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Caso Araceli: A tragédia que chocou o Brasil e permanece impune por 53 anos

Menina de 8 anos foi raptada em Vitória (ES), drogada, estuprada e morta em 1973; crime que expôs violência contra crianças e inspirou dia nacional de combate ao abuso nunca foi solucionado

redação Por redação
22/02/2026 - 12:10 - atualizado em 23/02/2026 - 16:37
em Cidade
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Em uma sexta-feira de maio de 1973, a pequena Araceli Cabrera Sánchez Crespo saiu de casa como em qualquer outro dia. A menina de apenas 8 anos, filha de Gabriel Crespo, eletricista espanhol, e de Lola Sánchez, dona de casa boliviana, morava modestamente com a família no Bairro de Fátima, na Serra.

Ela tinha um irmão mais velho, Carlos, de 13 anos, e estudava no Colégio São Pedro, na Praia do Suá, em Vitória.

Aquela sexta-feira, 18 de maio de 1973, seria o último dia em que Araceli seria vista com vida. O que aconteceu com ela se tornaria um dos crimes mais brutais, chocantes e impunes da história do Brasil — um caso que, meio século depois, ainda não encontrou justiça.

Desaparecimento na saída da escola

Naquela manhã ensolarada, Araceli foi à escola normalmente. Por conta do horário do ônibus que a levaria de volta para casa, sua mãe, dona Lola, pediu para que ela saísse mais cedo do colégio. A menina obedeceu e deixou a Escola São Pedro por volta do meio-dia.

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Ao sair, Araceli foi vista por um adolescente em um bar localizado no cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória — a poucos minutos do colégio. A testemunha contou à polícia que a menina não havia entrado no ônibus e ficou brincando com um gato no estabelecimento. Depois disso, Araceli simplesmente desapareceu.

Quando a noite caiu e a filha não retornou, Gabriel Sanchez Crespo começou desesperadamente a procurá-la pelas ruas de Vitória. Pensando se tratar de um sequestro, ele distribuiu fotografias de Araceli aos jornais locais. A pequena cidade capixaba entrou em comoção.

Nos dias seguintes, boatos dos mais diversos começaram a circular: alguns diziam que Araceli havia sido vista com uma mulher loira; outros falavam em sequestro para o interior do estado. Uma denúncia levou a polícia até Nova Venécia, a 250 quilômetros de Vitória, onde uma criança com características semelhantes foi encontrada — mas não era Araceli.

Em 15 de junho, um suposto sequestrador entrou em contato telefônico com a família, exigindo cinquenta mil cruzeiros para libertar a menina. A família aceitou pagar o resgate e aguardou uma segunda ligação, que nunca veio. O suposto sequestrador desapareceu.

A imprensa capixaba passou a criticar duramente o trabalho da polícia. Jornalistas exigiram que as autoridades locais pedissem ajuda à polícia do Rio de Janeiro ou aos órgãos de inteligência do Exército. 

A comoção era total. Uma grande procissão foi realizada pelas ruas de Vitória em prol da localização da criança.

Caso Araceli: Crime Bárbaro que Chocou o Brasil e Permanece Impune há 53 Anos
Araceli Cabrera Crespo: em 1973, crime gerou comoção em todo o Brasil | Foto: Reprodução.

Corpo encontrado no matagal

Seis dias após o desaparecimento, em 24 de maio de 1973, um corpo foi encontrado em um matagal nos fundos do Hospital Infantil de Vitória (hoje Hospital Jesus Menino), na Praia do Suá. A cena era devastadora: o corpo estava desfigurado, carbonizado e em avançado estado de decomposição.

Quem encontrou o corpo foi o policial Ronaldo Monjardim, que tinha apenas 15 anos na época e acompanhava o pai. Décadas depois, em 2015, ele retornou ao local e relembrou o momento traumático:

“Só tinha o corpo dela ali naquele local. Foi uma cena muito… Parece que eu estou vendo o momento em que eu encontrei ela, voltando aqui ao local”, disse ao G1.

