Quem vê milhares de foliões ocupando a Avenida Beira-Mar durante o Carnaval, com vista privilegiada para a Baía de Vitória, dificilmente imagina que aquela área já foi totalmente tomada pelo mar. No entanto, até meados do século XX, a água chegava aos fundos do antigo Theatro Glória, havia cais atrás do Mercado da Capixaba e uma pequena praia próxima à antiga Capitania dos Portos, hoje a Casa Porto das Artes.
Atualmente, a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, principal eixo da Beira-Mar, tornou-se o grande corredor da folia no Carnaval oficial. Já as avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel, também históricas nos desfiles e cortejos, passaram a cumprir papel estratégico no plano de circulação viária da região central de Vitória.
Essas vias integram a Esplanada Capixaba, um dos maiores projetos de aterro urbano da história da capital. Concluído em 1955, o empreendimento criou cerca de 96 mil metros quadrados de novas áreas edificáveis no coração da cidade, moldando definitivamente o desenho do Centro e abrindo caminho para a modernização urbana sonhada desde o início do século XX.
A cidade que avançou sobre o mar
Vitória sempre cresceu limitada pelos morros e pelas marés. As áreas baixas sofriam constantes alagamentos e o relevo restringia a expansão urbana. Diante disso, os aterros tornaram-se a principal solução adotada por diferentes governos para sanear áreas, abrir vias e ampliar o território.
Ainda no fim do século XIX, pequenos aterros começaram a ser executados. A prática se intensificou no início do século XX, impulsionada pela expansão do porto, pela economia e por demandas de saúde pública. Nos anos 1920, durante a gestão de Florentino Avidos, o avanço sobre o mar tornou-se mais visível com a construção do Mercado da Capixaba, marco simbólico de que a cidade começava a ganhar novas terras.
O urbanismo moderno dos anos 1950
O discurso modernizador ganhou força definitiva na década de 1950, quando o então governador Jones dos Santos Neves lançou o Plano de Valorização Econômica. A proposta previa a conquista de novas áreas para o crescimento da capital, redesenhando o sistema portuário e criando uma grande área contínua ao Centro comercial.
Relatórios da época descrevem que cerca de 96 mil metros quadrados foram tomados ao mar com areia proveniente da drenagem de canais e do desmonte de morros vizinhos. Assim nasceu a Esplanada Capixaba, planejada com quadras amplas, regulares e alinhadas à malha urbana existente.
Inspirado em referências internacionais do urbanismo moderno, como Alfred Agache e Le Corbusier, o projeto previa edifícios mais altos, calçadas largas e praças abertas para a baía. O Código Municipal de 1954 instituiu o Bairro Comercial Especial (BCE) da Enseada Capixaba, consolidando a área como vitrine da modernidade urbana capixaba.
Da modernização à folia
Com o passar das décadas, o projeto original sofreu adaptações. Houve mudanças em praças, vias e gabaritos, mas a essência permaneceu: um grande campo visual aberto, conectando o Centro histórico à baía.
Durante muito tempo, o Carnaval de rua de Vitória concentrou-se na Avenida Jerônimo Monteiro e na Praça Oito. Após a pandemia da Covid-19, o circuito migrou para a Avenida Beira-Mar, que desde 2023 vem se consolidando como a principal passarela da folia, graças à largura, ventilação natural e facilidade de circulação.
Os idealizadores da Esplanada Capixaba jamais imaginaram que o antigo Bairro Comercial Especial se transformaria, décadas depois, na grande passarela do samba à beira-mar. Ainda assim, o urbanismo pensado nos anos 1950 acabou oferecendo, no século XXI, o cenário perfeito para milhares de foliões dançarem literalmente sobre o espaço que um dia foi mar.
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