Os ateliês terapêuticos idealizados pela médica psiquiatra Nise da Silveira completam 80 anos neste 18 de maio, consolidando-se como uma das experiências mais revolucionárias da história da psiquiatria brasileira. Criados em 1946, no Rio de Janeiro, os espaços propuseram uma mudança profunda no cuidado em saúde mental ao substituir práticas agressivas, como eletrochoques, isolamento e lobotomia, por atividades artísticas e acolhimento humanizado.
Atualmente, os ateliês funcionam no Museu de Imagens do Inconsciente, localizado no bairro Engenho de Dentro, na zona norte carioca. O espaço abriga o maior acervo do mundo voltado à arte produzida em contextos terapêuticos, reunindo mais de 400 mil obras, das quais 128 mil são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Nascida em Maceió, em 1905, Nise da Silveira transformou a psiquiatria brasileira ao defender uma abordagem baseada na escuta, na criatividade e na dignidade humana. A médica morreu em 1999, no Rio de Janeiro, deixando um legado que segue influenciando profissionais da saúde mental em diferentes países.
Os ateliês continuam em atividade e hoje atendem pessoas encaminhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente usuários da rede de saúde mental. Atualmente, cerca de 55 participantes frequentam os espaços terapêuticos.
Segundo a psicóloga Adriana Lemos, coordenadora dos ateliês do museu, os resultados observados vão além do tratamento clínico. Entre os frequentadores, há pacientes que ingressaram recentemente em universidades públicas, fortalecendo vínculos familiares e ampliando a participação social.
As atividades oferecidas incluem pintura, cerâmica, teatro, corpo e movimento, ritmologia, atividades plásticas e rodas de conversa voltadas para mulheres. Dentro da metodologia criada por Nise, os participantes são chamados de “clientes”, termo utilizado pela psiquiatra para reforçar o protagonismo das pessoas em tratamento.
A proposta terapêutica valoriza a livre expressão e a escolha individual das atividades. O objetivo é criar caminhos para que emoções, sofrimentos e experiências internas possam ser elaborados por meio da arte.
O modelo desenvolvido por Nise da Silveira ultrapassou os limites do museu e inspirou iniciativas em outras instituições de saúde mental no Brasil. No Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, por exemplo, ateliês terapêuticos seguem a mesma filosofia, estimulando o protagonismo e a criatividade dos pacientes.
Um dos nomes ligados à trajetória da médica é o psiquiatra Lula Wanderley, que trabalhou ao lado de Nise na Casa das Palmeiras, instituição criada por ela para reabilitação psiquiátrica em regime aberto.
Para marcar os 80 anos dos ateliês terapêuticos, o Museu de Imagens do Inconsciente preparou uma programação especial ao longo de 2026, com atividades gratuitas abertas ao público. As ações fazem parte da 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus.
Entre os destaques estão fóruns científicos, exposições, exibição de documentários, abertura dos ateliês para participação popular e iniciativas voltadas à internacionalização da obra de Nise da Silveira, incluindo publicações em inglês, francês e espanhol.
O museu também trabalha na criação de uma rede internacional de intercâmbio entre instituições interessadas em aplicar os princípios terapêuticos desenvolvidos pela psiquiatra brasileira.
A celebração dos 80 anos dos ateliês coincide com datas simbólicas da luta antimanicomial no Brasil: o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, em 18 de maio, e o aniversário de fundação do Museu de Imagens do Inconsciente, em 20 de maio.
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