Gabriel Crespo, o pai de Araceli, foi chamado para o reconhecimento. Acompanhado pela imprensa, ele inicialmente reconheceu o corpo como sendo de sua filha, embora as autoridades tenham informado que o estado psicológico dos familiares não permitia um reconhecimento adequado. Dias depois, diante do choque e da dor, a família negou o reconhecimento, gerando uma controvérsia que se estendeu por semanas.

Quase um mês depois, uma nova perícia confirmou: aquele corpo era de Araceli Cabrera Sánchez Crespo.

Resultado da autópsia revelou um crime brutal

A autópsia e as investigações revelaram detalhes horripilantes. A menina foi raptada, mantida em cárcere privado por dois dias, drogada com barbitúricos e LSD, estuprada brutalmente e assassinada. Segundo laudos periciais, o corpo de Araceli apresentava marcas de dentadas nos seios, na barriga e na vagina.

De acordo com a acusação, Araceli foi mantida prisioneira no porão e no terraço do Bar Franciscano, na Praia de Camburi, que pertencia à família Michelini. Sob efeito de drogas pesadas, ela foi violentada repetidamente. O excesso de substâncias tóxicas provocou um coma. Quando a menina parou de respirar, os acusados entraram em pânico.

Para ocultar o crime, jogaram ácido corrosivo no corpo da menina para dificultar a identificação. Mantiveram o cadáver sob refrigeração por algum tempo e, finalmente, descartaram os restos mortais no terreno baldio próximo ao Hospital Infantil.

O perito carioca Carlos Eboli, chamado para auxiliar nas investigações, constatou que a causa da morte foi intoxicação exógena por barbitúricos, seguida de asfixia mecânica por compressão.

Os acusados: jovens da elite capixaba

As investigações apontaram três principais suspeitos, todos membros de famílias tradicionais e extremamente influentes do Espírito Santo:

  • Paulo Constanteen Helal (conhecido como “Paulinho”) — filho de Constanteen Helal, dono de uma das principais lojas do estado.
  • Dante de Barros Michelini (conhecido como “Dantinho”) — filho de Dante de Brito Michelini, latifundiário e figura poderosa junto ao regime militar.
  • Dante de Brito Michelini (pai de Dantinho) — acusado de ter mantido Araceli em cárcere privado no Bar Franciscano, de sua propriedade.

A família Michelini, que atuava no ramo de exportação de café, era tão influente que o avô de Dantinho, também chamado Dante Michelini, dá nome até hoje a uma das principais avenidas de Vitória, onde estava localizado o badalado Bar e Boate Franciscano, de propriedade da família. 

Segundo testemunhas, Paulinho e Dantinho eram conhecidos na cidade como usuários de drogas pesadas que violentavam garotas menores de idade. Havia rumores de que o grupo teria sido responsável também pela morte de um guarda de trânsito que os havia parado. O Bar Franciscano seria uma zona livre para orgias e uso de drogas. 

A testemunha-chave do caso foi Marislei Fernandes Muniz, ex-amante de Paulo Helal, que declarou à polícia que Araceli foi dopada com uma dose fortíssima de LSD, à qual não resistiu. 

Segundo Marislei, no dia do desaparecimento, Paulo Helal estava em seu Ford Mustang branco e pediu a ela que chamasse Araceli, dizendo que “Tio Paulinho” a levaria para casa. A menina, confiante, teria aceitado.

Intimidação, mortes suspeitas e omissão

Durante as investigações, algo sinistro começou a acontecer: testemunhas-chave começaram a morrer em circunstâncias suspeitas. O sargento José Homero Dias, que estava prestes a finalizar as investigações e apontava diretamente para os acusados, foi morto com tiros nas costas. O caso foi arquivado e esquecido por anos.

O escritor e jornalista José Louzeiro, que investigava o crime para escrever o livro-reportagem “Araceli, Meu Amor” (1976), relatou que o caso produziu 14 mortes, entre possíveis testemunhas e pessoas interessadas em desvendar o crime.

