A temporada de verão no litoral sul do Espírito Santo, especialmente nas cidades de Itapemirim e Marataízes, está sendo marcada por um paradoxo alarmante: rios transbordando e, ao mesmo tempo, torneiras secas.
O colapso no abastecimento de água durante o Réveillon 2026 expôs a falência estrutural do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), autarquia municipal responsável pelo saneamento, e reacendeu o debate sobre uma manobra política que visa a privatização dos serviços.
O SAAE, que atende ambas as cidades, opera com uma estrutura considerada obsoleta e ineficiente. A falta de investimentos em ampliação de captação, novos reservatórios e manutenção de redes resultou em um sistema incapaz de suportar a demanda da população flutuante de verão. O orçamento da autarquia previsto para o exercício financeiro de 2026 é na ordem de R$ 56 milhões.
Bairros centrais, orla e o balneário de Itaipava enfrentaram dias de desabastecimento, com relatos de turistas deixando a cidade e comércios amargando prejuízos no período de maior faturamento.
O custo da ineficiência
A crise de saneamento ocorre em um cenário de fartura de recursos municipais. O vereador de Itapemirim, Paulo Neto (Podemos), em entrevista ao programa Direto da Redação, denunciou o que classifica como uma estratégia deliberada de precarização.
Segundo o parlamentar, enquanto o SAAE definha por falta de investimento, a prefeitura gasta milhões de reais em iniciativas consideradas supérfluas, como shows, decoração natalina e, ironicamente, o aluguel de carros-pipa.
“A crise não é por falta de água, mas por falta de investimento. Tem água em abundância, mas um sistema de saneamento parado e um governo milionário que investe milhões em shows, que torra milhões com carro pipa, mas não investe no sistema. […] Um contrato milionário de aluguéis de caminhão, 3 milhões e meio separado para alugar caminhão pipa, é brincadeira”, destacou Paulo Neto.
O vereador aponta que o sucateamento visa facilitar a entrega dos serviços à Cesan (Companhia Espírito-santense de Abastecimento), autarquia do governo estadual, como um passo intermediário para a privatização.
Verão 2026 sem água em Itapemirim-ES e Marataízes-ES | Foto: WhatsApp/Reprodução.
Estratégia de regionalização e risco do encarecimento
A denúncia do vereador se alinha ao contexto estadual do Projeto Universaliza.ES, coordenado pelo governador Renato Casagrande (PSB). O projeto, estruturado em parceria com o BNDES, visa a regionalização do saneamento e a atração de investimentos privados por meio de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs).
A crítica central é que essa estratégia, ao seguir um modelo que teria se mostrado problemático em outros estados, como o Rio de Janeiro, pode resultar no encarecimento dos custos para o consumidor final, sem garantia de melhoria imediata na qualidade do serviço.
O vereador Paulo Neto ressaltou que os investimentos estaduais e federais no setor estariam condicionados à adesão dos municípios ao modelo regionalizado, pressionando Itapemirim a abrir mão do controle do SAAE.

O vereador prometeu empreender medidas judiciais e convocar uma audiência pública para debater a situação, chamando o diretor do SAAE e o diretor da Agência Reguladora de Serviços Públicos (Ares) para prestar esclarecimentos sobre a falta de cumprimento da tabela de investimentos.
A crise do saneamento em Itapemirim e Marataízes, portanto, transcende a questão técnica e se estabelece como um embate político e econômico, onde a precarização do serviço público é vista como o prelúdio para a entrega de um bem essencial à iniciativa privada.
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