As cotas raciais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) completam 22 anos em 2025 e seguem transformando trajetórias de vida. Para Henrique Silveira, ex-estudante de geografia e atual subsecretário de Tecnologias Sociais da prefeitura do Rio, a política de ações afirmativas foi decisiva. “Eu tenho muita clareza de que a cota transforma. Ela me permitiu deixar de ser um menino atrás de uma carroça para hoje estar à frente da gestão pública”, afirmou.
Criado em Imbariê, distrito pobre da Baixada Fluminense, Henrique fez um balanço da própria história ao participar, no fim de novembro, de um encontro de egressos promovido pela universidade. Pioneira no país, a Uerj adotou cotas sociais e raciais em 2003 e hoje prepara a segunda revisão da lei que rege o sistema, prevista para 2028.
O encontro reuniu ex-estudantes para discutir uma nova fase da política, que envolve mapear trajetórias profissionais e fortalecer laços com egressos. Henrique, que ingressou em 2006, destaca que sua mobilidade social foi diretamente ligada à oportunidade oferecida pela universidade. “Essa política é capaz de tirar um jovem pobre de trás de uma carroça e levá-lo ao ensino superior”, disse.
Entre as histórias compartilhadas, a dentista Maiara Roque relembrou o dia em que foi aprovada no vestibular de 2013. Cotista negra, ela enfrentou desafios no início, quando os auxílios eram mais restritos e não acumuláveis. “Depois que você entra, descobre que pertence àquele lugar. Eu pensava: ‘não queriam que eu estivesse aqui, mas vou fazer valer’”, contou. Pesquisas posteriores derrubaram críticas iniciais, mostrando que cotistas têm desempenho equivalente ao de não cotistas.
Segundo o IBGE, as cotas aceleraram a redução da desigualdade no ensino superior. Em 2022, 11,7% dos jovens pretos e 12,3% dos pardos tinham diploma universitário, ainda abaixo dos 25,8% entre brancos, mas com avanço significativo.
Hoje atuando como dentista na Penha, bairro onde cresceu, Maiara afirma que levar seu trabalho à comunidade é uma forma de retribuir: “As pessoas ficam muito à vontade com uma doutora que é negra, do bairro e que não julga”.
Na Uerj, diferente das universidades federais, o ingresso por cotas raciais inclui critérios socioeconômicos, com renda de até R$ 2.277 por pessoa. O modelo já permitiu que 32 mil estudantes ingressassem na instituição, mas egressos defendem uma revisão do recorte, considerado baixo e excludente — principalmente na pós-graduação.
David Gomes, ex-aluno de história e morador do Complexo da Penha, ingressou por cotas em 2011 e afirma que o acesso à Uerj representou novas perspectivas. “Cresci em uma região onde muitas pessoas não têm as mesmas oportunidades. O estudo me permitiu trilhar outro caminho”, relatou. Ele defende eliminar o critério socioeconômico na pós-graduação e ampliar o debate na graduação, incluindo discussões sobre a inscrição no CadÚnico.
Para fortalecer a política, egressos defendem ampliar a coleta de dados, reduzir a burocracia e apoiar pré-vestibulares populares. Henrique, que também foi aluno e coordenou iniciativas sociais, destaca que foi em um cursinho comunitário que compreendeu sua identidade racial. “No Brasil, você não nasce negro; você torna-se negro. Eu era um daqueles que dizia ‘não quero cota’, mas entendi que era meu direito”, afirmou.
Regida pela Lei 8.121/2018, a política reserva 20% das vagas da universidade para cotas raciais — incluindo indígenas e quilombolas — e outros 20% para estudantes que concluíram o ensino médio integralmente em escolas públicas. A legislação também permite acumular bolsas, ampliando condições de permanência e favorecendo a continuidade dos estudos.
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