Louzeiro afirmou que ele próprio foi alvo de uma tentativa de “queima de arquivo”. Segundo o escritor, um funcionário do hotel onde estava hospedado — pertencente à família Helal — o alertou de que sua vida corria perigo. A partir de então, Louzeiro passou a preencher ficha em um hotel e se hospedar em outro. 

Foi o vereador Clério Falcão, que se elegeu deputado estadual com a promessa de levar o caso adiante, quem conseguiu a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. A CPI concluiu que houve omissão deliberada da polícia local, interessada em manter distantes de suas investigações os verdadeiros assassinos.

Havia denúncias de que Dante de Brito Michelini usou suas ligações com o regime militar para dificultar as investigações e pressionar autoridades. O Brasil vivia sob a ditadura militar, e a influência política e econômica das famílias Helal e Michelini era enorme.

O primeiro julgamento: condenação em 1980

Em 1980, após sete anos de luta por justiça, o juiz Hilton Sily proferiu a sentença:

  • Paulo Helal e Dantinho foram condenados a 18 anos de reclusão.
  • Dante de Brito Michelini foi condenado a 5 anos de reclusão.

O juiz Hilton Sily afirmou em entrevista ao Jornal da Globo que os três foram condenados porque “foi provada a materialidade e a autoria do crime”:

“Foi através não só da farta prova testemunhal, mas também, sobretudo, da prova indiciária, que é chamada prova artificial indireta ou circunstancial, baseado em indícios veementes, graves, sérios e em perfeita sintonia de causa e efeito com o fato principal”, declarou.

Parecia que, finalmente, a justiça havia sido feita. Mas a vitória foi efêmera.

A reviravolta: absolvição e impunidade

Em 1991, os acusados recorreram da decisão. O Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) anulou a sentença, alegando irregularidades processuais. O processo foi reaberto e passou para o juiz Paulo Copolilo, que gastou cinco anos estudando o caso.

As famílias Helal e Michelini contrataram doze dos melhores advogados de Vitória para destituir as provas do crime. Segundo relatos, testemunhas foram intimidadas, provas desapareceram, e a pressão sobre autoridades foi intensa.

Em 1991, o juiz Paulo Copolilo proferiu uma sentença de mais de 700 páginas que absolvia os acusados por falta de provas.

Em 1993, o caso prescreveu definitivamente. Ninguém foi punido pela morte de Araceli.

Paulo Helal e Dante de Barros Michelini (Dantinho) tornaram-se, nas palavras de José Louzeiro, “senhores acima de qualquer suspeita”.

Caso Araceli: Crime Bárbaro que Chocou o Brasil e Permanece Impune há 53 Anos
Resgate dos restos mortais de Araceli | Foto: Reprodução.

O sofrimento da família

A tragédia destruiu a família Cabrera Crespo. O pai, Gabriel, e a mãe, Lola, se separaram pouco tempo depois da morte de Araceli. Dona Lola retornou à Bolívia, sua terra natal, onde viveu até sua morte como viúva. Gabriel Sanchez Crespo faleceu em 2001, levando consigo a dor de nunca ter visto os assassinos de sua filha pagarem pelo crime.

Carlos Cabrera Crespo, o irmão de Araceli, hoje vive no Canadá com a família. Em 2016, ele quebrou o silêncio em recente entrevista ao G1:

“A gente convivia muito e eu sinto muita saudade dela. Apesar de todo esse tempo, não passa um dia que eu não penso nela. Todos os dias da minha vida eu me lembro dela”, disse emocionado.

Carlos tinha 13 anos quando Araceli desapareceu. Ele relembrou a menina alegre, cercada de cuidados:

“Ela era cercada de muito cuidado em casa. Eu, por ser o mais velho, tinha muito carinho com ela. Meu pai era muito dengoso com ela, por ela ser menina, por ela ser a caçula, ele tinha muito cuidado com ela.”

Sobre as acusações, Carlos foi enfático:

“Acusaram essas pessoas, o Paulo Helal e o Dante Michelini, falando que a minha família, que a minha mãe conhecia, sendo que a gente nunca tinha ouvido falar no nome dessas pessoas. A gente conhecia a loja dos Helal, que ficava na Praça Oito, e a Avenida Dante Michelini. A gente nem sabia quem eram essas pessoas. Meu pai era um operário, minha me era uma dona de casa.”

