setores — cada um representando um dia de festa — e terá como elementos de abertura e encerramento a cor branca e a água, símbolos de equilíbrio e espiritualidade.
Enredo com autorização espiritual
A escolha do tema envolveu também um processo religioso. De acordo com o carnavalesco, a setorização foi autorizada por meio de um jogo de búzios realizado por Pai Pote.
Araújo explicou que a escola pediu licença às lideranças culturais para “carnavalizar” os símbolos sagrados sem desrespeito ou clichês, tarefa que considera desafiadora diante da seriedade do tema.
Comunidade engajada e samba elogiado
Outro ponto celebrado pela direção é a forte aceitação do enredo entre os componentes. Para o carnavalesco, são eles que dão vida à sinopse na avenida e sustentam a narrativa durante o desfile.
O samba-enredo também tem gerado expectativas positivas. Araújo afirmou que até quem não torce pela escola reconheceu a qualidade da obra, composta por 12 autores.
Nova fase sem Neguinho da Beija-Flor
Após cinco décadas como voz oficial da agremiação, Neguinho da Beija-Flor se despediu dos desfiles no ano passado. Em 2026, a escola contará com os intérpretes Nino Milênio e Jéssica Martin.
Nino descreveu a função como uma grande responsabilidade e uma honra, reconhecendo o peso de suceder um nome histórico. Já Jéssica classificou o momento como “mágico”, ressaltando o respeito com que o enredo será levado à avenida.
Ordem dos desfiles do Grupo Especial
Domingo (15/2):
Acadêmicos de Niterói; Imperatriz Leopoldinense; Portela; Estação Primeira de Mangueira.
Segunda-feira (16/2):
Mocidade Independente de Padre Miguel; Beija-Flor de Nilópolis; Unidos do Viradouro; Unidos da Tijuca.
Terça-feira (17/2):
Paraíso do Tuiuti; Unidos de Vila Isabel; Acadêmicos do Grande Rio; Acadêmicos do Salgueiro.
Com um enredo que mistura religiosidade, história e resistência cultural, a Beija-Flor aposta na força da ancestralidade para emocionar o público e buscar mais um título na Marquês de Sapucaí.
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