Duas irmãs gêmeas idênticas, que nasceram em Vitória e moram em Vila Velha, na Grande Vitória, tiveram uma surpresa ao consultar o resultado de uma das etapas do concurso da Polícia Civil do Espírito Santo. Apesar da semelhança física, Natália Mendes Ferreira e Naiara Mendes Ferreira receberam avaliações diferentes na análise destinada aos candidatos que concorrem às vagas reservadas por cotas raciais.
As duas se autodeclaram negras e disputam uma vaga para o cargo de oficial investigador de polícia. No resultado preliminar, divulgado em 27 de outubro, Naiara foi considerada apta, enquanto Natália recebeu parecer desfavorável.
O caso ganhou repercussão e levantou questionamentos sobre os critérios utilizados pelas comissões responsáveis pela avaliação.
Irmãs foram avaliadas no mesmo dia, mas por bancas diferentes
A avaliação presencial aconteceu em 17 de outubro. Natália e Naiara compareceram no mesmo horário, vestindo roupas de tonalidades semelhantes e sem maquiagem.
Apesar disso, foram encaminhadas para comissões diferentes. Natália passou pela banca 1, enquanto Naiara foi avaliada pela banca 2.
Segundo relato de Natália à imprensa capixaba, o procedimento foi rápido. Ela precisou informar seus dados pessoais e confirmar a autodeclaração racial diante de uma câmera, sem responder a perguntas sobre suas características físicas.
A candidata contou que inicialmente pensou que o resultado pudesse ter sido publicado por engano.
A situação chamou ainda mais sua atenção porque as duas já haviam participado de avaliações semelhantes em outros concursos, incluindo uma seleção da Polícia Penal em 2025, sem receber decisões divergentes.
Natália apresentou recurso administrativo para tentar reverter o resultado.
Mais de 200 candidatos foram considerados inaptos
A situação das gêmeas não foi a única a provocar questionamentos.
De acordo com os dados divulgados na lista preliminar, 201 candidatos foram considerados inaptos na etapa de heteroidentificação. Outros 377 receberam resultado favorável e 51 constaram como ausentes.
O concurso oferece 1.052 vagas para oficial investigador de polícia, distribuídas entre ampla concorrência e modalidades de reserva de vagas.
Os candidatos já passaram por etapas como prova objetiva, teste de aptidão física, exames de saúde e avaliação psicológica.
Como funciona a heteroidentificação?
A heteroidentificação é um procedimento utilizado em concursos públicos para verificar a autodeclaração racial dos candidatos que disputam vagas reservadas.
A análise considera características físicas observáveis, como tonalidade da pele, textura dos cabelos e traços faciais.
O objetivo é evitar fraudes na utilização das cotas e garantir que a política de reserva de vagas alcance o público ao qual se destina.
No entanto, especialistas apontam que diferenças de interpretação entre avaliadores podem gerar controvérsias, principalmente quando os critérios não são aplicados de maneira uniforme.
A advogada Jéssica Wanzeller, especialista em direito antidiscriminatório, destacou, em entrevista à imprensa, a importância da preparação dos integrantes das bancas e das condições em que as avaliações são realizadas.
Segundo a especialista, iluminação, ambiente e capacitação dos avaliadores são fatores que precisam ser observados para reduzir a subjetividade do procedimento.
O que diz a organizadora do concurso?
O Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo (Ibade), responsável pela organização do concurso, informou à imprensa que as avaliações foram individuais, realizadas por comissões de cinco integrantes e registradas em vídeo.
A instituição afirmou que o procedimento seguiu as regras estabelecidas no edital.
Entretanto, não apresentou uma explicação específica sobre os fatores que levaram as duas irmãs a receber resultados diferentes.
A Polícia Civil do Espírito Santo informou que a responsabilidade pela etapa de heteroidentificação é do instituto organizador.
Resultado final está previsto para novembro
O prazo para apresentação de recursos contra o resultado preliminar terminou em 29 de outubro.
A divulgação do resultado final do concurso está prevista para 11 de novembro de 2026.
Até lá, Natália aguarda a análise do recurso apresentado. A decisão poderá definir sua permanência na disputa pelas vagas reservadas.
O episódio também trouxe à discussão a necessidade de transparência e uniformidade nas avaliações de cotas raciais em concursos públicos.
Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Estado do Espírito Santo.
Siga o GIR0 CAPIXABA no Instagram