O corpo de Araceli permaneceu no Instituto Médico Legal de Vitória até outubro de 1975, quando foi enviado para necrópsia no Rio de Janeiro. Somente em 1976 — três anos após sua morte — a menina foi finalmente sepultada no Cemitério Municipal da Serra, no túmulo de número 1213.

Censura durante a ditadura

O livro-reportagem “Araceli, Meu Amor”, de José Louzeiro, lançado em 1976, foi censurado durante a ditadura militar a pedido dos advogados dos acusados. A obra só voltou a circular anos depois.

A morte brutal de Araceli não foi em vão. Seu caso expôs a violência sexual contra crianças no Brasil e inspirou a criação de políticas públicas de proteção.

Em 2000, a então deputada federal capixaba Rita Camata, presidente da Frente Parlamentar pela Criança e Adolescente, propôs um projeto de lei estabelecendo o 18 de maio — dia da morte de Araceli — como Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianas e Adolescentes.

O projeto virou a Lei Federal nº 9.970, sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde então, todo 18 de maio, entidades que atuam em defesa dos direitos de crianças e adolescentes promovem atividades em todo o país para conscientizar a sociedade sobre a gravidade dos crimes de violência sexual.

Denúncia à OEA pede reparação histórica

Em maio de 2023, ao completar 50 anos do crime, o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH) e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase-ES) denunciaram o caso Araceli à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A denúncia cobra que o Estado brasileiro seja responsabilizado internacionalmente por omissão e violações de direitos humanos.

Segundo o advogado do MNDH, Carlos Nicodemos:

“Trata-se de uma reparação histórica que reposiciona o Caso Araceli no campo da responsabilização do Estado, por ter violado um conjunto de direitos humanos, inclusive da sociedade. A omissão do Estado brasileiro é evidente, e o que é mais grave, com uma motivação decorrente de atuação com o regime militar à época.”

A denúncia destaca que, passado mais de meio século do crime, “não houve um cumprimento efetivo quanto ao dever de investigar, responsabilizar e punir do Estado brasileiro”.

Crime Bárbaro em Guarapari: Dante Michelini Decapitado Vivo e Carbonizado | Caso Resolvido
Dante Michelini: morte brutal em Guarapari, no ES | Foto: Reprodução.

A morte de Dante Michelini: coincidência ou vingança?

No dia 3 de fevereiro deste ano, o nome de Dante Michelini voltou às manchetes. Dante de Brito Michelini, de 76 anos — um dos absolvidos no caso Araceli —, foi encontrado decapitado vivo e carbonizado em seu sítio em Guarapari.

O assassino confesso, Willian Santos Manzoli, de 28 anos, alegou que o crime foi motivado por vingança após ser humilhado publicamente por ter perdido uma briga para alguém a quem chamavam de “estuprador”.

A Polícia Civil descartou ligação direta com o caso Araceli, mas o simbolismo da brutalidade do assassinato — decapitação e carbonização, assim como aconteceu com Araceli — reacendeu debates sobre justiça, impunidade e vingança no Brasil.

Carlos Cabrera Crespo, irmão de Araceli, declarou ao G1 após saber da morte de Dante:

“Só queria que meus pais estivessem vivos para ver que Deus não falhou.”

A marca da impunidade

O caso Araceli permanece como uma mancha vergonhosa na história do Brasil — um crime bárbaro, comprovado por testemunhas e perícias, que resultou em total impunidade devido à influência política e econômica dos acusados.

Meio século depois, a memória de Araceli Cabrera Sánchez Crespo continua viva, não apenas como símbolo de uma tragédia, mas como um grito de alerta para a sociedade brasileira: a violência sexual contra crianças e adolescentes é real, devastadora e exige combate constante.

*Com informações da Revista VIU!. Compartilhe esta reportagem do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Espírito Santo. 

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