A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) realizou, na noite da última sexta-feira (8), uma sessão solene em homenagem aos 177 anos da Insurreição de Queimado. Durante a cerimônia, 20 pessoas e instituições receberam a Medalha Chico Prego pelo trabalho desenvolvido na luta contra a discriminação racial e em defesa da população negra capixaba.
A solenidade foi proposta pela deputada estadual Iriny Lopes, presidente da Comissão de Cultura da Casa. O evento também celebrou o reconhecimento do Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Durante o pronunciamento, a parlamentar ressaltou que o reconhecimento do sítio representa uma conquista histórica construída pelo movimento negro capixaba ao longo de décadas de resistência e combate ao apagamento histórico.
Segundo Iriny Lopes, pesquisas desenvolvidas por instituições acadêmicas como a Universidade Federal do Espírito Santo e o Instituto Federal do Espírito Santo foram fundamentais para comprovar a relevância histórica de Queimado para a identidade do Espírito Santo.
A deputada também defendeu um modelo de turismo voltado à preservação da memória e da ancestralidade negra. Ela destacou que o local não deve ser tratado apenas como um ponto turístico convencional, mas como um espaço de reflexão sobre a luta pela liberdade e emancipação do povo negro.
Ainda durante a sessão, Iriny cobrou melhorias na infraestrutura de acesso ao Sítio Histórico de Queimado, localizado no município da Serra. Segundo a parlamentar, foi protocolada uma indicação junto à Ceturb para ampliação das linhas de ônibus até a região.
Representando o Iphan, o presidente nacional do órgão, Deyvesson Israel Alves Gusmão, afirmou que o sítio é um espaço de memória sensível que relembra a violência da escravidão no Brasil e reforça a importância de preservar a história da diáspora africana.
Ele destacou ainda que as políticas de patrimônio cultural precisam contribuir para o enfrentamento do racismo e da desigualdade social, ampliando o reconhecimento da contribuição histórica dos povos africanos e indígenas na formação do país.
O superintendente do Iphan no Espírito Santo, Joubert Jantorno Filho, classificou o reconhecimento do Sítio Histórico de Queimado como uma reparação histórica promovida pelo Estado brasileiro.
Afroturismo e valorização da ancestralidade
A gerente de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), Edneia Conceição de Oliveira, afirmou que o espaço possui potencial para fortalecer o afroturismo no Espírito Santo.
Segundo ela, o local representa muito mais do que um destino turístico, funcionando como um território de preservação da cultura, ancestralidade e memória do povo negro.
A coordenadora-geral do Fórum Chico Prego, Penha Gaspar, destacou que a história de Queimado simboliza coragem, resistência e luta pela liberdade diante da escravidão e da violência sofrida pela população negra no século XIX.
Representante dos Povos de Matriz Africana, Ricardo Luiz dos Santos Paiva afirmou que Queimado representa uma herança coletiva que deve ser preservada por toda a sociedade, independentemente de religião ou origem.
Pesquisa acadêmica fortaleceu reconhecimento
O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Ifes Serra teve participação importante nas pesquisas que subsidiaram o reconhecimento do sítio como patrimônio nacional. Representando o grupo, o professor Leonardo Matiazzi Corrêa ressaltou a necessidade de ampliar a presença da história de Queimado nos currículos escolares e universitários.
Apresentações culturais marcaram a cerimônia
A solenidade contou ainda com apresentações culturais da banda de congo Konshaça, do coral e orquestra do Instituto Serenata d’Favela e da dupla Kauã Soeiro e Zeumy Almeida Soeiro.
Semana Estadual da Insurreição de Queimado
A deputada Iriny Lopes também é autora da Lei 12.032/2024, que criou a Semana Estadual da Insurreição de Queimado, celebrada anualmente entre os dias 19 e 26 de março.
Entenda a Insurreição de Queimado
A Insurreição de Queimado aconteceu em 19 de março de 1849, na antiga Freguesia de Queimado, atual município da Serra. O movimento é considerado a primeira grande revolta de escravizados da então província do Espírito Santo.
A rebelião foi reprimida pelas autoridades da época e diversos líderes foram condenados à morte. Entre eles estavam Francisco de São José, conhecido como Chico Prego, João Monteiro, chamado João da Viúva, e Elisiário Rangel.
Chico Prego acabou capturado e executado em 11 de janeiro de 1850. Já Elisiário conseguiu fugir e nunca mais foi preso.
Confira os homenageados com a Medalha Chico Prego
- Associação de Capoeira Força Negra (ACFN)
- Alexssandro de Jesus Silva (Pai Brasinha)na Paula Lyra dos Santo
- Danieli Rodrigues da Silva
- Djanira Maria Duarte dos Santos
- Emef Professora Ângela Maria Pereira Barcelos
- Instituto Serenata d’Favela
- Instituto Modus Vivendi
- Instituto Quadro de Esperança
- Leonardo Matiazzi Corrêa
- Leticia Secomandi Mazzoco
- Lucas Ribeiro de Maria
- Missionários Combonianos
- Moacir Alves Rodrigues
- Projeto Caminho do Bem
- Ricardo Luiz dos Santos Paiva (Pai Ricardo)
- Ruthileia Machado
- Sabrina Luciano Ramos
- Saionara Paixão Santos
- Zeumy Almeida Soeiro (Mizinho Dussamba)
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