Um mês após as chuvas que devastaram cidades da Zona da Mata Mineira, moradores ainda lidam com o luto, os prejuízos materiais e a incerteza sobre o futuro. O desastre, ocorrido principalmente na noite de 23 de fevereiro, deixou 73 mortos — sendo 65 em Juiz de Fora e 8 em Ubá — além de milhares de pessoas desabrigadas.
As enchentes, enxurradas e deslizamentos também atingiram municípios como Matias Barbosa, ampliando o rastro de destruição na região.
Entre os relatos mais marcantes está o de Claudia da Silva, de 71 anos, moradora do bairro Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora. Ela perdeu 20 familiares na tragédia e ainda enfrenta as consequências emocionais do ocorrido.
“Procurei tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça. Um sobrinho de 16 anos que sobreviveu teve que amputar uma perna. Estou desesperada”, contou.
A casa onde vive com a mãe, de 85 anos, foi interditada pela Defesa Civil, mas elas decidiram permanecer no local, mesmo com medo constante.
“Não conseguimos dormir direito e nos sentimos abandonadas. Ninguém veio oferecer ajuda ou moradia”, lamentou.
Rotina de incerteza
A aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, também vive uma rotina instável. Durante a noite, se abriga na casa da filha, mas retorna diariamente à residência interditada para tentar preservar o imóvel.
“Você leva uma vida inteira para construir uma casa e perde tudo de repente. Não dá para simplesmente abandonar”, disse.
Além das perdas materiais, a situação agravou problemas de saúde na família. O marido faz tratamento cardíaco, enquanto Maria relata aumento da ansiedade e dificuldades para controlar a diabetes.
Ela afirma que ainda não recebeu apoio financeiro efetivo e enfrenta dificuldades até mesmo para acessar serviços públicos devido a longas filas.
A Prefeitura de Juiz de Fora informou que o auxílio calamidade será depositado nas contas de famílias cadastradas no CadÚnico a partir da próxima segunda-feira (23).
Desde o desastre, a Defesa Civil registrou 6.690 ocorrências no município. Fevereiro de 2026 foi o mês mais chuvoso da história local, com 763,8 mm — muito acima da média histórica de 173 mm.
Mais de 8,5 mil pessoas ficaram desabrigadas, com 1.008 moradias totalmente destruídas. Até 19 de março, 170 famílias estavam hospedadas em hotéis, após passarem por abrigos temporários.
Na educação, 101 unidades já retomaram as atividades, mas cinco escolas ainda seguem fechadas.
Situação em Ubá
Em Ubá, a prefeitura afirma que presta assistência às famílias atingidas, incluindo abrigo, alimentação e apoio psicológico. O município também realiza o cadastro dos afetados para acesso a benefícios estaduais e federais.
A área atingida chega a cerca de 47,4 km², o equivalente a 11,6% do território da cidade. Desde fevereiro, foram registradas 1.188 famílias desalojadas e 4.790 pessoas diretamente impactadas.
O município solicitou mais de R$ 55 milhões ao governo federal para ações de recuperação.
Danos em Matias Barbosa
Em Matias Barbosa, apesar dos transtornos, não houve registros de colapsos estruturais graves. Ainda assim, mais de 300 famílias foram afetadas e cerca de 80% do comércio local sofreu impactos.
A prefeitura trabalha na criação de um auxílio financeiro municipal, enquanto estudos técnicos apontam a necessidade de obras de contenção de encostas e prevenção de alagamentos.
Resposta do governo federal
O governo federal afirma ter destinado quase R$ 2 bilhões em recursos para ações emergenciais e reconstrução nas áreas atingidas.
Entre as medidas está o Auxílio Reconstrução, de R$ 7,3 mil por família, além da modalidade Compra Assistida do programa Minha Casa Minha Vida, que prevê subsídio para aquisição de imóveis.
Também foram liberados saque calamidade do FGTS, antecipação do abono salarial e parcelas extras do seguro-desemprego. Até o momento, os saques somam mais de R$ 165 milhões em Juiz de Fora e R$ 38 milhões em Ubá.
Na área da saúde, foram destinados R$ 14,9 milhões, incluindo envio de medicamentos e apoio psicossocial. Para educação e assistência social, os repasses chegam a R$ 5,3 milhões.
Além disso, uma medida provisória liberou R$ 1,3 bilhão em crédito extraordinário, com possibilidade de mais R$ 500 milhões em financiamentos.
Estado não respondeu
Procurado para comentar as ações voltadas às famílias atingidas, o governo de Minas Gerais não respondeu até o fechamento da reportagem.
Enquanto isso, moradores seguem enfrentando dificuldades para reconstruir suas vidas, à espera de soluções mais rápidas e efetivas.
Compartilhe esta reportagem do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram


