A maior parte da costa do estado do Rio de Janeiro está sujeita aos impactos das mudanças climáticas, como inundações e erosão provocadas pela ação das ondas. A conclusão é de um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF), que aponta que cerca de 60% do litoral fluminense apresenta vulnerabilidade média ou elevada.
A pesquisa foi desenvolvida pelo doutorando Igor Rodrigues Henud, do Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra, sob orientação do professor Abílio Soares. Segundo o pesquisador, a adoção de soluções baseadas na natureza pode ser uma estratégia eficaz e sustentável para reduzir os impactos climáticos nas áreas costeiras.
“O objetivo foi mostrar que existem regiões e populações vulneráveis. A vegetação e os habitats naturais, como dunas, restingas, manguezais e a Mata Atlântica, ainda exercem uma influência positiva nessa proteção e, por isso, precisam ser preservados”, afirmou Henud à Agência Brasil.
Soluções baseadas na natureza
O estudo defende a implementação das chamadas soluções baseadas na natureza (NbS, na sigla em inglês), que incluem a restauração de ecossistemas, o manejo adaptativo do território e a ampliação de áreas protegidas. Além de reduzir riscos ambientais, essas estratégias oferecem benefícios adicionais, como melhoria da qualidade da água, redução de poluentes atmosféricos e aumento da resiliência frente a desastres naturais.
De acordo com Henud, essas soluções são ecologicamente sensíveis, economicamente viáveis e sustentáveis no longo prazo, diferentemente das infraestruturas convencionais, conhecidas como “soluções cinzas”.
Os pesquisadores também defendem a proteção de habitats costeiros considerados estratégicos, mesmo aqueles que ainda não estão oficialmente incluídos em políticas de preservação ambiental, por seu papel fundamental no aumento da resiliência climática.
Regiões mais vulneráveis
A pesquisa levou em consideração impactos já observados no litoral fluminense, como o aumento da frequência de ressacas, tempestades mais intensas e a elevação do nível do mar. Segundo o levantamento, as regiões mais suscetíveis aos efeitos das mudanças climáticas são o Norte Fluminense e as Baixadas Litorâneas, conhecidas como Região dos Lagos.
Nessas áreas, fatores naturais como ventos, ondas e relevo se somam à fragmentação de habitats costeiros — especialmente pela retirada de restingas e manguezais —, ampliando significativamente o nível de risco ambiental.
Metodologia
Os pesquisadores utilizaram uma metodologia desenvolvida por uma universidade dos Estados Unidos, que combina variáveis ambientais e socioeconômicas. Foram analisados dados da Marinha sobre ventos e ondas, informações globais de profundidade dos oceanos, dados da plataforma continental e da cobertura vegetal.
Essas informações foram inseridas no software InVEST, que simula processos naturais e permite avaliar os impactos ambientais futuros. Os resultados indicam que a supressão contínua de habitats naturais intensifica os riscos e amplia a exposição do estado a desastres de maior magnitude.
“Quando falamos de restingas, manguezais e Mata Atlântica, essa vegetação próxima à praia funciona como uma barreira natural. As ondas perdem força ao atingir essas áreas, gerando proteção”, explicou Henud.
Pressões sobre o litoral
Com aproximadamente 1.160 quilômetros de extensão, a zona costeira do Rio de Janeiro abrange 33 municípios e concentra cerca de 83% da população do estado. Trata-se de uma região estratégica para o desenvolvimento econômico, mas também extremamente sensível do ponto de vista ambiental.
A área sofre pressão crescente da urbanização desordenada, do turismo de massa e da exploração econômica intensiva, fatores que aceleram a degradação ambiental e reduzem a capacidade de resposta a eventos climáticos extremos.
Segundo os pesquisadores, embora não seja possível alterar características naturais como a força das ondas ou o relevo, é possível planejar melhor a ocupação do território e proteger áreas naturais para reduzir a exposição das populações mais vulneráveis.
Soluções cinzas e verdes
Henud explica que existem diferentes abordagens para mitigar os impactos das mudanças climáticas. As chamadas soluções cinzas envolvem obras de engenharia, como muros de concreto, enrocamentos de pedras, sacos de areia ou a construção de recifes artificiais.
Já as soluções verdes priorizam o reflorestamento e a recuperação de ecossistemas naturais, utilizando a própria natureza como aliada na proteção da costa. Segundo o pesquisador, essa abordagem traz benefícios tanto para o ser humano quanto para o meio ambiente, sendo considerada mais sustentável a longo prazo.
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